Câncer de mama: Os lutos que se iniciam antes do diagnóstico
- temporacomunicacao
- 22 de out.
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Coluna da psicóloga Franciele Sassi
No Brasil, o câncer de mama é um dos tipos de câncer mais comuns entre as mulheres (ficando secundário apenas pelo câncer de pele) e representa cerca de 28% dos casos novos de câncer em mulheres. Em 2021, por exemplo, o número de óbitos por câncer de mama feminino foi de 18.139. Para 2025, a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) é de 73.610 novos casos no país. Além disso, o país enfrenta desafios no diagnóstico precoce. Em muitos casos o diagnóstico acontece em estágio já avançado, o que reduz as chances de cura. Outro dado relevante é que 33% dos casos entre 2018 e 2023 foram diagnosticados em mulheres com menos de 50 anos. Esses números reforçam que cuidar da saúde da mama não é apenas uma questão individual, envolve políticas públicas, acesso ao exame, qualidade do tratamento e prevenção.
Quando uma mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, inicia-se um processo de luto, não unicamente pelo risco da morte, mas pelas múltiplas perdas que se anunciam antes mesmo do tratamento começar. Diz-se que o luto simbólico se antecipa, ou seja, logo no momento da confirmação, há uma ruptura: o corpo saudável deixa de ter a promessa implícita de ‘normalidade’. Surge o medo, aparece a fragilidade. O luto simbólico abre-se por aquilo que se era: a imagem corporal, a rotina de vida, a sensação de invencibilidade, um futuro desenhado sem quadros de saúde que ameacem a vida.
Essas perdas simbólicas — estamos falando da autonomia, da liberdade, da segurança, da própria feminilidade ou sexualidade — começam já no anúncio da doença. O impacto psicológico e emocional se manifesta antes de qualquer intervenção física.Por exemplo: saber que se dependerá de exames, hospitalizações, tratamentos que alteram o corpo, o tempo, a relação com o outro — tudo isso constitui perda. Portanto, o luto não espera pela morte e independe dela necessariamente; ele começa desde o diagnóstico.
Embora muitos casos tenham prognóstico favorável, o câncer de mama ainda representa risco — risco de morte, risco de mudança permanente de vida. Cada estatística de mortalidade é um lembrete de que existe a possibilidade real de perda. No Brasil, com mais de 18 mil mortes anuais apenas por câncer de mama em mulheres, esse risco se traduz em rostos, famílias, histórias interrompidas. A combinação entre diagnóstico tardio e tratamento mais complexo agrava essa realidade: além da possibilidade da morte, há a realidade de um tratamento prolongado, da dependência, de sequelas — todas também formas de perda. Assim, o luto real — a perda da vida, ou das possibilidades que a vida prometia — convive com o luto simbólico desde o início.
Esse luto não atinge apenas a pessoa diagnosticada, como também reverbera em torno dela: parceiros, filhos, pais, amigos. A doença interrompe planos comuns, coloca angústia no presente, exige adaptação. Quando a mulher decide se cuidar, fazer exames, enfrentar o tratamento, ela está cuidando não só da própria vida mas também da presença para quem a ama. Existe um vínculo entre essa fragilidade e a responsabilidade do cuidado — pois ser frágil é ser humano, e amar é querer estar para o outro. Assim, diante dos números reais, dos riscos, do luto antecipado, a ação preventiva assume significado profundo. Realizar exames de rotina, conhecer o próprio corpo, procurar atendimento ao menor sinal, aderir a hábitos saudáveis: essas atitudes são muito mais do que “check-ups”. São expressões de amor pela própria vida e pela vida dos outros.















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