“Todo filme é um filme de arquivo”, diz Lincoln Péricles
- temporacomunicacao

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“Entrevista com Fantasmas”, dirigido pelo cineasta, e “Viagem no Tempo”, de Pedro Bournoukian, transformam arquivos em cinema

Os arquivos não são apenas instrumentos de trabalho para os historiadores e arqueólogos. Para o cineasta Lincoln Péricles, que esteve em Porto Alegre para o 16° Cine Esquema Novo, “todo filme é um filme de arquivo”. Na programação do festival, ele apresentou “Entrevista com Fantasmas”, curta-metragem que utiliza imagens do já desativado Cine Teatro Carlos Gomes, em Rio Grande, para investigar os espectros que rondam o antigo cinema de rua.
Originalmente de Capão Redondo, comunidade do extremo sul de São Paulo, o curta-metragem é resultado de uma oficina que Péricles ministrou no IFRS de Rio Grande. “É de repente porque é a primeira vez que eu piso no território, mas antes disso eu já sei que tem uma cena pulsante de cinema”, comenta o realizador. Protagonizado pela gaúcha Lorena Zanetti, o filme mostra uma atriz de cinema que vive há 100 anos, mas que atualmente trabalha na loja de varejo onde existia o cinema.
“É um cotidiano, ainda tem uma ideia corriqueira, mas que tem uma fantasmagoria, então é um corriqueiro do que não tá à vista”, diz Lincoln. Com um cinema interessado em olhar para as filmagens da classe trabalhadora, o cineasta busca maneiras de reconstituir a memória das pessoas e lugares esquecidos pela história oficial. “Eu sinto que eu tenho muito a dizer, eu sinto que as pessoas que vêm da onde eu venho tem muito a dizer, mas que quando eu olho para o que é preservado da história desse país, a gente parece ser justamente um fantasma dentro daquilo”, diz ele.
Outro curta-metragem selecionado para o festival também trabalha de forma muito íntima com os arquivos. Em “Viagem no Tempo”, Pedro Bournoukian faz um filme que procura pela única imagem de seu pai em uma gravação caseira de um jogo de futebol. A exibição será nesta terça-feira, dia 30, às 17h, na Cinemateca Capitólio.
Apesar de uma abordagem extremamente vulnerável, as filmagens não são feitas por ele e nem mesmo contém a presença do pai do cineasta. A partir da lembrança de um vídeo perdido que fez quando criança, Pedro começou a baixar gravações de outras pessoas que estavam no mesmo jogo do Palmeiras.
“Eu só fui ter a sacada de que eu poderia usar uma imagem como aquelas que eu tinha visto, que eu tinha salvo no meu computador, de outra pessoa, quando eu fui ver um filme do Lincoln Péricles”, lembra Pedro.
Para descrever o desenvolvimento do filme, o realizador o compara ao processo de terapia. “O filme não fica pronto do dia para noite, né? Então você fica revendo e revendo e revendo aquilo”, analisa ele.
Pedro destaca que a qualidade caseira das filmagens contribui para evidenciar a qualidade de espontaneidade que elas possuem enquanto recordação pessoal. “Ela é toda defeituosa no sentido técnico e ao mesmo tempo existe um pedido ali que é impossível. A IA nunca seria capaz de reproduzir, mesmo com a imagem mais perfeita possível, o sentimento que existe naquela imagem imperfeita”, completa.
Todas as imagens possuem rastros de arquivo. Como ressalta Lincoln Péricles, “quando eu gravo algo novo, eu tô gerando um arquivo novo nesse mundo”.












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