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A urgência de viver tudo: Como a cultura do “aproveite o hoje” está nos adoecendo

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 20 de mai.
  • 3 min de leitura

COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Existe uma diferença importante entre cultivar esperança e viver sob a obrigação constante de estar bem. Por outro lado, emoções consideradas socialmente “negativas” como, por exemplo, tristeza, medo, raiva, frustração e angústia possuem função psíquica importante e devem existir. Assim como não tem “botão de desligar”. Elas sinalizam limites, perdas, necessidades, conflitos internos que ajudam as pessoas a elaborarem experiências. O problema da chamada “positividade tóxica” começa justamente quando essas emoções passam a ser tratadas como falhas pessoais que precisam ser rapidamente eliminadas, e que é justamente o que mais tem aparecido na clínica psicológica.


Hoje, grande parte dos discursos consumidos nas redes sociais funciona a partir de uma lógica de desempenho emocional, ou seja, é preciso aproveitar cada instante, ser produtivo, viver intensamente, agradecer o tempo todo e transformar qualquer dor em aprendizado imediato. E tudo isso, quando “alcançado”, vira sinônimo de evolução, maturidade ou outros termos que supõem que o ser humano é “iluminado” e diferenciado. O perigo está justo nisto: o sofrimento deixa de ser entendido como parte inevitável da experiência humana e passa a ser visto quase como incompetência emocional.


Isso produz um efeito paradoxal. Ao mesmo tempo em que as pessoas recebem mensagens constantes sobre “viver o presente”, elas também são lembradas o tempo inteiro de que tudo pode acabar, passar ou ser perdido. E o cérebro humano não responde bem a essa combinação entre urgência e ameaça. O resultado costuma ser ansiedade.


Muitas pessoas não conseguem apenas viver uma experiência; precisam monitorá-la mentalmente enquanto acontece. Precisam garantir que estão aproveitando “o suficiente”, felizes “o suficiente”, presentes “o suficiente”. Existe uma hiperconsciência constante de que o momento é finito, e essa consciência excessiva impede justamente a experiência espontânea do presente. Logo, pensar em aproveitar ao máximo cada coisa que acontece, cada momento, acaba fazendo com que as pessoas não estejam inteiras para aproveitar. Controverso, né? Querer aproveitar faz com que não se aproveite.


É como alguém que, durante uma viagem, passa mais tempo tentando registrar, eternizar e validar aquele momento do que efetivamente vivendo-o. Ou alguém que, enquanto está feliz, já começa a sofrer antecipadamente porque sabe que aquilo um dia irá acabar. A experiência deixa de ser integrada emocionalmente e passa a ser administrada cognitivamente o tempo inteiro.


Do ponto de vista psicológico, isso se aproxima de mecanismos ansiosos importantes: hipervigilância, antecipação de perda e dificuldade de permanência no aqui-agora. A pessoa não descansa emocionalmente, mas vive em estado constante de alerta tentando preservar experiências, vínculos e sensações que, por natureza, são transitórios.


Além disso, as redes sociais intensificam uma percepção distorcida de realidade. O cérebro humano tende naturalmente à comparação social. Porém, uma vez as comparações aconteciam em contextos limitados. Hoje, uma pessoa pode consumir centenas de recortes idealizados em poucos minutos: corpos perfeitos, relacionamentos felizes, produtividade extrema, viagens, sucesso financeiro, rotinas organizadas e discursos motivacionais prontos.

O problema não está apenas em saber racionalmente que aquilo é um recorte. Muitas pessoas sabem disso. A questão é que emocionalmente o impacto permanece. O contato repetitivo com imagens de alta performance afetiva e existencial produz sensação de insuficiência. Como se a vida comum tivesse perdido valor. E a vida real é profundamente comum.


A construção emocional saudável não acontece em estados permanentes de intensidade. Ela acontece na repetição, na frustração tolerável, no vínculo possível, no cotidiano, na capacidade de sustentar limites da realidade sem precisar transformá-la o tempo inteiro em algo extraordinário. Existe um sofrimento contemporâneo muito ligado à intolerância ao vazio e à imperfeição. Criou-se a fantasia de que uma vida bem vivida é uma vida constantemente preenchida por experiências marcantes, felicidade visível e sentido imediato. Mas psiquicamente, seres humanos também precisam de pausa, tédio, elaboração e tempo interno. Nem tudo será grandioso, e isso não significa que esteja dando errado.


Talvez um dos movimentos mais importantes atualmente seja recuperar uma relação mais crítica com os conteúdos consumidos. Nem toda frase motivacional promove saúde mental. Nem todo incentivo ao “pensamento positivo” ajuda emocionalmente. Em muitos casos, apenas aumenta culpa, autocobrança e sensação de inadequação em quem já está exausto tentando corresponder a uma versão impossível de existência.


Saúde emocional não é sentir-se bem o tempo inteiro. É desenvolver recursos internos para sustentar a complexidade da vida sem precisar negar aquilo que dói. É sustentar as faltas, as falhas, os incontroles... porque amadurecimento psíquico não nasce da eliminação do sofrimento, mas da capacidade de atravessá-lo sem transformar a própria humanidade em fracasso.


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