Os Magos que Caminham entre Nós
- temporacomunicacao
- 22 de jul.
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Coluna de Diego Franzen
Na última coluna falei dos cavaleiros do século XXI, esses idealistas teimosos que ainda insistem em bravura, honra e princípios num mundo de cinismo e algoritmos.
Mas hoje, com a verve de um hermetista tardio, neste grande RPG que é a nossa vida, vou além. Falo dos magos. Não os que habitam apenas a fantasia, mas os que ousam transformar o mundo real com o poder da palavra, da escuta, do gesto consciente.
Desde cedo, aprendemos a amar os magos. Gandalf, com seu bastão e sua gravidade ancestral, é a consciência que guia hobbits assustados por caminhos que não compreendem. Dumbledore, com seus olhos faiscantes por trás dos óculos de meia-lua, oferece a Harry Potter não só feitiços, mas sabedoria, aquela que não se ensina em aulas de poções, mas que se aprende na dor e na escolha.
Esses personagens não fascinam por lançarem luzes coloridas dos dedos, mas porque despertam em nós a nostalgia de algo maior, uma lembrança esquecida de que o mundo pode, sim, ser encantado. E de que nós mesmos podemos ser mais do que somos.
Paulo Coelho, o alquimista pop, traduziu essa intuição para milhões ao redor do mundo. E não à toa: é o autor vivo mais traduzido da Terra, superando até Shakespeare em algumas listas, o que, para alguns, é um escândalo; para outros, uma confirmação de que a busca pela “lenda pessoal” continua a ser o anseio mais profundo da alma humana. Em O Alquimista, a jornada de Santiago é a jornada de todos nós: o anseio por um sentido que ultrapasse o cotidiano, a ânsia por descobrir que, afinal, aquilo que procuramos nos desertos e nos livros sagrados sempre esteve aqui, dentro.
Alan Moore, o demiurgo por trás de Watchmen e From Hell, declarou-se mago aos quarenta e poucos anos, não por vaidade carnavalesca ou delírio lisérgico, mas como quem, diante do abismo existencial da meia-idade, escolhe abraçar o mistério em vez da apatia. Sua iniciação não foi em templos perdidos, mas na confluência entre o silêncio do pensar e a tempestade simbólica da palavra.
Essa confissão me atravessou como uma epifania. Sempre fui cativo do esoterismo e das filosofias subterrâneas que permeiam a alma humana como raízes em solo antigo. Sempre escutei o rock como se escutasse mitos . E há mais metafísica em The Wizard, do Black Sabbath, do que em muito tratado acadêmico. “Never talking, just keeps walking, spreading his magic,” canta Ozzy, e há nisso um arcano profundo. O verdadeiro mago não proclama, ele emana. Sua magia não é pirotécnica, é ontológica.
Ser mago, portanto, é operar uma transmutação simultaneamente interior e social.
É ato alquímico cotidiano, que não se faz no cadinho de laboratórios fantasiosos, mas nas fraturas imperceptíveis da vida ordinária.
A verdadeira opus magnum consiste em converter a angústia em paciência, a ignorância em escuta, a brutalidade em ternura. Trata-se de substituir o automatismo pela presença, presença radical, sacrificial, amorosa.
Amor. Não o sentimentalismo estéril que adorna cartões de Dia dos Namorados, mas o Amor (com maiúscula inicial) força motriz do universo, vis unificatrix da existência, pulsação secreta da Pedra Filosofal.
Amar, nesse sentido, é verbo que transmuta. Quando dito com inteireza, um “bom dia” pode curar feridas. Um olhar honesto pode restabelecer pontes. Uma pausa para escutar pode ser mais poderosa que mil discursos inflamados.
E não se trata de um devaneio new age.
Trata-se de responsabilidade ontológica.
Cada um de nós é, queira ou não, um operador simbólico.
Nosso ofício mais urgente é a lapidação do ser. Um mago moderno deve aspirar a ser um melhor esposo, um pai mais lúcido, um profissional mais ético, um cidadão mais justo. Porque, se o conhecimento não nos aperfeiçoa, então é mero ornamento intelectual.
E a magia, nesse caso, torna-se simulacro.
Estéril. Vã. Narcísica. Uma fórmula vazia.
O mundo jaz adoecido não por ausência de tecnologia, mas por ausência de encantamento.
Precisamos, desesperadamente, de homens e mulheres que operem a magia da reconciliação, da empatia, da palavra que constrói.
A crise é de símbolos, não de dados.
É de silêncio, não de ruído.
O mago verdadeiro é aquele que retira da palavra sua potência original: a de criar mundos.
Não é coincidência que os antigos chamavam o Logos de princípio divino. A palavra não é apenas signo, é gesto criador. O mago que habita em nós não levita, mas resignifica.
Ele não muda o mundo com feitiços, mas com um bom conselho, um gesto justo, uma presença sincera. É ele quem nos sussurra, no âmago de nossas fadigas: “levanta-te e transforma-te.”
A iniciação está dada. O mundo precisa de magos. Que empunhem a ternura como espada.
Que façam do cotidiano um rito.
Que caminhem, sem alarde, espalhando sua magia, como naquela velha canção de Sabbath, que parece gritar, por entre os riffs, aquilo que o mundo esqueceu: que a verdadeira magia é tornar-se humano, demasiadamente humano.
E isso, convenhamos, exige mais coragem do que qualquer encantamento.















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