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Quando a dor não tem resposta, a espiritualidade pode ser uma âncora

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    temporacomunicacao
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

O que nos sustenta quando aquilo que aconteceu não pode mais ser mudado? Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis do luto. Quando alguém importante morre, não perdemos somente uma pessoa. Perdemos também hábitos, planos, referências, conversas, lugares compartilhados e uma parte do futuro que havíamos imaginado ao lado dela. De repente, o mundo continua funcionando enquanto, para quem está vivendo a perda, muita coisa parece ter perdido o sentido. É justamente nesse momento que a espiritualidade pode se tornar uma importante forma de sustentação.


Espiritualidade não significa necessariamente religião. Para algumas pessoas, ela estará na fé em Deus, na oração e na crença de que a vida continua de alguma maneira depois da morte. Para outras, poderá estar no contato com a natureza, na meditação, nos valores que orientam sua vida, na sensação de pertencimento, na conexão com outras pessoas ou simplesmente na confiança de que ainda será possível encontrar algum sentido para continuar. Às vezes, ter fé não é acreditar que tudo ficará bem. É acreditar que será possível atravessar aquilo que hoje parece impossível.


No luto, essa diferença é importante. A fé não impede a tristeza. Não elimina a saudade. Não impede que alguém sinta raiva, revolta, medo ou injustiça. Inclusive pessoas profundamente religiosas podem questionar aquilo em que sempre acreditaram depois de uma perda. “Por que isso aconteceu?”; “Por que com ele?”; “Por que agora?”; “Por que Deus permitiu?”. Essas perguntas também fazem parte do sofrimento. Por isso, espiritualidade não deveria significar encontrar rapidamente uma explicação para a morte. Algumas perdas simplesmente não têm uma resposta capaz de aliviar aquilo que aconteceu.


Talvez a função da fé seja menos explicar e mais sustentar quando tudo perde o sentido. Uma morte importante pode desorganizar muito mais do que a rotina. Ela pode modificar a maneira como enxergamos a vida. Aquilo que antes parecia seguro deixa de parecer. Os planos precisam ser refeitos. Papéis familiares mudam. Lugares passam a carregar lembranças. Datas ganham novos significados. E uma das tarefas mais difíceis do luto passa a ser justamente esta: aprender a viver em uma realidade que já não possui alguém que fazia parte dela. Nesse processo, encontrar algum significado pode ajudar. Mas encontrar significado não é encontrar uma justificativa para a morte.


Nem toda perda precisa ensinar alguma coisa. Nem toda tragédia precisa ser transformada em crescimento. Nem tudo acontece “por algum motivo” que precisamos descobrir. Às vezes, o sentido aparece em outro lugar: não na pergunta “por que essa pessoa morreu?”, mas em perguntas como: “O que essa relação deixou em mim?”; “O que eu quero preservar dessa história?”; “Como posso continuar vivendo carregando comigo aquilo que essa pessoa representou?”. Essa mudança parece pequena, mas pode transformar profundamente a maneira de atravessar uma perda. O amor não termina onde a vida terminou.


Durante muito tempo existiu a ideia de que elaborar o luto significaria se desligar emocionalmente de quem morreu. Hoje compreendemos que não funciona dessa forma. As relações importantes continuam existindo dentro de nós de outras maneiras. A pessoa não está mais fisicamente presente, mas permanecem suas histórias, seus ensinamentos, seus gestos, suas frases, seus valores e aquilo que foi construído naquela relação. Por isso, algumas pessoas rezam. Outras visitam lugares importantes. Algumas mantêm determinadas tradições. Há quem escreva cartas para quem morreu. Quem cozinhe uma receita que aquela pessoa fazia. Quem continue um projeto iniciado por ela. Quem transforme a experiência da perda em ajuda para outras pessoas.


Não se trata de negar a morte. Trata-se de encontrar uma nova forma de manter um vínculo com alguém que já não pode estar presente como antes. O luto não exige que o amor termine. Exige que esse amor encontre outra forma de existir. E a espiritualidade pode ajudar justamente nessa transformação. Fé também pode ser esperança.


Existe uma ideia equivocada de que esperança significa acreditar que logo estaremos bem. No luto, esperança pode ser muito mais simples. Talvez seja conseguir pensar: “Hoje está insuportável, mas talvez nem todos os dias sejam assim.” Talvez seja acreditar que algum dia será possível lembrar sem sentir apenas dor. Que será possível voltar a sorrir sem culpa. Viajar sem sentir que está abandonando quem morreu. Comemorar alguma coisa sem pensar que não deveria estar feliz. Construir novos projetos sem acreditar que isso significa esquecer. Porque uma das dificuldades do luto está justamente nisso: permitir-se voltar à vida.


Algumas pessoas sentem culpa quando percebem que estão melhorando. Como se sofrer fosse uma forma de demonstrar amor. Como se deixar de sofrer intensamente significasse que a pessoa que morreu está ficando para trás. Mas não existe uma relação direta entre amor e sofrimento. Você não precisa continuar sofrendo para provar que alguém foi importante. É possível sentir saudade e ainda assim viver. É possível amar alguém que morreu e voltar a sentir prazer. É possível preservar uma história e construir outras.


Cuidar de si também pode ser uma forma de continuar. A espiritualidade também pode aproximar o enlutado do autocuidado. Quando alguém está atravessando uma perda, cuidar da própria vida pode parecer secundário. Dormir bem, alimentar-se, movimentar o corpo, aceitar companhia, sair de casa ou retomar alguma atividade prazerosa podem parecer coisas pequenas diante da dimensão da ausência. Mas não são. O luto exige enorme quantidade de energia emocional e física. Por isso, voltar aos poucos para o próprio corpo, para a rotina e para os vínculos também faz parte do processo.


Cuidar de si não significa esquecer. Voltar a sorrir não significa amar menos. Descansar não significa não sentir saudade. Fazer planos não apaga o passado. Continuar vivendo também pode ser uma maneira de honrar aquilo que foi vivido. E talvez a fé ajude algumas pessoas justamente a lembrar disso: ainda existe uma vida que precisa ser cuidada.


Mas a fé nunca deveria silenciar a dor, então, existe também um cuidado necessário. Nem toda fala religiosa acolhe. Dizer para alguém que acabou de perder uma pessoa importante que “Deus sabe o que faz”, “era para acontecer”, “você precisa aceitar” ou “ele está em um lugar melhor” pode parecer reconfortante para quem fala, mas nem sempre é para quem escuta. Às vezes, essas frases fazem com que o enlutado se sinta ainda mais sozinho. Porque além de sofrer, ele passa a acreditar que não deveria estar sofrendo daquela maneira. Uma espiritualidade saudável não deveria exigir que alguém pare de chorar. Nem impedir a raiva. Nem condenar a dúvida. Nem obrigar a encontrar rapidamente um aprendizado em uma experiência dolorosa. Ter fé também pode significar continuar acreditando mesmo sem entender.


Em alguns momentos, talvez seja exatamente isso. Não ter respostas, mas encontrar alguma coisa que permita atravessar as perguntas. Quando uma perda desorganiza a vida, precisamos encontrar pontos de sustentação: para algumas pessoas, serão os amigos. Para outras, a família. Pode ser a psicoterapia. Pode ser um grupo de apoio. Uma comunidade. Uma lembrança. Um ritual. Um projeto. A natureza. A oração. Ou a crença de que existe alguma coisa maior do que aquilo que conseguimos compreender naquele momento. A espiritualidade pode ser uma dessas âncoras. Não para fazer a dor desaparecer. Não para oferecer respostas prontas. Muito menos para exigir que alguém “supere” rapidamente uma perda. Mas para lembrar que, mesmo depois de uma ruptura profunda, ainda pode existir sentido, vínculo, cuidado e vida. Talvez a fé não nos diga por que algumas pessoas precisam partir. Mas, em determinados momentos, ela pode nos ajudar a descobrir como continuar depois que elas partiram.


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