Seminário mostra futuro do vidro na construção e arquitetura

Encontro no CinexLab, em São Paulo, apresentou soluções para conforto térmico, luz natural e redução de carbono nas edificações

A escolha do vidro pode reduzir em 25 graus a temperatura de uma superfície exposta ao sol, diminuir o porte do sistema de ar-condicionado de um edifício e até liberar área útil para venda. Exemplos como esses pautaram o seminário O Futuro do Vidro: tecnologias que ampliam o desempenho e o conforto, promovido pelo Instituto Cini no CinexLab, em São Paulo. A programação colocou lado a lado a pesquisa acadêmica, a indústria e a experiência de quem desenvolve produtos para a arquitetura. O encontro ocorreu dia 6 de outubro.
Fundador e presidente do Instituto Cini, César Cini, destacou o propósito do encontro como parte do compromisso da instituição de ampliar o acesso a temas como sustentabilidade, educação, inovação e design na arquitetura e construção. “Muita tecnologia desenvolvida nos laboratórios das fabricantes de vidro fica restrita a eles e não chega a quem projeta e constrói. Queremos aproximar essas duas pontas, para que as novidades nascidas em laboratório se tornem realidade na arquitetura e nos produtos”, afirmou Cini.
A janela antes da conta de energia
Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desde 2010 e com três décadas de atuação em eficiência energética, o engenheiro civil Fernando Simon Westphal abriu o circuito com a palestra Muito além do vidro. Na pauta, retomou as funções básicas da janela, como ventilação, iluminação natural e contato com o exterior, e defendeu que a especificação comece por elas. “O consumo de energia é uma consequência. A necessidade primordial é a composição estética e o contato visual, e a partir daí a especificação vai sendo lapidada para atender ao conforto térmico e às metas de consumo”, afirma o pesquisador.
Para mostrar o efeito de um vidro de controle solar, Westphal apresentou um teste feito sob a cobertura envidraçada de sua própria casa. Ao sol do meio-dia, o piso do deck marcava 60 graus, enquanto a parte protegida pelo vidro ficava em 35. Em outro cálculo, feito para uma fachada oeste de São Paulo às 16h, uma pessoa sentada atrás de um vidro incolor tem sensação térmica de 39 graus mesmo com o ar-condicionado regulado em 24. Com um vidro de fator solar 0,4, essa sensação cai para 31 graus e, com fator solar 0,2, chega a 27.
O professor também desfez a ideia de que o vidro insulado serve apenas para o frio, ao comparar seu funcionamento ao de uma garrafa térmica, que conserva tanto o quente quanto o gelado. Na sequência, percorreu os vidros dinâmicos, que mudam de comportamento ao longo do dia. O LCD passa de transparente a opaco com um comando elétrico, enquanto o termotrópico fica esfumaçado à medida que aquece e, por deixar o sol entrar nos dias frios, tem boa adaptação ao clima brasileiro. Há ainda o termocrômico e o fotocrômico, que escurecem com o calor e a luz, e o eletrocrômico. Segundo Westphal, o ganho dessas tecnologias aparece mais no conforto, na privacidade e na qualidade dos ambientes.
Outro destaque apresentado foi o vidro a vácuo, que, com cerca de 6 milímetros de espessura, corta a transferência de calor para menos da metade do que se obtém com um insulado de alto desempenho, que pode chegar a 30 milímetros. Por isso, a solução é indicada para retrofit de prédios que não querem trocar as esquadrias. “Já existem muitas soluções no mercado brasileiro. O que precisamos é conhecê-las, especificar melhor e utilizar mais o vidro”, resume.
De vedação a equipamento da fachada
A visão da indústria veio com Vinicius Balani, gerente de Desenvolvimento de Produtos, Sustentabilidade e Product Compliance da Cebrace, na palestra Transparência sem fronteiras: a jornada do vidro e o seu papel no futuro das edificações. Ele refez a trajetória do material desde as primeiras janelas da Roma antiga, passando pelos espelhos do Palácio de Versalhes e pelo processo float, desenvolvido na virada dos anos 1950 para os 1960, que abriu caminho para as grandes fachadas envidraçadas. Na leitura do engenheiro, o vidro deixou de ser apenas um fechamento que permite a passagem da luz e se tornou um equipamento de desempenho, do qual se esperam segurança, isolamento acústico, eficiência, fidelidade de cor e grandes vãos.
A meta, explicou, é a seletividade, que significa deixar passar o máximo de luz com o mínimo de calor. Balani mostrou como os revestimentos evoluíram dos vidros coloridos aos filtros de titânio e de prata, até chegar às camadas duplas e triplas de prata, que reduzem a troca térmica sem transformar a fachada em espelho. Para os próximos anos, o gerente aposta em fachadas ativas, como os vidros eletrocrômicos que variam de 60% a 1% de transmissão luminosa ao longo do dia, nos insulados a vácuo e na neutralidade de carbono. Ele participou do desenvolvimento do vidro de baixo carbono da Cebrace, produzido com energia de origem rastreada, cerca de 35% de biometano no processo e no mínimo 70% de caco entre as matérias-primas, o que reduz pela metade o carbono incorporado do material. O limite, de acordo com Balani, está na oferta de caco, já que no Brasil a maior parte do vidro descartado ainda vai para aterros. “Isso é ouro que a gente está enterrando. Quem trabalha em obra não deve deixar o vidro virar resíduo”, alertou. E foi além: “O próximo salto da arquitetura não é utilizar mais vidro, mas utilizar o vidro correto”, disse.
Uma casa inteira em vidro a vácuo
César Cini trouxe o tema O vidro como grande expoente do conforto, mostrando, nesse contexto, a direção da Cinex para 2027. “A Cinex quer governar a luz, com foco em esquadrias de grandes painéis e em alternativas aos brises, que muitas vezes custam mais que a própria esquadria”, disse. Entre os lançamentos estão a esquadria minimalista Horizonte, com até 6 metros de altura e um sistema de deslizamento que combina trilho magnético e rodízio tradicional, capaz de mover folhas de até uma tonelada com pouco esforço, e o sistema de divisórias Luce.
Outra novidade apresentada foi a Casa Cini, sistema de moradia pré-fabricada desenvolvido ao longo de oito anos e que leva para a edificação inteira a precisão acumulada pela Cinex em mais de 25 anos de produção de sistemas de correr. Assinado pelos arquitetos Davide e Gabriele Adriano, do escritório italiano Adriano Design, que responde pela direção de arte da Cinex desde 2023, o projeto trata a casa como um produto industrial: a estrutura modular é de aço, os módulos saem prontos da fábrica e o prazo e o custo da obra ficam definidos antes do início da montagem.
O vidro ocupa o centro da proposta. As paredes de correr, derivadas das esquadrias da Cinex, vão do piso ao teto e podem ser recolhidas para unir o interior à área externa. Cama, closet, cozinha, espaço de estudo e painéis divisórios ficam reunidos em blocos que deslizam sobre trilhos magnéticos e reorganizam os ambientes conforme o uso de cada momento do dia. Ao concentrar as funções em uma área menor, a casa reduz o consumo de terreno, de materiais e de energia.
Sobre o Instituto Cini
Fundado no fim de 2024, em Bento Gonçalves, o Instituto Cini atua para que a construção civil adote práticas sustentáveis e faça uso consciente dos recursos da natureza, com a educação no centro de seu trabalho. Organizado nas áreas de educação, cultura e inovação, o instituto conecta profissionais brasileiros a referências do exterior, promove ações de formação e estimula o compartilhamento de conhecimento com foco no impacto social. Em novembro de 2025, levou a Bento Gonçalves a 1ª Imersão em Construção Sustentável, programação de quatro dias e 24 horas de aula que reuniu arquitetos, engenheiros, construtores, integrantes do poder público e da academia para discutir carbono, uso da água, geração de resíduos nas obras, certificações e desempenho energético das edificações.















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