Comunidade Terapêutica Rural: 15 anos sendo um instrumento de apoio e cuidados para os usuários
- temporacomunicacao
- há 2 dias
- 4 min de leitura

A Comunidade Terapêutica é um espaço totalmente gratuito e custeado pelo município. Localizado na comunidade de Passo Velho, no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves, o CT está completando 15 anos de serviços prestados, tornando-se símbolo de esperança para a recuperação de adictos. A efeméride foi comemorada no próprio local nesta quinta-feira, 19 de março.
Estiveram presentes o vice Amarildo Lucatelli, a Secretária de Saúde, Daiane Piúco, adjunta, Débora Bettú Grigolo, coordenadora da Saúde Mental, Giovana Brugnera, o coordenador do Centro Terapêutico Leonir Razador, demais autoridades e usuários do serviço.
A comunidade terapêutica oferece acolhimento, disciplina, espiritualidade, trabalho e acompanhamento em saúde para os usuários. Com capacidade de acolher 32 pessoas, o tratamento dura, em média, seis meses, com rotina que privilegia o regramento de horários que inicia às 6h da manhã e de integração, com acompanhamento psicológico, psiquiátrico, clínico e participação em grupos terapêuticos e atividades de reinserção social.
Na biografia do Centro Terapêutico, mais de mil histórias foram escritas, contadas com suas nuances e resiliências, tendo como foco a recuperação, o abandono do vício, ou seja, a reconstrução de suas vidas, de si mesmo e de suas famílias. Pais, filhos, trabalhadores, que perderam o sentido de seus objetivos. Muitos deles conseguiram reconstruir suas histórias e voltar a ser o protagonista de seus destinos. As práticas nesse processo envolvem atividades como: cultivo de horta e horto florestal, atividades comunitárias, trabalhos manuais, convivência em grupo e espiritualidade e reflexão. Um percurso humano que auxilia os usuários a reconstruir valores, hábitos e projetos de vida.
Para alguns, ser a pessoa de referência neste processo se torna causa de vida. Um aspecto muito especial desse trabalho é que muitos dos monitores de hoje já foram acolhidos no passado. Eles viveram a dependência, enfrentaram o sofrimento e hoje se tornaram exemplos vivos de que a recuperação é possível.
O CT possui três monitores que já estiveram na condição de usuários, tornando-se exemplos de superação. Jucinei se graduou e assumiu também o cargo de monitor. Hoje, considera que não é mais escravo do álcool. O primeiro passo para a sua reabilitação foi aceitar que é dependente químico e precisa de ajuda.
“Eu aceitei que perdi para o álcool, que tenho essa doença. Eu não era um bom pai para meu filho. Quem acreditou em mim foram as pessoas ao meu redor, minha família que nunca desistiu de mim. Hoje, a minha vida se transformou, tenho uma qualidade de vida melhor e estou ciente das minhas escolhas. Se meu exemplo servir para alguém, fico feliz”, ressalta.
Outro usuário que se tornou monitor e hoje segue sua vida profissional como autônomo é o Ricardo, de 54 anos, que entrou em dezembro de 2020 quando fez o tratamento. Ele comenta que de imediato mudou sua vida, auxiliando a ter um projeto de vida, de forma simples, ter o básico, como um lugar para morar e trabalho.
“Tive muitos momentos difíceis, mas tive algumas pessoas em meu caminho que me incentivaram a buscar ajuda. Elas acreditaram que eu poderia recuperar meu caráter, pois me conheceram antes da dependência química. Após o término do meu período como residente tive o privilégio de trabalhar como monitor onde procurei passar minha experiência de vida que foi muito sofrida, mas quando a gente é determinado, dá certo”, comenta.
Sua experiência no processo de recuperação é testemunho vivo da luta contra a dependência química. “Por ser uma doença progressiva e fatal, os grupos de apoio na qual frequento auxiliam a manter o foco na recuperação. Enquanto a vida dá esperança, basta querer e lutar para acontecer, lembrando de agradecer imensamente ao pessoal do CAPS AD, e a todos da Comunidade Terapêutica Rural de parabéns pelos 15 anos salvando vidas”.
Os relatos acima representam o desafio diário, urgente, de quem luta para sair do vício, onde a grande conquista é por si mesmo, de reequilibrar a vida. É um caminho árduo, áspero, com armadilhas.“Tem aquele que chega com a cara amarrada, com o pé atrás. A equipe vai desarmando, mostrando como funciona, as possibilidades. Sim, pode-se dizer que é um processo de cura, de medos, de inseguranças. Nossa missão é dar suporte humano para eles saírem das drogas, incentivando a determinação”, fala o coordenador do Centro Terapêutico, Leonir Razador.
Figura central da instituição, Leonir trabalha desde a inauguração, sua história e do CT se confundem e refletem um legado de valores e de ensinamentos, de solidariedade e de empatia, de escuta e de diálogo. São muitas as memórias, as conquistas. Aos 70 anos, reflete sobre esse momento tão significativo para a saúde pública.“A superação é coletiva. Foi a minha causa de vida; me doei para ser um exemplo, de me colocar no lugar de quem precisa. As lembranças vão e vem, mas quando as famílias veem visitar seus entes é de cortar o coração. Para aquele que conclui o tratamento, uma nova vida e minha missão foi cumprida”.
Leonir deixa sua mensagem para quem está começando a recuperação e o que projeta mais 15 anos para o local. “É preciso persistência, não desistir. Na primeira dificuldade, se desiste pelo impulso. Não pode! Persistência! Vamos passar muitas dificuldades por desistir no primeiro momento: dá esse tempo para você. O CT precisa continuar e crescer, pois tornou-se estruturante na assistência para essa parcela da população que busca ajuda e é um aporte no começo da jornada da recuperação”.
A Secretária de Saúde, Daiane Piuco, falou sobre esse marco histórico na saúde pública.
“É com muita satisfação que comemoramos os quinze anos da Comunidade Terapêutica. Hoje, façamos uma homenagem ao Seu Leonir que acompanhou toda a construção desse espaço, as vivências das pessoas. É uma história de começos e recomeços buscando o tratamento, uam solução, um acolhimento, uma compreensão de seu problema. É uma história de superações, de conquistas pessoais significativas. Esse espaço é valiosos para a nossa cidade e para os direitos humanos”, destacou Daiane.
O vice-prefeito Amarildo Lucatelli ressaltou sobre de como o espaço é exemplo de promoção de bem-estar e qualidade de vida para os usuários.
“A prática do cotidiano transforma a realidade das pessoas e de suas famílias. Sou muito grato a essa equipe que incentiva a alcançar o objetivo de bloquear as drogas em suas vidas. Tenho presenciado a vitória de vocês. Essa casa é um dispositivo onde expressa o fortalecimento da resiliência e a inserção social, sendo um pilar para a autodisciplina para as mudanças de vida. Parabéns a todos”.













Comentários