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O que está acontecendo com a nossa maneira de viver o tempo?

Foto do escritor: temporacomunicacao
temporacomunicacao
há 10 horas
4 min de leitura

COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Há uma frase que começa a aparecer com frequência nesta época do ano: “Não é possível que já estamos em outubro.” Depois vem novembro, dezembro, e, quando percebemos, estamos novamente diante de um calendário que parece ter corrido enquanto nós apenas tentávamos acompanhá-lo.


Mas talvez exista uma pergunta mais interessante do que “por que o ano está passando tão rápido?”. O que está acontecendo com a nossa maneira de viver o tempo?


A sensação de que as semanas estão desaparecendo não significa que o relógio esteja correndo diferente. O tempo cronológico continua obedecendo às mesmas horas, aos mesmos minutos. O que muda é a nossa experiência subjetiva dele. E essa experiência é profundamente influenciada por atenção, memória, quantidade de acontecimentos, carga cognitiva e estado emocional. A sobrecarga cognitiva modifica a maneira como as pessoas estimam e recordam a duração dos acontecimentos.


Talvez seja por isso que tanta gente chegue ao fim do ano com a impressão de que viveu meses inteiros no modo automático: Acorda. Trabalha. Resolve. Responde. Produz. Compra. Agenda. Organiza. Cuida. Corre. Dorme.


E repete.


O problema não é necessariamente ter muitas coisas para fazer. O problema começa quando quase tudo precisa ser feito com pressa e quase nada pode simplesmente ser vivido. Até mesmo o descanso, muitas vezes, precisa ser produtivo aos nossos olhos e aos olhos dos outros também.


“Vou aproveitar o final de semana”: E então precisamos aproveitar muuuuuuuuuito. Intensamente. Viajar. Conhecer lugares. Fazer exercícios. Encontrar pessoas. Fotografar. Comer algo diferente. Assistir a uma série. Resolver alguma pendência. Organizar a casa. Até o lazer ganha uma lista de tarefas. E talvez seja justamente aí que alguma coisa se perca: a experiência de permanecer em alguma coisa sem precisar transformá-la imediatamente em outra coisa.


Uma xícara de café pode ser apenas uma xícara de café. Uma caminhada não precisa ser uma meta de passos. Uma conversa não precisa render uma fotografia. Uma tarde livre não precisa ser preenchida. Um domingo não precisa ser “bem aproveitado”. Porque quando estamos constantemente antecipando o próximo compromisso, uma parte da atenção já não está onde o corpo está. Estamos fisicamente em um lugar e mentalmente em cinco outros. E isso tem consequências para a maneira como o tempo é registrado na memória.


Nossa percepção da passagem do tempo não depende apenas do relógio, mas também da atenção, das experiências e daquilo que conseguimos registrar delas.


Por isso, talvez a sensação de que “o ano voou” não seja apenas sobre o calendário. Pode ser também sobre quantas vezes estivemos presentes o suficiente para perceber que estávamos vivendo. Desacelerar não é fazer menos. É fazer diferente. Não precisamos transformar a desaceleração em mais um projeto de autocuidado. Aliás, talvez seja melhor começar justamente retirando essa obrigação.


Algumas experiências podem ajudar a devolver um pouco de espaço à vida cotidiana:

• Faça alguma coisa sem registrar: Escolha experiências que não serão fotografadas, publicadas ou compartilhadas. Não porque celular ou a câmera sejam o problema, mas porque existe uma diferença entre viver uma experiência e imediatamente transformá-la em conteúdo.

• Termine uma atividade antes de começar outra: Parece banal, mas é uma mudança importante. Tomar café enquanto responde mensagens, assistir televisão enquanto trabalha e conversar enquanto olha notificações fragmenta a atenção. Experimente, por alguns momentos, fazer uma coisa só.

• Crie pequenos intervalos sem objetivo: Não é meditação obrigatória. Não é exercício. Não é técnica. É simplesmente sentar na varanda, olhar pela janela, tomar café, ouvir música ou ficar alguns minutos sem produzir absolutamente nada. O vazio também precisa existir.

• Faça uma atividade deliberadamente devagar: Cozinhar uma refeição simples. Tomar banho sem pressa. Caminhar observando as ruas. Regar plantas. Preparar um café. Ler algumas páginas. O objetivo não é relaxar imediatamente. É perceber o que acontece quando você não tenta acelerar a atividade para chegar logo à próxima.

• Reintroduza experiências que não servem para nada: Esse talvez seja um dos exercícios mais difíceis para quem está acostumado a medir tudo pela utilidade. Desenhar sem saber desenhar. Montar um quebra-cabeça. Folhear um livro antigo. Ouvir um disco inteiro. Fazer uma receita trabalhosa apenas porque gosta dela. Não precisa melhorar nada em você.

• Troque parte da agenda por pontos de referência: Em vez de preencher todo o tempo livre, escolha algumas coisas que quer realmente viver naquele período. Uma caminhada específica. Um almoço demorado. Uma visita. Um lugar. Uma conversa. Ter menos acontecimentos, mas lembrar deles com mais nitidez pode produzir uma experiência de tempo muito diferente.

• Experimente ficar algumas horas sem consultar o relógio: Para quem vive permanentemente verificando horários, prazos e compromissos, retirar temporariamente esse marcador pode ser surpreendentemente estranho. E justamente por isso interessante.

• Observe o que está ocupando espaço mental, não apenas espaço na agenda: Às vezes, o problema não é ter dez compromissos no dia. É carregar quinze preocupações enquanto realiza cada um deles. Uma tarefa pode terminar fisicamente e continuar acontecendo mentalmente durante horas.

• Reserve tempo para atividades que não exigem desempenho: Não precisam ser “terapêuticas”, produtivas ou capazes de proporcionar uma versão melhor de você. O cérebro também precisa de momentos em que não está sendo convocado para resolver, decidir, comparar ou produzir.


A natureza e os ambientes naturais também são alternativas que podem funcionar como uma pausa real para um organismo que passou muito tempo em estado de demanda. Há uma associação direta entre exposição à natureza e redução de diferentes indicadores de estresse fisiológico e percebido.


Talvez, então, desacelerar não seja simplesmente colocar menos coisas na agenda. Talvez seja devolver espessura às coisas que já estão acontecendo. Porque podemos passar uma hora tomando café e não perceber o café. Podemos passar um dia inteiro com alguém e não conversar de verdade. Podemos viajar para um lugar maravilhoso e passar a viagem inteira pensando no próximo destino. Podemos chegar ao fim de um ano cheio de acontecimentos e, ainda assim, ter dificuldade para lembrar onde estivemos emocionalmente durante aqueles meses.


Então, quando chegar aquela sensação de: “Meu Deus, já é final de ano de novo”, vale a pena não responder imediatamente com mais uma lista de coisas que precisamos fazer antes que o ano termine. É mais importante se perguntar “Onde eu estive enquanto tudo isso acontecia?” Porque desacelerar não é fazer o calendário andar mais devagar. É conseguir estar presente o suficiente para perceber que o tempo está passando, mas que a vida está acontecendo no aqui e agora.

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