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A Europa vive bem porque foi colonialista? Não é bem assim.

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    temporacomunicacao
  • 8 de ago.
  • 2 min de leitura

Por Fernando Menegatti


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Muito se repete, hoje em dia, a ideia de que o bem-estar europeu é fruto direto da exploração colonial. O raciocínio parece simples: Europa rica, colônias pobres, logo, a riqueza de um veio da pobreza do outro. Mas essa visão, embora com fundo de verdade, ignora um ponto essencial: o colonialismo gerou riqueza, sim, porém concentrada nas mãos de poucos, sem beneficiar o povo europeu de forma ampla.


Durante os séculos XVI a XX, metais preciosos, açúcar, especiarias, algodão, petróleo e borracha abasteceram os cofres de aristocratas, cortes reais, companhias com monopólios concedidos pelo Estado, banqueiros e grandes comerciantes. O trabalhador europeu, no entanto, vivia em condições miseráveis. Não existia sistema universal de saúde, aposentadoria, seguro-desemprego ou educação gratuita. Camponeses e operários enfrentavam jornadas extenuantes e expectativa de vida baixa.


Em países como Portugal e Espanha, grandes potências coloniais, o analfabetismo persistia até o século XX. Ou seja, deter colônias não significava garantir dignidade ao povo. Se o colonialismo por si só fosse suficiente para promover bem-estar, esses dois países seriam superpotências, afinal, controlavam vastos territórios na América, África, Ásia e Oceania. Mas o que se viu foi o contrário: ambos passaram por longos períodos de decadência econômica e só começaram a melhorar na segunda metade do século XX, já sem impérios coloniais.


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A Europa moderna, com sua imagem de limpeza urbana, transporte eficiente e Estado de bem-estar, não nasceu do colonialismo. Ela nasceu do pós-guerra. Em 1945, o continente estava em ruínas. Alemanha destruída, Reino Unido endividado, França enfraquecida, Itália em colapso. Foi nesse contexto que os Estados Unidos lançaram o Plano Marshall (1948–1952), injetando cerca de 13 bilhões de dólares da época, mais de 150 bilhões em valores atuais, na reconstrução da Europa Ocidental.


Mas não foi só uma ajuda financeira. Os EUA promoveram a integração econômica (gênese da União Europeia), garantiram proteção militar pela OTAN e incentivaram reformas que levaram à criação de sistemas de bem-estar social. Isso não era altruísmo: era estratégia da Guerra Fria. A influência soviética crescia entre intelectuais, sindicatos e partidos europeus. Oferecer pleno emprego, saúde e educação era, para os americanos, uma forma de conter o avanço comunista e manter o continente estável e alinhado.


E funcionou. Enquanto o Leste europeu caiu sob domínio da URSS, o Oeste prosperou sob influência americana. O bem-estar social europeu, portanto, foi em grande parte uma resposta política, um antídoto contra a revolução.


Hoje, no entanto, esse modelo dá sinais de desgaste. O envelhecimento populacional, as crises econômicas, o aumento da dívida pública e a pressão sobre sistemas de saúde e aposentadoria ameaçam a sustentabilidade do projeto. Somam-se a isso os impactos da globalização, da automação, de novas tensões geopolíticas e da ascensão de movimentos eurocéticos.


Ou seja: o bem-estar europeu foi construído em uma conjuntura histórica específica. E seu futuro dependerá da capacidade de adaptação das sociedades e dos governos a desafios cada vez mais complexos.


Repetir que a Europa vive bem “porque roubou dos outros” empobrece o debate. Essa riqueza proveniente do colonialismo não transformou a vida da maioria dos europeus. O salto de qualidade veio depois, por meio de um projeto político cuidadosamente articulado, que hoje já enfrenta sérias ameaças.


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