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A peruca feita com o próprio cabelo que devolve a identidade e a dignidade na luta contra o câncer

Foto do escritor: temporacomunicacao
temporacomunicacao
há 6 horas
3 min de leitura

Por Diego Franzen / Pauta Serrana


Neide Mello é uma das profissionais da beleza mais respeitadas do Estado e traz um trabalho inovador de empoderamento e resgate da autoestima de guerreiras que enfrentam o câncer.
Neide Mello é uma das profissionais da beleza mais respeitadas do Estado e traz um trabalho inovador de empoderamento e resgate da autoestima de guerreiras que enfrentam o câncer.

Não poucas vezes, a vida tem o costume insolente de nos arrancar aquilo que nos define. De uma hora pra outra, tudo se transforma. Muda. Alicerces caem. O chão desaba e, nos destroços, improvisamos pontes. Mas o sentido e o propósito nos fortalecem na jornada. E quem melhor do que alguém que já olhou o abismo de frente para entender o tamanho dessa ausência? 


Neide Mello teve um tumor cerebral. Passou por quatro cirurgias. E triunfou. E, superando a própria dor, forjou sua empatia inabalável. 


Quando o diagnóstico chega para outra mulher e a quimioterapia impõe sua passagem, o corpo sofre o primeiro grande revés. "A química por si já danifica a estrutura do fio de cabelo, levando à queda parcial ou total", relata Neide, profissional da beleza que transformou sua própria história de superação em um pacto de resgate humano.


É nesse instante de vulnerabilidade absoluta que Neide entra em cena. Longe da frieza dos gabinetes médicos, ela vai ao encontro da paciente. Com "muito respeito e carinho", ela corta os cabelos separando-os em pequenas mechas, zelando rigorosamente para "não perder nem um fio".


O material é enviado ao ateliê Dupla Face, em Porto Alegre, e em apenas uma semana retorna transformado. É aí que o milagre artesanal se completa: uma peruca confeccionada estritamente com o cabelo original daquela mulher.



Quando vai entregar a peça no hospital ou na residência, Neide traz o conforto prático de quem entende a rotina da doença. "Explico que pode colocar e tirar a hora que quiseres, rápido e fácil, assim ela estará usando seus próprios cabelos até o novo crescer novamente", detalha. A estrutura interna da peruca é regulável, adaptando-se perfeitamente à circunferência da cabeça de cada cliente. E, se o tratamento avançou antes da tosa e restou pouco volume, o talento de Neide compensa: "Eu acrescento um pouco mais de cabelo, que sempre tem mais reserva para quem precisa".


O impacto emocional dessa entrega transcende qualquer lógica estética. É o espelho devolvendo a verdade sem o trauma da doença. Recentemente, Neide viveu isso de perto ao entregar uma peça a uma jovem: "Ela tinha um susto de cabelo branco, e quando voltou a peruca, voltou com os mesmos fios de cabelo branco. A alegria dela foi nossa, ficou muito feliz porque o cabelo que foi é o cabelo que vai voltar".


A durabilidade do material impressiona, estendendo-se por sete a oito anos. Quando o cabelo natural da paciente renasce e a peruca cumpre seu ciclo, a solidariedade se renova. A peça pode ser guardada como um símbolo de vitória ou doada para outra mulher na mesma trincheira, passando inclusive pelas mãos da Liga de Combate ao Câncer.


Mas o que torna a narrativa de Neide Mello profundamente visceral é a autoridade de quem já olhou o abismo nos olhos. Ela não fala da boca para fora. "Eu passei por isso por quatro vezes, fiz cirurgia cerebral, e em nenhum momento fiquei questionando o porquê", revela. Diante da iminência da morte ou da incapacidade, a bússola de Neide sempre foi a lucidez implacável: "Cabelo cresce e eu quero a minha saúde de volta".


Para ela, a vitória contra a moléstia é uma batalha encarnada na mente. "O psicológico para mim... se a gente está com o psicológico saudável, o corpo não adoece. A mente é aquilo que tu pensa, aquilo que tu realmente confia", reflete, convicta de que a força mental é o principal antídoto contra a vitimização.


Neste Outubro Rosa, enquanto o mundo se enche de laços de plástico e discursos vazios, histórias como a de Neide Mello nos lembram o real significado da cura. Ela não habita apenas nos tubos de ensaio dos grandes laboratórios; muitas vezes, ela mora na ponta de uma tesoura sensível, na coragem de quem já sobreviveu ao pior e na certeza absoluta de que uma peruca feita com o próprio cabelo é, antes de tudo, um abraço que a vida dá na alma.


Material trabalhado no Ateliê Dupla Face em Porto Alegre
Material trabalhado no Ateliê Dupla Face em Porto Alegre




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