Entre Spock, Passárgada e os Céus Conspurcados
- temporacomunicacao

- 20 de mai.
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Tenho pensado muito na felicidade e na mania que a gente tem de correr atrás de coisas que parecem feitas para dar errado.
Há quem consiga viver numa boa, aplaudido pelo teto quentinho da segurança, mas eu nunca soube onde ficava a chave da zona de conforto. Nunca estive confortável. Quisera eu estar. Mas há uma Força, uma inquetação. Algo ao longe, perto e dentro de mim. Mas que me escapa. Entende?
Minha vida sempre foi uma espécie de navegação em mar aberto, com o vento batendo na cara e aquela sensação permanente de que o essencial está logo depois da próxima onda. O problema de buscar algo maior o tempo todo é que a gente acaba esquecendo como se descansa.
Olho para trás e percebo que passei tempo demais sentindo as coisas com uma intensidade que beira a imprudência.
Falta-me, e digo isso com a honestidade de quem já quebrou a cara algumas vezes, uma dose cavalar de racionalidade. Tenho uma imensa vontade de ser como o Sr. Spock, aquele sujeito de orelhas pontudas que resolvia o universo apenas com a lógica pura, no universo de Star Trek.
Queria ser racional como ele, menos emotivo, e ter um coração menos vulnerável. Seria bom ter uma blindagem vulcana que transformasse os sentimentos em meras variáveis de um relatório técnico, protegendo o peito contra as rasteiras da vida. Como seria bom sofrer menos por antecipação e apenas constatar que o mundo é altamente ilógico.
Em vez disso, a gente se pega sonhando com saídas de emergência literárias. Lembrei esses dias de Manuel Bandeira e da sua velha Passárgada, aquele refúgio arcaico onde o poeta fingia que todos os problemas evaporavam porque ele era amigo do rei. É uma fuga erudita, uma dessas utopias antigas que os homens inventam quando a realidade pesa demais no lombo.
O diabo é que Passárgada não existe no mapa e a gente continua aqui, equilibrando as dores da alma com as esquisitices do noticiário.
E bota esquisitice nisso.
O mundo anda mudando de perspectiva de um jeito avassalador. Desde que o Donald Trump resolveu abrir as gavetas trancadas e liberar os arquivos secretos do governo americano, virou uma constatação oficial a presença de discos voadores por aí.
Os tais objetos andam riscando o espaço cósmico e, o que é mais fascinante, mergulhando nas profundezas do oceano. São naves que ignoram a física, que transitam entre o céu e o mar deixando claro o óbvio, que não estamos sozinhos.
É de uma arrogância sem tamanho imaginar que o universo inteiro, com seus bilhões de galáxias, foi feito sob medida para esse bando de imbecis antropocêntricos apenas contemplar da janela de seus apartamentos.
A verdade nua e crua é que não somos absolutamente nada. Se uma tragédia cósmica ou biológica varresse a humanidade do mapa amanhã, o universo continuaria seu curso em um silêncio implacavelmente indiferente à nossa extinção.
Nenhuma estrela choraria por nós.
Somos um sopro irrelevante na escala do tempo, poeira que se acha dona do latifúndio estelar enquanto barcos desconhecidos cruzam as nossas águas e os nossos céus sem sequer pedir licença.
Se o próprio cosmos e os oceanos guardam essa vastidão fria e essas forças misteriosas que reduzem nossa existência ao tamanho de um grão de areia, talvez eu não devesse cobrar tanto do meu próprio peito. A gente tenta ser racional, tenta desenhar a vida com régua e esquadro, mas o coração insiste em ser essa máquina imprevisível, cheia de assombros e ruídos.
Mas quer saber? No fundo, há uma beleza bonita nessa nossa teimosia. Saber que somos pequenos e irrelevantes diante do infinito tira um peso enorme das costas.
Se nunca conheci o conforto do porto seguro, é porque nasci para o movimento.
Ter um coração vulnerável e continuar apostando nos sonhos difíceis, mesmo sabendo que o tombo é quase certo e que o cosmos não se importa, é o que nos torna grandiosos à nossa própria maneira.
Que os discos voadores continuem cruzando os mares e que a gente continue procurando a nossa Passárgada, mesmo sabendo que ela é só um poema antigo.
Enquanto houver estrada pela frente e um mistério para olhar no céu, a gente dá um jeito de seguir adiante, com os olhos limpos e o peito aberto para o que der e vier.












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