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O PARADOXO DE ANTÍSTENES

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 24 de abr.
  • 3 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN



Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

O espelho é um objeto por vezes insuportável. Ele não se contenta em devolver a imagem daquela olheira, aquela ruga ou aquele defeito de nossa cara feia. Ele ainda tem a audácia de nos mostrar exatamente quem somos. Ou quem estamos tentando fingir que não somos.


Antístenes já sugeria que o outro é o nosso espelho mais cruel. Se a convivência com quem dividimos a mesa se torna um campo de batalha, talvez a luta não seja contra o parceiro de jornada. É provável que estejamos apenas brigando com o reflexo das nossas próprias sombras projetadas no rosto alheio.


Desde as lendas antigas, o espelho funciona como um portal que retém a essência ou que nos obriga a suportar o mundo duas vezes.


Para quem, como eu, cresceu nos anos oitenta, esse terror tinha uma trilha sonora específica. Guardo um trauma metafísico da melodia sintética dos comerciais dos Calçados Starsax. Kraftewerk. Aquela sonoridade me dava arrepios, causava um medo terrível, como se a música anunciasse a chegada de algo maligno.


A vida é um eterno Hall of Mirrors, a música que tanto temia e que hoje está no meu Spotify. Passamos os dias nos olhando no espelho do outro e o que vemos nem sempre agrada aos olhos. Até as maiores estrelas vivem suas vidas nesse salão de reflexos, diz a letra, e elas se tornam a imagem que projetam, perdendo a distinção entre a pele e o vidro.


Nas relações intensas, temos a tendência irritante de usar o outro como lixeira para os nossos conflitos internos. Se algo dói em nós, é muito mais cômodo dizer que o outro é teimoso ou insensível do que admitir que estamos apenas encarando nossos próprios fantasmas.


A banda Iron Maiden prega, na canção The Evil That Men Do, que o mal que os homens fazem sobrevive a eles. Não falo aqui só de grandes atrocidades históricas, mas também daquela mesquinharia cotidiana e do veneno que destilamos quando nos recusamos a ser autênticos.


Vivemos nessa economia da miséria emocional, economizando afetos como se o tempo fosse um recurso que podemos renovar na próxima esquina. É uma estratégia de sobrevivência medíocre e covarde que nos afasta da real conexão humana.


A grande piada da existência é que somos todos mortais, mas agimos como se fôssemos monumentos de praça imunes ao tempo. Temos medo de amar e de demonstrar o quanto as pessoas são fundamentais para o nosso equilíbrio. Sentimos pavor de admitir que a jornada só faz sentido porque temos alguém dividindo as pautas e os problemas.


Jamais deveríamos ter medo de mostrar o quanto é bom estar com quem amamos, pois não sabemos o futuro e não temos ideia de até quando estaremos por aqui. Essa incerteza dói, e a dor de precisar de uma mesa mediúnica ou de apoio espiritual para lidar com o que não foi dito em vida é uma realidade patética.


É muito mais caro e doloroso tentar consertar no além o que um café honesto no presente resolveria com facilidade. Tudo reside em sermos nós mesmos e em não negarmos o que queremos e sentimos agora.


A vida passa rápido demais para basearmos nossos sonhos e escolhas apenas no intuito de evitar aquilo que não gostamos. Se o outro é o seu espelho, talvez seja hora de parar de tentar quebrar o vidro. Se ele se estilhaçar, sobrará apenas você, sozinho, com a melodia fantasmagórica da Starsax ecoando no vazio absoluto de uma sala sem reflexos.


Portanto, deixe o cinismo barato para os filósofos que já viraram estátua e trate de abraçar e beijar com vontade quem realmente segura o seu rojão e faz a vida valer o café da manhã, pois o destino é um sujeito caprichoso que não avisa quando vai fechar a conta, e a gente nunca sabe até quando terá o privilégio de ter esse alguém por perto para dividir o peso e o prazer da jornada.


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