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Quando a vida parece não fazer mais sentido, para onde devo ir?

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temporacomunicacao
há 5 horas
5 min de leitura

COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Há uma dificuldade pouco discutida quando falamos sobre saúde mental: muitas pessoas sabem que não estão bem, mas não sabem exatamente o que fazer com isso. Percebem que estão diferentes, mais irritadas, cansadas, ansiosas, desanimadas ou isoladas. Perdem a vontade de fazer coisas que antes faziam parte da rotina. Começam a dormir mal. Sentem dificuldade para trabalhar, estudar, cuidar dos filhos ou manter relacionamentos. Algumas passam a beber mais, comer de maneira diferente ou simplesmente funcionar no automático. E, ainda assim, podem passar muito tempo sem procurar ajuda.


Às vezes, porque acreditam que o sofrimento ainda não é suficientemente grave. Outras vezes, porque imaginam que deveriam conseguir resolver sozinhas. Há também quem não procure porque não sabe se precisa de um psicólogo, de um psiquiatra, de um médico ou de algum outro tipo de atendimento. É justamente nesse ponto que falar sobre saúde mental precisa ir além das campanhas e das frases prontas: é necessário saber reconhecer uma necessidade de cuidado e conhecer os caminhos disponíveis para chegar até ele. Além disso, não é preciso saber exatamente o que está acontecendo para procurar ajuda.


Uma das ideias que mais atrasam a busca por atendimento é a necessidade de chegar a uma explicação antes de procurar um profissional. Por outro lado, a pessoa não precisa chegar ao consultório com um diagnóstico. A avaliação profissional existe justamente para ajudar a compreender o que está acontecendo. Uma mudança persistente no funcionamento habitual pode ser um motivo suficiente para conversar com alguém capacitado. Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável, nem que a pessoa deixe completamente de trabalhar, estudar ou conviver. “O que estou vivendo está começando a interferir na maneira como consigo viver?” Se a resposta for sim, procurar ajuda pode ser pertinente.


Para algumas pessoas, essa é a parte mais difícil. Não sabem como começar uma conversa com um psicólogo. Não conseguem organizar o que estão sentindo. Têm vergonha. Receiam ser julgadas ou consideram que seus problemas não são importantes o suficiente. Não é necessário preparar um discurso. É possível começar dizendo: “Eu não estou conseguindo entender exatamente o que está acontecendo, mas percebi que não estou bem.” Ou, então, “Não sei se preciso de tratamento, mas gostaria de conversar com alguém para entender o que está acontecendo.” Frases como essas já oferecem informações importantes para que um profissional possa iniciar uma avaliação. Às vezes, a primeira forma de cuidado é justamente não precisar encontrar sozinho as palavras certas para explicar aquilo que ainda está confuso.


Não existe uma única porta de entrada. O psicólogo pode ajudar a compreender o sofrimento, os pensamentos, emoções, comportamentos e relações envolvidos na situação, além de desenvolver estratégias para lidar com dificuldades e realizar psicoterapia quando indicada. O psiquiatra é o médico especializado em saúde mental. Sua atuação envolve avaliação clínica, diagnóstico e tratamento médico dos transtornos mentais, incluindo o uso de medicamentos quando necessário. O médico da atenção básica também pode ser um primeiro caminho. Em muitas situações, uma pessoa chega à unidade de saúde sem saber exatamente qual profissional precisa procurar. A avaliação inicial pode ajudar a identificar a necessidade e orientar o encaminhamento.


E existe uma informação importante: o acesso ao cuidado não está restrito ao atendimento particular. No SUS, a Unidade Básica de Saúde (UBS) pode ser uma porta de entrada. Dependendo da situação, podem existir encaminhamentos para serviços especializados da Rede de Atenção Psicossocial, incluindo os CAPS. Isso é particularmente importante porque muitas pessoas deixam de procurar ajuda por acreditarem que, sem condições financeiras para pagar uma consulta, não existe alternativa.


Claro que se existir algum risco de suicídio, uma tentativa recente, intenção de se machucar, um plano para tirar a própria vida, comportamento gravemente desorganizado ou outra situação em que a segurança da pessoa esteja comprometida, não é adequado simplesmente esperar pela próxima consulta. Nessas situações, é necessário procurar um serviço de urgência como UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acionar o SAMU pelo 192. Ademais, se alguém estiver em risco imediato, não deve ser deixado sozinho enquanto se busca ajuda.


O CVV – 188 também oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia. É um recurso importante para quem precisa conversar em um momento de sofrimento, mas é fundamental compreender que o serviço de escuta não substitui atendimento médico ou psicológico quando existe necessidade de avaliação ou tratamento.


Quando alguém próximo muda significativamente, muitas pessoas ficam com medo de perguntar sobre suicídio. Existe a ideia equivocada de que mencionar o assunto poderia induzir a pessoa a pensar nele. A evidência disponível não sustenta essa ideia. Uma pergunta direta, feita com cuidado e sem julgamento, pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre algo que talvez estivesse escondendo. Não é necessário transformar a conversa em um interrogatório. Pode ser: “Você tem pensado que não gostaria mais de estar aqui?” ou, então, “Em algum momento você pensou em se machucar ou em tirar a própria vida?”. Se a resposta for sim, o mais importante não é encontrar a frase perfeita. É levar a sério, permanecer próximo, reduzir o isolamento e buscar ajuda profissional, especialmente quando existe intenção ou risco imediato. Também não é necessário assumir sozinho a responsabilidade pela segurança de alguém. Familiares, amigos, profissionais de saúde e serviços de emergência podem precisar ser envolvidos.


Também existem grupos terapêuticos e de apoio, serviços comunitários, acompanhamento multiprofissional e diferentes modalidades de cuidado que podem fazer parte de um projeto terapêutico, dependendo das necessidades de cada pessoa. Nem todo sofrimento exige a mesma intervenção. E justamente por isso a avaliação é importante.


E talvez esse seja um dos pontos que mais precisamos incorporar às conversas sobre saúde mental: pedir ajuda não é uma etapa reservada para quem chegou ao limite. Pode ser uma maneira de evitar que o sofrimento precise chegar até lá. Se houver risco imediato de suicídio ou de uma pessoa se machucar, procure atendimento de emergência e não deixe a pessoa sozinha. Que o Setembro Amarelo seja uma oportunidade para falar sobre tudo isso.


Mas o cuidado em saúde mental não começa em setembro e tampouco termina quando o calendário muda.


Onde procurar:

Psicólogo: avaliação psicológica e psicoterapia, conforme a necessidade.

Psiquiatra: avaliação médica, diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais, incluindo medicamentos quando indicados.

UBS – Unidade Básica de Saúde: pode ser uma porta de entrada para o cuidado em saúde mental no SUS e orientar encaminhamentos.

CAPS – Centros de Atenção Psicossocial: serviços especializados da Rede de Atenção Psicossocial para diferentes situações de sofrimento e transtornos mentais.

UPA, pronto-socorro ou hospital: para situações que necessitam de atendimento de urgência.

SAMU – 192: atendimento de emergência, inclusive em situações de crise psiquiátrica e risco de suicídio.

CVV – 188: apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.

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