22ª Fenavinho apresenta trajes que vestem a memória dos 60 anos da festa


mperatriz do vinho, Alana Foresti, e damas de honra Jéssica Bellé e Bianca Dall Agnol exibiram vestidos em encontro que marcou lançamento da festa, juntamente com a 35ª ExpoBento
A partir dos pilares memória, território e vinho, a estilista caxiense Vivian Boff desenhou os trajes que marcam a emblemática edição de 60 anos da Fenavinho, de modo a vestir as soberanas com a memória criada pela festa. A imperatriz do vinho Alana Foresti e as damas de honra Jéssica Bellé e Bianca Dall Agnol exibirão vestimentas cuja proposta destaca a cor vinho com predominância, amparada por tons natural e champanhe, num conceito que conecta a trajetória ao atual momento da festa. “Mais do que se inspirar em um vestido específico da primeira corte, buscamos compreender a essência dos trajes que fizeram parte dessa trajetória e traduzi-la para a atual corte, mantendo a identidade histórica da Fenavinho, mas com uma linguagem própria e contemporânea”, diz a designer de moda, conhecida pela criação de trajes para soberanas e festas regionais que unem pesquisa, identidade cultural, modelagem, bordado e valorização do trabalho artesanal.
Foi dessa mesma forma que ela concebeu a indumentária do trio da 22ª Fenavinho – eleito durante a 21ª Fenavinho e 34ª ExpoBento. O ponto de partida foi empreender uma pesquisa histórica, observando a trajetória da festa, os trajes das soberanas e as referências da imigração italiana e da cultura vitivinícola de Bento Gonçalves. “A intenção foi preservar essa memória, mas trazer uma nova interpretação. Talvez o maior desafio e, ao mesmo tempo, a parte mais bonita do projeto, tenha sido fazer com que os novos trajes carreguem 60 anos de história sem deixarem de representar o momento atual da Fenavinho”, observa Vivian.
Para a composição do traje clássico, ela elegeu o crepe mousson vinho, um tecido elegante, mas que garante movimento e leveza às saias, enquanto o crepe georgette, em tom natural, foi escolhido para oferecer volume e fluidez às mangas. O zibeline champanhe aparece nos barrados e detalhes, valorizando os bordados e o trabalho artesanal. “O vinho representa a essência da Fenavinho; o natural remete à memória e às origens; e o champanhe acrescenta a luminosidade e a solenidade que os 60 anos da festa merecem”, explica.
Bordados homenageiam imperatrizes
O vestido da imperatriz foi desenvolvido para ter maior imponência e riqueza de detalhes, com cintura marcada, saia ampla, mangas volumosas, sobreposições e bordados. Já os vestidos das damas de honra seguem a mesma identidade, mas de forma mais leve e delicada, garantindo unidade entre os três trajes. Um dos destaques no vestido de Alana é a sobreposição frontal em champanhe, que reúne elementos da tradição vitivinícola, como ramos de parreira, cachos de uva, garrafa e taças de vinho. Feito manualmente, o bordado também homenageia todas as imperatrizes do vinho, com os nomes das representantes desde a primeira edição até a atual.
A peça ainda traz os nomes de Moysés Michelon, primeiro presidente da Fenavinho, e da atual diretora, Janaine Arpini, conectando diferentes momentos dessa trajetória. Os trajes incorporam técnicas artesanais transmitidas entre gerações, como o filé – elaborado sobre uma tela tramada em forma de rede e posteriormente rebordada à mão – e o macramê – construído manualmente através do entrelaçamento e de nós feitos com fios. Nos vestidos das damas, os bordados aparecem de forma mais sutil, com folhas, ramos e cachos de uva, enquanto o barrado faz referência aos 60 anos da Fenavinho. “Dessa forma, os trajes unem história, artesanato e vitivinicultura. Mais do que elementos decorativos, cada bordado e cada técnica manual ajudam a contar uma parte da história da Fenavinho e da herança cultural dos ossos antepassados”, diz a estilista, para quem o trabalho manual está entre os grandes destaques das composições. “Buscamos valorizar saberes que fazem parte da nossa herança cultural e que foram trazidos e preservados pelos nossos antepassados, como o filé, o macramê e o bordado manual em linha”.
Trajes de passeio
Além do traje típico oficial, as soberanas da Fenavinho terão um traje de passeio, desenvolvido para oferecer mais leveza e versatilidade, porém, sem perder a identidade da festa. O vestido da imperatriz será confeccionado predominantemente em crepe Grace, com saia e corset em bordô e mangas, gola e barrado em tom natural. Os bordados, feitos inteiramente à mão com linhas e pedrarias, reúnem arabescos, ramos de parreira, cachos de uva e outros elementos relacionados ao universo do vinho. Entre os destaques está o lenço em filé, tramado e bordado manualmente e finalizado com franjas de seda. A produção também inclui um avental com bordados em fios dourados e pedrarias, acrescentando sofisticação à composição. Os trajes de passeio das damas seguem a mesma proposta, com predominância do bordô e detalhes em tom natural. Sem a gola utilizada no modelo da imperatriz, as peças ganham um desenho mais leve, mantendo os bordados manuais com arabescos, parreiras e cachos de uva.
Filha de vitivinicultores, Vivan cresceu ligada à cultura da uva e do vinho e desenvolveu uma relação especial com a festa. A ligação com a Fenavinho se fortaleceu em 2009, quando assistiu à Ópera do Vinho, em Bento Gonçalves. Ao pesquisar a trajetória da celebração para desenvolver os trajes, outro elemento tornou o projeto ainda mais significativo: a descoberta de que Moysés Luiz Michelon, primeiro presidente da Fenavinho, nasceu em São Luiz da Nona Légua, mesma localidade onde a estilista também nasceu. “De alguma maneira, senti que existia um elo entre aquela história iniciada há 60 anos e o trabalho que chegou às minhas mãos. Como estilista e filha de vitivinicultores, poder contribuir para os 60 anos da Fenavinho é algo que certamente ficará marcado na minha trajetória profissional e também na minha história pessoal. Gratidão, Bento Gonçalves”, comenta.
Elementos da viticultura se transformam em joias para as soberanas
Para compor os vestidos, a corte dos 60 anos da Fenavinho também contará com um conjunto de colar e brincos criados pela Enojoias em metal dourado e cristais naturais formados no próprio vinho. Para a imperatriz, o colar tem como elemento central uma taça, acompanhada por folhas, uvas, gavinhas e cristais naturais de bitartarato de potássio. Os brincos apresentam uma flor ampla e vazada, finalizada com uma gota que também incorpora os cristais. Já os conjuntos das damas acrescentam as barricas à composição, fazendo referência às cantinas e ao processo de elaboração do vinho, com os brincos em formato de flor vazada e elemento circular com cristais. “A inspiração parte de elementos presentes na cultura vitivinícola de Bento Gonçalves e na história da Fenavinho. Cada elemento faz referência a uma parte dessa história e ajuda a construir o percurso que começa na videira e chega à taça”, destaca a designer responsável, Patrícia Pedrotti.
O desenho das joias parte de linhas orgânicas, curvas e estruturas de metal entrelaçado, inspiradas nos ramos e troncos da videira. As gavinhas percorrem os pingentes e funcionam como elementos de ligação entre folhas, uvas, barricas, taças e cristais. A escolha dos materiais também carrega significado. O metal dourado reforça o caráter cerimonial e celebrativo das peças destinadas à corte. Já os cristais estabelecem uma conexão direta com o vinho, uma vez que são originados naturalmente durante a vinificação ou o armazenamento, a partir da presença de ácido tartárico e potássio. Desde 2015, a Enojoias incorpora essa matéria às suas criações. “É uma ligação direta entre o vinho e a joia, porque os cristais não são uma imitação do vinho: eles se formam nele”, observa.
A coleção foi concebida, portanto, para contar uma história. Nas peças das damas, a narrativa aparece de maneira quase sequencial: a videira dá origem às folhas e às uvas; as barricas remetem à elaboração; a taça representa o vinho e a celebração; e os cristais naturais materializam o próprio processo do vinho em uma nova linguagem. Na criação da imperatriz, essa trajetória é concentrada em torno da taça, elemento central da composição, cercado por folhas, uvas e gavinhas.
A coleção, ainda, estabelece uma conexão com símbolos e referências culturais de Bento Gonçalves. As flores vazadas dos brincos são inspiradas em elementos do crochê, da renda e do bordado, em uma interpretação visual do verso “Bento Gonçalves querida, bordada de parreirais”, presente no hino do município. As próprias peças também dialogam com a história da festa. “A coleção foi criada para registrar os 60 anos da Fenavinho por meio dos elementos que compõem a origem e a continuidade da festa. A história da Fenavinho está ligada à cultura do vinho, à viticultura, às famílias produtoras, às cantinas, às comunidades do interior, aos desfiles e à representação da corte. As peças apresentam esse percurso: videira, uvas, elaboração, vinho, cristais naturais e peças, conectando o trabalho que começa nos parreirais à celebração pública representada pela corte”, diz.















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