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Cientistas propõem técnica para "desarmar" o El Niño antes de sua formação

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temporacomunicacao
20 de jul.
2 min de leitura

Estudo indica que clareamento artificial de nuvens pode enfraquecer eventos extremos do fenômeno climático, mas especialistas alertam para riscos e efeitos colateraisCientistas propõem técnica para "desarmar" o El Niño antes de sua formação



Uma pesquisa publicada na revista científica Science Advances aponta que cientistas podem ter encontrado uma estratégia inédita para reduzir a intensidade do El Niño antes mesmo de sua formação. A proposta envolve o clareamento artificial de nuvens sobre o Oceano Pacífico, uma técnica de geoengenharia solar que, segundo simulações computacionais, seria capaz de amenizar alguns dos eventos climáticos mais devastadores das últimas décadas.

A hipótese surgiu após um fenômeno inesperado observado na natureza. Os incêndios florestais que devastaram a Austrália durante o verão de 2019/2020 lançaram uma enorme quantidade de fumaça na atmosfera. Esse material alterou as propriedades das nuvens sobre o Pacífico e contribuiu para a formação de uma La Niña que se estendeu entre 2020 e 2023.

Intrigados pelo episódio, pesquisadores norte-americanos decidiram investigar se seria possível reproduzir esse efeito de forma controlada para impedir que um El Niño atingisse sua máxima intensidade.

Utilizando um dos modelos climáticos mais avançados do mundo, os cientistas simularam a aplicação do clareamento artificial das nuvens antes dos super El Niños de 1997/1998 e de 2015/2016. O resultado foi considerado promissor: quando a intervenção era iniciada ainda na fase inicial de desenvolvimento do fenômeno e mantida por um período prolongado, a força do El Niño diminuía significativamente.

Segundo a pesquisadora Jessica Wan, autora principal do estudo e pós-doutoranda da Universidade de Chicago, a descoberta pode representar uma nova forma de utilizar a geoengenharia.

"Se conseguirmos atuar sobre a variabilidade natural do clima, talvez seja possível obter parte dos benefícios da geoengenharia sem precisar recorrer a intervenções permanentes", afirmou.

A pesquisa também recebeu apoio de Katharine Ricke, professora da Scripps Institution of Oceanography e coautora do trabalho. Embora seja reconhecida por defender cautela em relação à geoengenharia, ela considera que o episódio provocado pelos incêndios australianos forneceu uma evidência natural importante para fundamentar a investigação.

Apesar do potencial, o estudo revelou um efeito colateral relevante. As simulações indicam que enfraquecer um El Niño pode acelerar a chegada da La Niña seguinte e, em alguns cenários, torná-la mais intensa, evidenciando a complexidade das interações do sistema climático global.

Os próprios pesquisadores fazem questão de destacar que a tecnologia jamais foi testada em condições reais. O trabalho representa apenas uma prova de conceito baseada em simulações computacionais, sem qualquer previsão de aplicação prática no curto prazo.

Ainda assim, o interesse científico cresce diante dos impactos econômicos do fenômeno. Grandes episódios de El Niño já provocaram prejuízos estimados em trilhões de dólares em todo o mundo, afetando a agricultura, a geração de energia, o abastecimento de água e aumentando a frequência de eventos climáticos extremos.

Embora cercada de incertezas e de debates éticos, a possibilidade de reduzir a intensidade do El Niño antes de sua formação passa a integrar a lista de alternativas estudadas pela comunidade científica para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.

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