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A Gênese e a trolagem do 1º de abril

Foto do escritor: temporacomunicacao
temporacomunicacao
1 de abr.
2 min de leitura

Por Diego Franzen



O primeiro de abril é, por excelência, o dia em que a verdade tira uma folga e permite que a nossa criatividade (ou, sejamos francos, a nossa canalhice mais inofensiva) assuma o volante. É uma data que oscila entre a tradição histórica e o exercício cínico da enganação, um convite anual para que testemos o limite da credulidade alheia.


A origem dessa celebração é um terreno pantanoso, onde historiadores se digladiam. A tese mais aceita, e talvez a mais charmosa, remonta à França do século XVI. Em 1564, o rei Carlos IX decidiu que o ano novo, antes comemorado na chegada da primavera, em abril, passaria a ser celebrado em primeiro de janeiro. A mudança, como toda imposição burocrática, não foi assimilada prontamente por todos. Enquanto a corte e os modernos festejavam em janeiro, os conservadores e os desavisados insistiam em manter as festividades na data antiga.


Os mais espertos, num exercício precoce de bullying social, passaram a enviar convites falsos e presentes de grego para esses retardatários, ridicularizando sua desatualização. Nascia ali o poisson d’avril, o peixe de abril, símbolo dos tolos que mordem a isca.


Outras teorias, mais sombrias, tentam ancorar o dia nas festas pagãs de renovação da natureza ou nos equinócios, onde o caos e a ordem se equilibram. Mas, no fundo, o que sustenta o primeiro de abril é a natureza humana. Existe um prazer quase infantil, um gosto pelo logro que sobrevive à maturidade mais rigorosa. É o dia em que o mundo se permite um desvio, uma pequena quebra na liturgia da seriedade.


Como diria um cronista atento à fauna das ruas, o primeiro de abril é uma vacina contra a arrogância. Ele nos lembra, ainda que por meio de uma lorota mal contada, que ninguém está a salvo de ser enganado. É uma suspensão temporária do juízo, um momento em que a realidade, tão dura e intransigente, abre uma exceção para o absurdo.


Portanto, quando alguém chegar com uma história fantástica, um fato inacreditável ou uma promessa grande demais para ser real nesta data, sorria. É apenas o ritual anual da humanidade reconhecendo que, por vezes, a mentira é o tempero necessário para suportar a monotonia da verdade absoluta. A vida, afinal, é um palco, e o primeiro de abril é o dia em que todos os atores esquecem o roteiro e, curiosamente, é aí que o espetáculo fica realmente interessante.

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