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Como Apostas Online Viraram a Nova Cracolândia Digital

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    temporacomunicacao
  • 22 de mai.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 23 de mai.

Por Diego Franzen


Em outros tempos, o vício em jogo morava em porões esfumaçados, entre copos de conhaque barato, cigarros meio apagados e promessas de fortuna sopradas por cartas marcadas. Famílias inteiras foram engolidas por essas mesas clandestinas — o pai hipotecava a casa, a mãe vendia joias herdadas da avó, e os filhos, bem... os filhos cresciam vendo a sorte destruir mais que construir.


Hoje, a diferença é que não há mais porões. A roleta, o bilhete premiado, a aposta certeira — tudo isso mora no bolso. Literalmente. Basta um toque no celular, e lá está ela: a chance dourada de mudar de vida. Ou de perder tudo. A febre do jogo nunca foi tão silenciosa — nem tão voraz.


Cassino invisível

Navegar pelas redes sociais, hoje, é como caminhar por um cassino invisível. Mesmo quem nunca apostou uma moeda sequer, se vê, de repente, cercado por promessas de dinheiro fácil, vídeos de influenciadores vibrando com lucros instantâneos e slogans do tipo “faça seu pix render agora!”. Não é preciso procurar: os anúncios te encontram. O algoritmo sabe. E ali, entre um vídeo de receita e outro de dancinha, surge um tigre sorridente piscando para você — ou um botão vermelho gritando: “Aposte agora!”. A tentação é constante, sutil e viciante. E o pior: vem disfarçada de oportunidade.

 

“Eu ganhei R$ 28 mil numa noite…”

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“Eu ganhei R$ 28 mil numa noite. Foi no Jogo do Tigrinho. Era como se eu tivesse descoberto um atalho pra mudar de vida. Saí pra comemorar, fiz até promessa de que nunca mais ia apostar. Mas no outro dia apostei de novo. E aí começou o inferno.”

Carlos, 34 anos, morador de Bento Gonçalves, é um dos milhares de brasileiros que mergulharam fundo no vício das apostas online. Ele começou como muitos: vendo vídeos no TikTok, ouvindo influenciadores dizendo que era fácil ganhar. E ganhou — no começo.

“Depois que ganhei, comecei a pensar: se eu consegui isso num dia, imagina se eu jogar mais vezes? Só que aí você perde. E tenta recuperar. E perde mais. Quando percebi, já tinha gastado mais de R$ 60 mil. Era dinheiro de um carro, das economias da minha esposa, até o cartão da minha mãe eu usei escondido.”

O ponto mais crítico veio quando deixou de pagar o aluguel por três meses. “O dono do imóvel pediu a casa. Tive que explicar pra minha mulher. Ela surtou, quis me deixar. Eu menti tanto, escondi tanto, que quase perdi minha família. Perdi o respeito dos meus filhos.”

Hoje, Carlos tenta se recuperar com ajuda psicológica. Está desempregado e carrega dívidas que ainda não conseguiu quitar. “O que mais me dói não foi o dinheiro. Foi olhar no espelho e não me reconhecer. Parece que aquele ‘joguinho’ ligava um botão no meu cérebro que me fazia esquecer de tudo. Mas a vida real não some. Ela cobra. E cobra caro.”

• O NOME FOI ALTERADO PARA PRESERVAR A IDENTIDADE DO ENTREVISTADO

 

“Tudo que é em excesso carrega um trauma”

A psicóloga Franciele Sassi alerta que o vício em jogos online já é uma questão de saúde pública no Brasil.
A psicóloga Franciele Sassi alerta que o vício em jogos online já é uma questão de saúde pública no Brasil.

“Tudo que é em excesso carrega um trauma.” Com essa frase, a psicóloga Franciele Sassi resume o alerta que precisa ser ouvido com urgência: o vício em jogos digitais, apostas online e plataformas como o popular “Jogo do Tigrinho” já deixou de ser apenas um problema comportamental. Ele se transformou em uma questão de saúde pública, afetando profundamente o bem-estar emocional e a capacidade de vida social e produtiva de milhares de brasileiros.

De acordo com a especialista, o excesso nesse tipo de comportamento compromete não só a saúde mental, mas também o corpo e os vínculos sociais. “Quando o comportamento é descontrolado, ele pode gerar sintomas de ansiedade, depressão e aumento do isolamento social”, explica Franciele.

Ela aponta que os jogos, ao oferecerem gratificações imediatas e recompensas rápidas, criam um ambiente de fuga da realidade. Enquanto a vida exige esforço, construção e paciência, o mundo dos jogos proporciona alívio instantâneo — e enganoso. “Essa evasão constante contribui para uma desregulação emocional e perda de auto percepção. A pessoa se desconecta de seus próprios limites”, diz.

O ciclo vicioso se instala quase imperceptivelmente: um clique para jogar, outro para depositar dinheiro, mais um para tentar recuperar o que foi perdido. E quando se percebe, já se perdeu muito mais do que cifras. Perdem-se vínculos afetivos, desempenho no trabalho ou nos estudos, autonomia e até a identidade. “A pessoa se vê presa, mesmo sem se dar conta disso. Ela entra num looping que compromete sua saúde emocional e física”, completa a psicóloga.

O alerta vai além do diagnóstico clínico: trata-se de entender por que o excesso acontece. Para Franciele, é essencial olhar para o trauma por trás do comportamento compulsivo. “Precisamos analisar o que está causando esse excesso. Porque ele aponta para perdas em um sentido muito mais amplo: perdas concretas, como relacionamentos e oportunidades, e perdas simbólicas, como autoestima, pertencimento e capacidade de enfrentar frustrações.”

O vício em jogos, seja nos cassinos virtuais disfarçados de entretenimento, seja nas plataformas de apostas esportivas, não é mais apenas uma questão de lazer descontrolado. Quando o jogo domina a vida, ele passa a exigir atenção clínica, acolhimento terapêutico e políticas públicas firmes. “A gratificação digital contínua pode parecer prazerosa, mas está isolando emocionalmente as pessoas e fragilizando sua conexão com a realidade”, conclui a psicóloga.


O vício em apostas nunca esteve tão próximo — e perigoso

No Brasil, plataformas online como o “Jogo do Tigrinho” e sites de apostas esportivas dominam as redes sociais, seduzem milhões e colocam famílias inteiras em risco. A nova febre nacional está fora de controle — e o alerta chegou ao Congresso.


Brasil, líder mundial no vício digital

Um levantamento da Similarweb aponta o Brasil como líder absoluto no acesso a sites de apostas esportivas no mundo: 3,19 bilhões de visitas desde janeiro de 2022. São quase 25% do tráfego global, deixando para trás potências como Reino Unido, Nigéria e Estados Unidos. É como se o brasileiro estivesse gritando para o mundo: “Aposte aqui!”

E o mais assustador? Isso tudo sem regulamentação. Sim, é legal apostar online, mas o país ainda caminha a passos trôpegos para regular o mercado e, ao menos, arrecadar com a atividade que já tomou conta da rotina do povo.


O jogo virou

Enquanto o Projeto de Lei 2234/2022 tenta encontrar consenso no Congresso, o que se vê nas ruas, nos grupos de WhatsApp e nas conversas de bar, é uma explosão silenciosa. Apostas que antes pediam coragem para enfrentar um bicheiro agora exigem só um CPF e um cartão de crédito. Plataformas como "Faz o Bet Aí" prometem facilidade, diversão e, claro, lucro. Mas o que não está no anúncio são as histórias de fracasso.

Não é difícil encontrar relatos. O motorista de aplicativo que perdeu três meses de aluguel tentando recuperar o prejuízo da última "zebra". A estudante de psicologia que deixou de pagar a faculdade depois de "investir" em uma múltipla. O pai de família que vendeu o carro pra quitar uma dívida com agiotas depois de perder tudo em uma rodada final do Brasileirão. Mudam os rostos, os sotaques e os valores. Mas o desfecho, quase sempre, é o mesmo.


Da Copa ao abismo

Durante a Copa do Mundo do Catar, o Brasil explodiu em acessos — 15,8% a mais que o mesmo período do ano anterior. Não eram só torcedores: eram apostadores. Em todos os cantos do país, as casas tremiam com gritos de "vai dar empate!" ou "bota mais um gol aí, Cristiano Ronaldo!". Não se comemorava mais o futebol: comemorava-se o PIX.

E não à toa. O setor movimentou 14 bilhões de visitas em 2022, um aumento de quase 4% em relação a 2021. O que era passatempo, hoje é negócio — e para muitos, vício.


O jogo sujo por trás do glamour

Políticos defendem a regulamentação como forma de trazer turismo, gerar empregos e fortalecer a economia. Fala-se em cassinos integrados a resorts de luxo nos estados e no Distrito Federal. Mas há também resistência. Senadores e deputados denunciam os riscos de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e, sobretudo, a fragilidade emocional de milhões de brasileiros que agora apostam sem freio.

A verdade, que poucos admitem, é que o Brasil virou um cassino sem crupiê, sem fiscalização, sem freios. O risco já não é perder uma noite de sono ou uma rodada de cerveja com os amigos. O risco, hoje, é perder a família, a casa e a sanidade, tudo num clique.


Tigrinho na Mira

O “Fortune Tiger”, popularmente conhecido como “Jogo do Tigrinho”, transformou-se de um simples caça-níquel virtual em um dos maiores escândalos digitais do país. Desenvolvido pela empresa PG Soft, sediada em Malta, o jogo opera sem regulamentação no Brasil, mas é amplamente promovido por influenciadores nas redes sociais, atraindo milhões de brasileiros com promessas de ganhos fáceis.

A situação chamou a atenção do Congresso Nacional, levando à criação da CPI das Bets, que investiga a influência das apostas online no orçamento das famílias brasileiras. A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), relatora da comissão, expressou preocupação com a disseminação do jogo.

“Quando as propagandas das bets ilegais aparecem nas redes sociais, a pessoa se empolga. São nessas ocasiões que se vão os recursos das famílias. Muitas estão indo à bancarrota.”

O empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, apontado como responsável pela divulgação do “Jogo do Tigrinho” no Brasil, foi convocado para depor na CPI. Em seu depoimento, negou ser o dono do jogo, mas admitiu que o hospeda em sua plataforma digital.

Além disso, a CPI aprovou a convocação de diversos influenciadores digitais que promoveram o jogo, incluindo Deolane Bezerra, Gkay, Jojo Todynho e Wesley Safadão, para esclarecerem sua participação na divulgação do aplicativo.

O senador Marcos Rogério (PL-RO) também criticou duramente o jogo, afirmando: “É uma doença. Precisamos saber quem são os responsáveis por esse jogo que está destruindo famílias.”

Enquanto isso, casos alarmantes continuam surgindo. Um trabalhador no Piauí desviou cerca de R$ 500 mil da empresa onde trabalhava para apostar no “Jogo do Tigrinho”, perdendo todo o valor. Em outro caso, um homem foi encontrado morto após perder R$ 200 mil no jogo.

A falta de regulamentação e fiscalização eficazes permite que esses jogos continuem operando livremente, colocando em risco a saúde financeira e mental de milhares de brasileiros. A CPI das Bets busca agora estabelecer medidas para coibir a propagação desses jogos e proteger a população dos perigos associados às apostas online.


O futuro está em jogo

A regulamentação está por vir. As apostas, essas já chegaram. E chegaram para ficar. Mas é preciso perguntar: quem está ganhando com tudo isso? As plataformas? Os intermediários? Os patrocinadores de clubes de futebol? Certamente.

Mas o povo brasileiro — aquele que carrega no bolso o sonho e a ilusão — esse está apostando alto demais. E, como qualquer bom apostador sabe, a casa sempre ganha.

 

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