Dependência emocional na era do ghosting: quando o silêncio do outro vira prisão
- temporacomunicacao
- 17 de dez. de 2025
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Coluna de Maia Boaro
Vivemos tempos em que os relacionamentos não terminam — desaparecem. Não há conversa, não há despedida, não há fechamento. Há apenas o silêncio. E, para quem já estava emocionalmente dependente, esse silêncio não é ausência: é uma presença constante, ruidosa, que ocupa pensamentos, noites e afetos.
O ghosting não dói apenas porque o outro foi embora. Ele dói porque deixa o sujeito sozinho com perguntas sem resposta. E onde não há resposta, a mente cria narrativas, culpas e fantasias. A dependência emocional se alimenta exatamente disso: da esperança de que o outro volte, explique, escolha. Enquanto isso, quem espera vai se esvaziando de si.
Na dependência emocional, o vínculo não se sustenta pelo encontro, mas pela falta. O outro passa a ocupar o lugar de regulador emocional: é ele quem valida, acalma, dá sentido. Quando esse outro some, não é apenas a relação que acaba — é a estrutura interna que desmorona. O abandono atual reativa abandonos antigos, muitas vezes não elaborados, fazendo com que a dor seja maior do que o tempo real da relação justificaria.
Há, nesses vínculos, uma confusão entre amor e necessidade. Ama-se menos o outro como ele é e mais a função que ele cumpre: preencher vazios, anestesiar angústias, evitar o encontro com a própria solidão. Por isso, o fim não é vivido como perda de alguém, mas como perda de si. O sujeito não sofre apenas porque foi deixado, mas porque não sabe mais quem é sem aquele olhar.
A cultura dos relacionamentos líquidos intensifica esse cenário. Tudo é rápido, substituível, descartável. Promessas são feitas sem compromisso, laços se formam sem profundidade, e a responsabilidade afetiva se dissolve na facilidade de bloquear, silenciar, desaparecer. Ainda assim, a dor de quem fica é profundamente sólida.
Superar a dependência emocional não é esquecer o outro, mas recolocar-se no próprio centro. É compreender que o silêncio do outro não define o seu valor. Que o abandono fala mais sobre a incapacidade do outro de sustentar vínculos do que sobre a sua insuficiência. É um processo de reconstrução interna, lento e, muitas vezes, doloroso — mas libertador.
Quando o silêncio vira prisão, o trabalho psíquico é transformar esse vazio em espaço. Espaço para elaborar, ressignificar e, principalmente, existir sem precisar ser escolhido o tempo todo. Porque o verdadeiro fim de um relacionamento não acontece quando o outro vai embora, mas quando o sujeito consegue, enfim, voltar para si.
















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