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A Origem e a História do Carnaval

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    temporacomunicacao
  • há 16 horas
  • 3 min de leitura

POR DIEGO FRANZEN




Todos estamos celebrando a chegada de um feriadão. Até eu, um metaleiro convicto e capricorniano ainda, avesso a folgas e feriados, às vezes me rendo a essa magia. Terça-feira é o Carnaval, Dizem que o ano começa, de fato, ali. Antes, é clima de veraneiro, de férias. O fim do Carnaval nos mostra que a diversão e o marasmo chegaram ao fim e o foco todo tem que estar atrás da máquina.


O Carnaval não nasceu para ser festa. Nasceu para ser escape. Um intervalo malicioso no calendário, um rasgo colorido no tecido cinza da rotina, uma autorização coletiva para rir da ordem antes que a ordem volte a nos cobrar a fatura.


A humanidade aprendeu cedo que trabalhar o ano inteiro, obedecer regras, respeitar hierarquias e sustentar uma dignidade permanente não era exatamente um projeto viável. Então inventou uma pausa oficial. Curta, barulhenta e absolutamente estratégica.

Antes de ser samba, desfile ou trio elétrico, o Carnaval foi um acordo civilizatório com o excesso.


Na Roma Antiga, as Saturnais suspendiam a ordem social. Escravos viravam senhores por alguns dias, chefes eram alvos de piada, e ninguém chamava isso de subversão. Chamavam de festa. O poder, esperto, percebeu que sobrevivia melhor quando aceitava ser ridicularizado ocasionalmente.

Curiosidade útil: durante as Saturnais, era permitido até usar um gorro especial, o pileus, símbolo de liberdade. Nada mal para uma sociedade que não era exatamente conhecida por seu espírito democrático.

Na Grécia, Dioniso comandava o espetáculo. Vinho, música, dança e uma ideia revolucionária para a época: perder o controle também podia ser uma forma de sabedoria. O excesso não era falha moral. Era método preventivo contra a loucura.


Quando o cristianismo herdou essas festas, fez algo genial. Em vez de apagar, enquadrou. O Carnaval virou o último grande exagero antes da Quaresma. Um aviso disfarçado de confete.

A lógica era pastoral e prática: aproveite agora, porque depois vem o silêncio. A carne se despede, o prato emagrece, a consciência assume o volante.

Curiosidade histórica: em muitas cidades medievais, o Carnaval era o único período do ano em que críticas públicas à Igreja e aos nobres eram toleradas. Desde que viessem embaladas em riso.


DATA MÓVEL. ENTENDA

O Carnaval não tem data fixa porque jamais foi feito para obedecer relógios. Ele depende da Páscoa, que depende da Lua, que depende de ciclos cósmicos que ninguém manda muito bem.

A conta é antiga: a Páscoa acontece no primeiro domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio da primavera no hemisfério norte. Conte 46 dias para trás e você chega à Quarta-feira de Cinzas. Dois dias antes, o Carnaval já está aquecendo o tambor.

Curiosidade astronômica involuntária: se a Lua atrasar, o Carnaval atrasa junto. Poucas festas podem dizer que dançam conforme os astros.


CARNAVAL DE VENEZA

Foi em Veneza que o Carnaval atingiu sua versão mais sofisticada e politicamente perigosa. Lá, as máscaras não eram apenas adereço. Eram instrumento social.

Com o rosto oculto, nobres misturavam-se ao povo, mulheres circulavam com mais liberdade e críticas ao poder circulavam sem assinatura. A máscara veneziana nivelava todos. Ao menos por alguns dias, ninguém era mais importante do que ninguém.

Curiosidade deliciosa: durante séculos, os venezianos podiam usar máscaras não só no Carnaval, mas em parte do ano. O anonimato era tão eficiente que o governo precisou limitar seu uso. Quando todo mundo pode dizer a verdade sem medo, o poder fica nervoso.


CARNAVAL DE RUA

Na Europa medieval, o Carnaval se consolidou como festa de rua. Reis de mentira, padres caricatos, procissões debochadas e encenações grotescas que diziam mais verdades do que muitos sermões.

As máscaras não escondiam. Revelavam. Protegiam quem ousava falar.

Quando o Carnaval chegou ao Brasil, encontrou o lugar certo. Aqui, misturou batuques africanos, saudades portuguesas, ironias indígenas e uma capacidade rara de transformar sofrimento em ritmo.

Curiosidade brasileira: os primeiros carnavais do país incluíam o entrudo, uma brincadeira violenta e caótica, com água, farinha e até frutas podres. Foi proibido várias vezes. E voltou outras tantas. O espírito carnavalesco, como se sabe, não aceita censura facilmente.


LEGADO CULTURAL

O Carnaval deixa heranças profundas. Está na música, no humor, na crítica social e na maneira brasileira de lidar com a própria tragédia. Ele ensina que rir não é alienação. É resistência.

Durante alguns dias, o mundo vira piada. E curiosamente, fica mais suportável.

Depois vem a Quarta-feira de Cinzas. O chão é varrido, a fantasia é guardada e a vida retoma seu tom sério, como quem finge que nada aconteceu.

Mas aconteceu.

Porque quem entende o Carnaval sabe que ele não existe para fugir da realidade. Existe para lembrar que nenhuma realidade é definitiva.

E que, se a vida insiste em ser dura o ano inteiro, ao menos uma vez por ano a gente tem o direito sagrado de rir dela.

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