Há mundos que só conhecemos quando saímos de nós mesmos

COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI

Existem riquezas que não se acumulam em coisas, mas em experiências.
A gente se torna maior cada vez que se dispõe a viver algo que ainda não conhece. A dimensão de mundo interno e externo aumentam na medida em que experimentamos um lugar diferente, conversamos com alguém que pensa de outra maneira, conhecemos uma cultura, provamos um sabor que não escolheríamos, mudamos um caminho, ouvimos uma história que não se parece com a nossa. Nem sempre essas experiências serão agradáveis – mudar não é fácil. Estar aberto e disponível a conhecer sem julgar também não é. Algumas vivências podem nos desconcertar, frustrar ou até nos fazer perceber que aquilo que imaginávamos sobre determinada coisa estava equivocado. Parece que é justamente aí que reside uma das maiores possibilidades de crescimento.
Viver experiências novas não significa apenas acrescentar acontecimentos à nossa história. Significa ampliar a maneira como compreendemos o mundo e a nós mesmos. Quando permanecemos somente naquilo que conhecemos, tendemos a acreditar que nossa forma de viver, sentir, pensar e escolher é mais natural do que realmente é. O familiar facilmente se transforma em referência para julgar o que é diferente: “eu não faria isso”, “não gosto disso”, “isso é estranho”, “não consigo entender como alguém pode viver dessa maneira”. Muitas vezes, o julgamento nasce menos de uma avaliação consciente e mais da nossa dificuldade diante daquilo que não conseguimos imediatamente reconhecer.
A experiência, entretanto, pode produzir uma pequena ruptura nessa lógica. Quando nos permitimos estar diante do diferente sem a necessidade de classificá-lo imediatamente como certo ou errado, bom ou ruim, normal ou estranho, começamos a desenvolver capacidades preciosas: observar, escutar, compreender.
Podemos conhecer uma forma de viver e continuar escolhendo outra. Podemos entrar em contato com uma cultura diferente, uma crença diferente, uma maneira diferente de construir relações, de trabalhar, de organizar a vida, e ainda assim permanecer fiéis aos nossos próprios valores. A diferença não precisa representar uma ameaça àquilo que somos.
Pelo contrário, muitas vezes, é justamente o contato com o diferente que nos permite descobrir quais são, de fato, as nossas escolhas. É nesse encontro que a mente se torna mais flexível. Aprendemos que existem outras possibilidades de interpretar uma mesma situação, outras maneiras de construir uma vida, outras respostas para perguntas que imaginávamos ter apenas uma solução. Desenvolvemos maior capacidade de adaptação porque percebemos que nem tudo precisa acontecer como planejamos para que possamos continuar.
E há algo ainda mais profundo nesse processo: aprendemos a respeitar o outro em sua alteridade. Respeitar não é transformar o outro em uma versão de nós mesmos. Não é exigir que suas escolhas façam sentido dentro da nossa experiência para que sejam consideradas legítimas. É conseguir olhar para alguém e reconhecer: você não precisa ser como eu para que eu reconheça a sua humanidade. Talvez amadurecer tenha também a ver com isso: diminuir a necessidade de que o mundo corresponda às nossas expectativas, suportar melhor aquilo que não conhecemos, abandonar a pressa de dar nome, explicação e julgamento para tudo aquilo que nos causa estranhamento.
Quando a gente se dispõe verdadeiramente a viver, percebe que o mundo é muito maior do que aquilo que aprendemos a considerar familiar. E nós também somos. Cada experiência nova pode nos apresentar não apenas a um lugar, uma pessoa ou uma realidade diferente, mas a uma parte de nós que ainda não havia sido convocada a existir.
Além do mais, nem toda experiência precisa se transformar em preferência para ter valor. Algumas existem para nos ensinar sobre o mundo. Outras, sobre os outros. E algumas, silenciosamente, ensinam sobre nós mesmos. Portanto, uma vida verdadeiramente rica não se trata daquela em que tudo aconteceu como planejamos, mas aquela em que tivemos coragem suficiente para não conhecer antecipadamente todos os caminhos que percorreríamos. Porque viver é também se deixar afetar pelo que ainda não conhecemos. E, quando fazemos isso, não apenas ampliamos o mundo. Ampliamos a nós mesmos.













Comentários