Jornalismo é caráter em estado de vigília
- temporacomunicacao
- 2 de fev.
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

A certa altura da vida, a gente percebe que não quer mais explicar demais o que faz, nem pedir desculpa por fazer direito. Não é arrogância. É cansaço de fingir. É quando a honestidade deixa de ser virtude ornamental e passa a ser exigência íntima. Foi exatamente daí que nasceu o Pauta Serrana.
Depois de minha passagem de seis anos pelo Poder Público, bati em muitas portas que estavam fechadas por causa de opiniões e posições de pessoas que estavam perto de mim, opiniões das quais, em boa parte, eu nunca concordei. Ainda assim, de algum modo, acabei contaminado por essas posições a ponto de ser rotulado. E isso machuca. Porque não sou eu e nem o que fiz. Machuca porque nunca fui pautado pelo ódio ou pelo medo, pela raiva ou pelo rancor. Talvez por ser meio quixotesco, sempre quis me pautar pelos ideais, pela honra. Acima de tudo, jamais aceitando jogar sujo para conseguir o que quero. E, não tenho vergonha de dizer, isso me fez parar até na terapia. Mas ainda assim, sou grato por tudo.
Voltando à conunicação, devo dizer que sempre acreditei que jornalismo não é posição política. É posição moral. Não se trata de escolher lados, mas de sustentar princípios mesmo quando isso custa caro. Informar sem sangrar. Relatar sem deformar. Contar a verdade sem o vício narcísico de querer ser maior do que ela.
O nosso jeito de fazer jornalismo nasce dessa convicção simples de que caráter não se proclama, se pratica. Todos os dias.
Estou em Bento Gonçalves desde 2010. Foi aqui que se construiu a maior parte da minha vida profissional. Foi aqui que aprendi a conhecer pessoas, lugares, silêncios e tensões.
Aqui fiz escolhas difíceis, enfrentei riscos reais e entendi que pertencimento não é discurso, é responsabilidade. É aqui que pretendo permanecer. Não como alguém de passagem, mas como quem responde pelo chão que pisa.
O Pauta Serrana ainda é jovem. Não temos sequer um ano de existência. Em abril, completaremos esse primeiro ciclo simbólico. Temos alguns ótimos anunciantes, é verdade, e, se Deus permitir, teremos ainda mais. O trabalho está apenas começando e nossas ações e posicionamentos falarão por nós. Temos algo que não se compra, que é convicção.
Estamos nos consolidando, crescendo, aprendendo, errando e acertando à vista de todos. Acreditando. Porque todo projeto que nasce com honestidade começa pequeno, mas começa vivo. E coisa viva cresce.
O Pauta Serrana não tem bandeira partidária, não opera por favores, não negocia silêncio. Não atacamos para extorquir e não calamos por metais. Não usamos a crítica como instrumento de chantagem nem o silêncio como moeda de troca. A independência aqui não é slogan. É método. E método, quando levado a sério, cansa, cobra e incomoda.
Nosso slogan é “Onde a região se encontra e a história é contada”. E quando falamos em política, falamos no seu sentido mais antigo e mais nobre. Política como a entendia Aristóteles, ou seja aquilo que diz respeito à pólis, à vida comum, ao espaço onde os homens se encontram para buscar, juntos, o bem possível. Política não como guerra tribal, mas como ética pública. Não como culto ao poder, mas como responsabilidade diante da cidade.
Aqui, a política será tratada como coisa pública. Como debate legítimo, como fiscalização necessária, como confronto de ideias que não exige ódio para existir. Não faremos torcida organizada. Não distribuiremos rótulos morais. Não confundiremos discordância com inimizade.
A política, quando perde a ética, vira ruído. Quando perde o sentido do bem comum, vira caricatura. Nosso papel é devolver densidade ao debate, não incendiá-lo.
No Pauta Serrana, segurança pública será informada com responsabilidade, sem pornografia da tragédia, sem transformar dor alheia em entretenimento de cliques. Há limites que não são editoriais. São humanos.
Jamais noticiaremos suicídio. Não por covardia, mas por consciência. Sabemos do efeito Werther. Sabemos que uma manchete pode empurrar alguém que já está à beira. Preservar vidas também é função do jornalismo sério. E, pelo mesmo motivo, não recorreremos a eufemismos para aliviar a realidade, dizendo que "um corpo foi encontrado e que a Polícia vai investigar". Nunca faremos isso, não noticiamos suicídio. E pronto.
Quando o assunto for homicídio ou assassinato. Assassinato é assassinato. Chamar isso de crime violento contra a vida é diluir a verdade até que ela perca o peso moral que carrega. Até um soco na cara pode ser um crime violento. Um acidente de trânsito pode causar morte violenta. Então, romantizar verbetes para aliviar é algo que não faremos. Acreditamos que a língua não existe para anestesiar consciências.
Minha trajetória começou quase sem pretensão, no ano 2000, no Diário Serrano de Cruz Alta. De lá para cá, passei por rádios AM e FM, por portais de notícias, por canal no YouTube, por assessorias de entidades e do poder público.
Vivi redações caóticas, usaando materiais às vezes improvisados, buscando cumprir prazos impossíveis e silêncios ensurdecedores (sim, eu amo paradoxos).
Aprendi muito. Inclusive a discordar. E a sustentar discordâncias.
Paralelamente ao jornalismo, construí minha trajetória como escritor. Já publiquei 17 livros. Outros estão a caminho. Escrever nunca foi vaidade. Sempre foi necessidade. Quase uma terapia. Todos os dias, desde dos 13 anos, escrevo alguma coisa. Nem que seja em um carderno ou agenda. Ou em um bloco de notas no computador. Vivo isso como um jeito de pensar o mundo com mais profundidade do que permitem as manchetes apressadas.
Sou apaixonado por cultura, por história, por símbolos, por tudo aquilo que ajuda a compreender o homem para além da superfície do fato bruto. Cultura não é luxo. É estrutura. É o que impede a barbárie de parecer normal.
Já trabalhei com vereadores, já atuei na assessoria da Câmara. Não tenho filiação partidária. Nem sempre concordei com meus chefes, seja na política, seja no jornalismo. Muitas vezes discordei com veemência. Relações de poder não moldam essência. Cargo não empresta caráter. Função não redefine valores. Cada um responde pelo que é, pelo que faz e pelo que tolera.
O Pauta Serrana nasce justamente para ser maior do que o meu ego. Como editor, assumo um compromisso que vai além da técnica, que é de caráter, de jamais falhar como cidadão, como líder e como homem. Minhas frustrações, meus rancores ou minhas indignações pessoais não terão abrigo aqui. Jornalismo não é terapia. Não é catarse. Não é ajuste de contas. É serviço público.
Honra é uma palavra antiga, quase incômoda, mas continua sendo um critério imbatível.
Honra com o leitor, que confia.
Honra com a informação, que exige rigor.
Honra com os profissionais que, todos os dias, constroem o Pauta Serrana com seriedade, inteligência e coragem. E graças a Deus, aqui no Pauta Serrana temos pessoas incríveis que convergem nesse sentido. Minha sócia Aline Cris Ambrosi, uma idealista e uma das melhores pessoas que ja conheci na vida e nossa comercial, Paula Machline Carrion, uma pessoa de coração puro e muitos sonhos. As meninas que estão empenhadas comigo nesta jornada incrível.
Não prometemos agradar. Prometemos respeitar. E isso, em tempos de histeria, já é uma forma de resistência.
O Pauta Serrana nasce desse compromisso. Não com ideologias, mas com a decência. Não com o aplauso fácil, mas com a consciência tranquila. Não com o poder, mas com o leitor.
Aqui, a informação não será instrumento de vaidade nem extensão de ressentimentos pessoais. Será, como deve ser, matéria de responsabilidade.
Sonhamos alto. Sonhamos com um jornalismo local forte, respeitado, independente e longevo. Respeitamos nossos colegas e jamais seremos vistos criticando, fazendo piada ou desmerecendo o trabalho alheio. Não ridicularizaremos ninguém. Sabemos que temos ótimos profissionais em nossa região. Esses, nos inspiram. E como eles, também almejamos ser de outra prateleira.
Sonhamos em crescer sem perder a alma, em ampliar vozes sem diluir princípios, em ganhar estrutura sem vender consciência. Sonhos não são ingenuidade quando caminham acompanhados de trabalho, rigor e honra. São projeto.
Jornalismo, no fim das contas, é isso, uma forma diária de exercitar o caráter. Um estado permanente de vigília. Um esforço contínuo para não se tornar aquilo que se critica.
Não prometemos unanimidade. Não prometemos conforto. Prometemos rigor, respeito e honra. Enquanto isso bastar, seguimos. Quando não bastar, não vale a pena continuar.
Porque informar é um ato público.E dignidade, ao contrário do barulho, não precisa gritar.













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