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O Ar Que Nos Falta: A Tempestade Invisível das Doenças Respiratórias em Bento Gonçalves

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 20 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Diego Franzen / Pauta Serrana


Em Bento Gonçalves, a bruma que cobre os vales ao amanhecer já não é apenas romântica. Há algo nela que incomoda — não só os olhos, mas os pulmões. Em 2025, a cidade já soma 287 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) até o dia 20 de maio. E esse número não está só em uma planilha fria de algum boletim epidemiológico. Ele mora ao lado, respira com dificuldade, tosse no ônibus, espera por atendimento nos corredores das unidades de saúde.


De todos esses casos, 52 foram causados pelo vírus influenza, 19 pelo coronavírus e 50 pelo vírus sincicial respiratório.


Mas o dado mais alarmante talvez esteja na reemergência de um velho conhecido: o vírus H1N1, o mesmo que parou o mundo em 2009. Em 2025, já são 43 pessoas diagnosticadas com a doença na cidade — um aumento preocupante que sinaliza o retorno de um inimigo que muitos já consideravam domado.


E por trás dos vírus, há algo mais nebuloso: a mudança climática, que segue silenciosa, alterando o ritmo das estações, embaralhando os calendários da natureza e desregulando até o ciclo dos espirros.


As Estações Já Não São as Mesmas

O que antes se chamava de “frio gaúcho” virou um jogo de incertezas. Em abril, o outono já tinha cara de inverno, mas com tardes de verão. Ora seco, ora úmido demais. O corpo humano, acostumado com ritmos previsíveis, paga o preço desse vai-e-volta atmosférico. “É como viver no ar-condicionado de Deus, mas sem controle remoto”, diria algum morador indignado entre um gole de vinho e uma tossida.

O pulmão, coitado, vira campo de batalha. E os vírus aproveitam. Eles circulam mais facilmente em ambientes fechados, mal ventilados, onde o ar seco machuca as vias respiratórias e abre caminho para infecções.


A Saúde Pública em Alerta

Para conter esse avanço, a Secretaria Municipal da Saúde iniciou em abril a Campanha Nacional de Vacinação contra a gripe. E, diante do crescimento dos casos, a vacinação foi liberada para toda a população na segunda quinzena de maio.

Mas a vacina, embora fundamental, não é mágica. É um escudo, não uma armadura. A proteção depende também de medidas simples: lavar as mãos, evitar aglomerações, manter os ambientes arejados, e, quando necessário, abrir mão daquele velho hábito do abraço. Nas escolas, por exemplo, embora não se recomende a suspensão das aulas, alunos e professores com sintomas gripais devem permanecer em casa por até sete dias.

A prevenção é uma coreografia coletiva. E precisa de ensaio.


A Cidade que Respira (com Dificuldade)

Bento Gonçalves é terra de uva e vinho. Mas também de gente. Gente que envelhece, que vive mais, e por isso mesmo precisa de mais cuidado. Os idosos estão entre os mais afetados pelas doenças respiratórias. E com uma população cada vez mais longeva, o sistema de saúde precisa se preparar para uma realidade que já chegou.

A boa alimentação, a hidratação adequada e o fortalecimento da imunidade são aliados fundamentais.


A Tempestade Invisível

As mudanças climáticas não trazem só enchentes ou secas. Trazem o invisível: o ar contaminado, a proliferação de vírus, a sobrecarga nos sistemas de saúde, a criança que falta à aula, o idoso que adia uma visita, a mãe que passa a noite em claro com o filho febril. Tudo isso não entra no cálculo do PIB, mas pesa — e muito — na vida real.

A verdadeira tragédia, talvez, não esteja apenas nos números crescentes, mas na sensação de que estamos normalizando o anormal. Um clima desregulado. Um sistema de saúde sempre no limite. Um corpo social cada vez mais exposto.

Em Bento Gonçalves, o frio volta a chegar. Mas não é só o frio que preocupa. É o ar. E é a forma como — cada vez mais — temos dificuldade de respirá-lo.



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