O vôo de Ícaro e a busca por sentido
- temporacomunicacao

- 17 de ago.
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Atualizado: 19 de ago.
COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Hoje, para começar bem a semana, mais uma vez apelarei para a Mitologia. Vamos falar de Ícaro, o cara que construiu asas de cera para voar ate o Sol. As asas derreteram e ele morreu. Ele acreditava, tinha fé que conseguiria. Mas nao tinha preparo. E nada vem por milagre. Vamos nos debruçar um pouco mais nessa história para vocês entenderem onde quero chegar.
O pobre do Ícaro quis voar perto demais do sol e acabou virando almoço de gaivota. Ele era filho de Dédalo, arquiteto genial que projetou o famigerado Labirinto de Creta para trancar o Minotauro, acabando confinado na mesma prisão que ajudara a erguer. Como a única saída era pelos ares, o pai engenhoso usou plumas de aves unidas com cera de abelha para construir duas belas asas artificiais, recomendando que o filho voasse pelo meio do caminho, longe da umidade do oceano e do calor do sol. Ocorre que Ícaro possuía a alma típica de um jovem deslumbrado pela própria grandeza. No instante em que sentiu a brisa e a ilusão de que dominava o firmamento, esqueceu os conselhos, empinou o nariz e voou cada vez mais alto em busca de glória barata. O calor implacável derreteu a cera e o pobre coitado despencou para as profundezas do mar. A lição moral que os antigos tentaram nos ensinar é que a ousadia tem preço.
Sábado conversava com uma grande amiga, a psicóloga Franciele Sassi, que também é colunista aqui no PAUTA SERRANA. Falamos sobre positividade tóxica. E eu confesso que poucas coisas me irritam mais do que a pessoa que está o tempo todo em um personagem, com voz de leite condensado, falando frases sabidinhas e julgando os outros do alto de sua nuvem.
O mundo contemporâneo sofre de uma solenidade insuportável, onde cada cidadão mediano se acha o eixo gravitacional do cosmos e trata o próprio umbigo com a gravidade de um tratado internacional. É preciso invocar figuras como François Rabelais, aquele monge franciscano e médico humanista do século XVI que sacudiu a Renascença com as aventuras escatológicas e gigantescas de Gargântua e Pantagruel. Rabelais entendeu como poucos que a seriedade excessiva é a farda oficial dos imbecis.
Não podemos ser sérios o tempo todo, sob pena de nos transformarmos em monumentos à nossa própria chatice.
A vida real insiste em acontecer à revelia de nossas planilhas, exige outro tipo de fibra. Exige amor, mas não o amor açucarado de novela com trilha sonora melosa. Amar de verdade é acolher o outro até quando estamos exaustos. Principalmente quando estamos esgotados, com a alma arrastando no chão e a paciência reduzida a pó. É a capacidade quase miraculosa de conseguir transformar o dia de alguém quando tudo o que queríamos era o silêncio de uma tumba.
E como o mundo precisa de gente com empatia, que ama, que acolhe. Mas a nossa época prefere o delírio nostálgico dos defensores da palmada. São aqueles cidadãos que batem no peito nas redes sociais e proclamam com orgulho que na infância apanhavam de cinto e de chinelo e nunca morreram por causa disso. "Essa geração está perdida", bradam.
Ora, o resultado das chineladas é claro, uma legião de adultos profundamente perturbados, incapazes de criar os filhos. Pior que esse só os que fazem videos sobre criação de filhos sem nunca ter estudo isso ou mesmo ter tido a experiencia de ser pai. Desde sempre o ser humano diz que sua época era a melhor. As músicas, a criação, o cotidiano. Não, não era. Nós nos tornamos velhos e ficamos chatos. Simples. A mesma turma que cresceu assistindo à banheira do Gugu, que ficava tentando soltar Hadouken na sala de estar e que agora gasta o tempo criticando o 67 e o tal do farmar aura dos adolescentes.
Antes ao menos tínhamos o refúgio barulhento e enfumaçado dos fliperamas, onde a única preocupação essencial era gastar as fichas em partidas de videogame. Hoje, a gurizada usa plataformas online. Seguimos cultivando ansiedades. Seja no Roblox, ou no Instagram e Facebook.
Crise moral o mundo sempre teve, a humanidade tenta se destruir com afinco desde que foi chutada do paraíso e continua teimando em olhar para o céu cinzento na esperança de avistar algum salvador milagroso.
Ficamos correndo atrás da felicidade como cães famintos atrás do próprio rabo, esquecendo que ela é uma miragem efêmera. Como bem pontuava Lacan ao dissecar os descaminhos do desejo, vivemos na gangorra perpétua entre a angústia de ter e o tédio de possuir.
O que precisamos desesperadamente não é de felicidade programada, mas de sentido. É exatamente essa a lição magistral do livro que carrego debaixo do braço nas últimas semanas, por indicação do meu psicólogo Jesley Roberto. A obra de Viktor Frankl, psiquiatra que sobreviveu ao horror indescritível de um campo de concentração nazista, nos ensina com clareza solar que o homem é capaz de suportar quase qualquer revés se tiver um porquê para existir. Estamos tão ocupados olhando para as nossas pequenas contrariedades cotidianas, que perdemos de vista o que realmente importa. E eu me incluo nisso.
Para coroar essa comédia, estão chegando as sagradas eleições, onde temos que definir os rumos de um país e filtrar em meio a um festival anual de promessas vazias e sorrisos plastificados. De imposição de ideias e validação de ódios. Ver como todos os salvadores da pátria de plantão defendem com unhas e dentes a democracia e a sagrada liberdade de expressão, desde que o infeliz do interlocutor esteja rigorosamente de acordo com cada sandice proferida por eles. É a aplicação prática daquela generosa tese moderna que decreta que eu defendo enfaticamente o seu inalienável direito de concordar comigo.
Temos as chaves nas mãos. Para mudar o país. Mas não podemos esquecer que nenhuma eleição vai nos salvar da nossa própria pequenez e nenhuma asa de cera vai nos transformar em deuses. O truque para não sucumbir é dar uma boa risada rabelaisiana da nossa própria seriedade, abraçar o cansaço de quem a gente ama com a força de quem sabe que o tempo urge, e recusar o crachá de otário. Enquanto houver um sentido para descobrir no meio do caos, um afeto verdadeiro para sustentar no escuro e um mundo imperfeito para habitar, o resto é só o barulho.












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