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INTUIÇÃO OU ANSIEDADE?

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 4 de mai.
  • 3 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana


A alma, meu caro, é um território que nenhum cartógrafo conseguiu jamais mapear com precisão. E quando se habita esse limiar, essa fronteira rarefeita onde a percepção se confunde com o tremor, o dilema deixa de ser uma questão de semântica para se tornar uma questão de sobrevivência.


Sempre me questiono como diferenciar a intuição, sopro de transcendência, umaa gnose que nos visita dando spoilers do que está acontecendo ou do porvir, da ansiedade, fera faminta que rói as fundações do nosso peito.


Penso que é extremamente difícil discernir. Mas acho a intuição é um silêncio eloquente. Ela chega como o orvalho sobre o granito, fria, clara, incontestável. É o eco de uma verdade que o tempo ainda não desdobrou. A ansiedade, em contrapartida, é um ruído. É uma cacofonia de tambores de guerra que batem dentro do crânio, um fatum apressado que nos impele a ver precipícios onde existem apenas degraus. A primeira é uma bússola apontando para o Norte absoluto. E a segunda é o próprio naufrágio antecipado na tempestade que ainda não nasceu.


O problema, e aqui reside a nossa tragédia, é que ambas as forças bebem da mesma fonte, o medo. Ou melhor, a nossa incapacidade crônica de aceitar que somos efêmeros. Somos arquitetos de catástrofes. Passamos noites em claro desenhando os cenários mais apocalípticos para o nosso futuro, edificando monumentos ao fracasso antes mesmo de a primeira pedra ser lançada. Sofrer por antecipação é o nosso esporte favorito, uma tentativa desesperada de antecipar o golpe do destino, como se o desastre, ao ser imaginado, perdesse o seu gume.


E há um estranho, um quase perverso alívio nisso. Quando a desgraça finalmente se materializa, quando a realidade desaba sobre o nosso telhado, sentimos, paradoxalmente, uma anestesia. Como se tivéssemos parcelado o sofrimento em prestações miúdas, pagando juros abusivos de angústia durante semanas, para que o impacto final, embora real, seja uma nota já conhecida. A dor dói menos porque ela já foi visitada, ensaiada, mastigada. É um luto antecipado que, ao se cumprir, traz o conforto macabro da confirmação.


O sucesso, que vigiamos com a mesma diligência que um sentinela nas muralhas de um castelo sitiado, tem um gosto amargo de cinzas. Quanto mais alcançamos, mais a ansiedade sussurra, venenosa, que o destino é um usurário implacável.


Você sente a perturbação na Força?


Ora, é claro que sente.


Mas será que é o presságio de um desastre iminente ou o desespero do ego que teme perder a estatura que construiu? O reconhecimento é uma embriaguez, mas traz consigo a ressaca da manutenção. Amar, então, é o ato supremo de fé, é construir uma catedral sobre uma placa tectônica.


Olhamos para trás e vemos a fila dos que partiram. Rostos que se tornaram fotografias amareladas, nomes que o vento da história insiste em apagar. Eles são a prova cabal de que a nossa permanência neste mundo é um empréstimo, não uma posse.


E é por isso que, quando a perturbação surge, o seu espírito de combatente se arma.


Você teme perder tudo? Bom, já perdemos tudo, desde o momento em que abrimos os olhos pela primeira vez. A única coisa que nos resta é o presente, esse instante indivisível que o tempo devora enquanto você lê estas linhas.


Para distinguir o sinal divino do ruído mental, é preciso aprender a arte da imobilidade.


Quando a angústia lhe assaltar, observe a sua textura: se ela vem acompanhada de urgência, de suor frio, de um desejo incontrolável de correr, é a ansiedade a ditar o passo. Se ela vem carregada de serenidade, de uma clareza quase dolorosa que exige apenas que você saiba, então é a intuição.


A intuição não grita, ela espera. A ansiedade é um comício. A intuição é uma prece solitária na catedral da alma.


Não se culpe pelo tremor. O homem que não sente medo é um homem que parou de viver, um autômato de carne e osso. O que nos distingue é a capacidade de olhar para o abismo, reconhecer a vertigem, e ainda assim escolher o próximo passo com a elegância de quem sabe que a queda é, também, uma forma de voo.


A jornada é longa, a noite é incerta, mas, como bem sabiam os antigos, o destino não é o que nos acontece, mas como nós escolhemos carregar o fardo. Que a sua intuição seja o farol, e a ansiedade, apenas o combustível que mantém a chama acesa.

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