Não é sobre Brad Pitt. É sobre o que ainda falta
- temporacomunicacao
- há 5 dias
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Coluna de Maia Boaro

Nos últimos dias, a internet transformou em piada a história da mulher que aguardava Brad Pitt no aeroporto de Erechim. O episódio virou meme, riso coletivo, entretenimento rápido. Rimos porque parece absurdo. Rimos porque “não fomos nós”. Rimos porque o riso, muitas vezes, é uma forma de defesa.
Mas, quando atravessamos o riso e escutamos com mais profundidade, percebemos que não é sobre Brad Pitt. Ele, aqui, não é o homem real. É um símbolo.
Na psicanálise, não olhamos o ato isolado, mas o desejo que o sustenta. Brad Pitt representa o amor idealizado, o reconhecimento, a fantasia de ser escolhida, vista, validada. Representa a promessa — ainda muito presente — de que o outro virá preencher aquilo que falta dentro de nós.
Muitas mulheres foram educadas emocionalmente a buscar no outro aquilo que não aprenderam a encontrar em si. O amor, então, deixa de ser encontro e passa a ser salvação. Não se espera apenas uma pessoa — espera-se sentido, pertencimento, valor.
O riso coletivo também merece atenção. Rimos para nos proteger da angústia. Rimos porque a cena toca algo que preferimos não ver. O meme funciona como defesa: transforma dor em chacota para que não precisemos reconhecê-la como possível em nós.
Mas quantas mulheres já esperaram, em silêncio, por alguém que nunca veio?
Quantas sustentaram relações, promessas vagas, migalhas emocionais, acreditando que a espera, um dia, seria recompensada?
Quando uma mulher expõe sua fragilidade, ela vira alvo. Isso também é violência simbólica. A sociedade tolera o sofrimento feminino apenas quando ele é silencioso. Quando aparece, quando escapa, quando se torna visível, vira motivo de escárnio.
Talvez a pergunta não seja “como ela acreditou nisso?”, mas:
o que faltava para que essa espera se tornasse possível?
Que vazio emocional precisou ser preenchido por uma fantasia tão grande?
A polêmica nos convoca a olhar menos para o dedo que aponta e mais para a ferida que ele tenta esconder. Não se trata de defender ilusões, mas de compreender os mecanismos psíquicos que sustentam o desejo de ser escolhida como prova de valor.
Enquanto o amor continuar sendo vendido como promessa de completude, muitas pessoas continuarão esperando no aeroporto da própria vida — acreditando que alguém chegará para dizer: “agora você é suficiente”.
Talvez o verdadeiro encontro comece quando a espera pelo outro deixa de ser a condição para existir.














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