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Tem que ter ouro pra fazer ouro — e isso não é sobre metais preciosos

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 7 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Aurum non fit ex nihilo.”

O ouro não se faz do nada.


Eis um velho adágio alquímico, anterior até mesmo à obsessão iluminista por provas empíricas e cálculos newtonianos.


E não estamos falando de minério — estamos falando de valor. De essência. De substância interior. Porque forma é diferente de essência. O que os alquimistas verdadeiramente buscavam — os verdadeiros, não os charlatães de feira medieval — não era enriquecer seus cofres, mas transmutar a alma bruta em espírito nobre.


E é por isso que hoje, mesmo cercado de tecnologia, de automação e de redes neurais que imitam o pensamento, seguimos órfãos do ouro. Porque falta ouro onde mais importa: nas ideias. Nas posturas. Nos atos.


Certa feita, decorei o nome de batismo de um grande pensador conhecido apenas por sua alcunha, só porque era complicado. Philipus Aureolus Theofrastus Bombastus Von Honhenhein. O Paracelso. Médico, filósofo e heresiarca de primeira grandeza, seguia o princípio hermético que dizia que “o que está embaixo é como o que está em cima”. A obra interior se reflete no exterior. Nicolas Flamel, outro símbolo da tradição hermética, nos lembra que o segredo da Pedra Filosofal era mais simbólico do que químico: um código para transformar a ignorância em sabedoria, o ego em serviço, o caos em harmonia. E ainda assim, em pleno 2025, encontramos gente querendo “transformar o mundo” com uma thread de LinkedIn.


Querem ouro. Mas não têm ouro.


Tentam criar projetos que emocionem, sem jamais terem se emocionado com nada além do próprio reflexo. Querem escrever com alma, mas só leram manuais de copywriting. Querem liderar, mas não suportam ouvir. Querem impactar, mas não conseguem sequer se calar. E o mais trágico: acham que tudo isso pode ser resolvido com um pitch bem ensaiado e um logo em degradê.


O adágio “tem que ter ouro pra fazer ouro” não é só uma metáfora bonita para colar na parede do escritório. É uma advertência. É uma exigência da realidade. É uma lei hermética tão inexorável quanto a gravidade. E ela diz, com todas as letras: você só pode oferecer ao mundo aquilo que já construiu dentro de si. Se o seu interior é feito de chumbo — de vaidade, pressa, insegurança e imitação —, o que você produzirá não será muito diferente.


Pode brilhar, sim. Mas será latão polido.


É claro que ninguém quer ouvir isso. O narcisismo contemporâneo tem alergia à verdade. Prefere frases de efeito a reflexões incômodas. Prefere acreditar que pode “mudar de vida” com uma mentoria de seis módulos do que encarar que talvez precise de seis anos de silêncio, estudo e humildade. Dói menos.


Mas aqui estamos nós, alquimistas de palavras, tentando em vão fazer com que alguns entendam: valor não se terceiriza. Não se automatiza. Não se falsifica.


A excelência é filha do rigor. Da atenção. Do cuidado. Do amor pelo ofício. E isso vale para tudo — para um prato de comida, para um artigo jornalístico, para uma vida inteira. O sujeito que não cuida da própria palavra não cuidará do seu projeto. Quem fala mal, pensa mal. E quem pensa mal, age mal. Eis a cadeia hermética da decadência moderna.


Veja à sua volta: quantos discursos vazios, quantas estéticas sem ética, quantos criadores que nada criam? Vivemos cercados por alquimistas de PowerPoint, evangelistas do óbvio, arautos do banal. Todos prometendo ouro com a leveza de quem nunca pegou uma pá.


Mas transformar chumbo em ouro exige mais que marketing. Exige integridade. Autenticidade. Trabalho silencioso. Paciência. Exige carregar o próprio cadinho e suportar o calor da fornalha. E, acima de tudo, exige que se comece com algo que já tenha brilho. Nem que seja uma fagulha de honestidade intelectual. Um traço de caráter. Uma centelha de verdade.


Portanto, antes de lançar mais uma campanha, mais uma marca, mais uma fala cheia de “propósito” e “transformação”, pergunte-se com sinceridade quase cruel: Qual é o ouro que você está oferecendo?


Se a resposta for silêncio, talvez seja hora de admitir que ainda há chumbo demais em suas mãos — e que nenhum filtro dourado será suficiente para maquiar isso.


Porque, no fim das contas, como toda boa lei natural e espiritual, o universo não negocia com impostores.


DIEGO FRANZEN é jornalista, escritor, CEO do Portal Pauta Serrana e da Tempora Jornal e Comunicação Ltda
DIEGO FRANZEN é jornalista, escritor, CEO do Portal Pauta Serrana e da Tempora Jornal e Comunicação Ltda


1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
07 de jun. de 2025

Natureza sem saltos, cada um dando o que reflete dentro de si. “Pois isto é Sião — o puro de coração” (D&C 97:21). Bom final de semana!

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