A Anatomia do Trono Vazio e a Estolidez dos Felizes
- temporacomunicacao

- há 2 dias
- 3 min de leitura
COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Vejo os titãs. Homens e mulheres de mandíbula rígida, espáduas erguidas, que marcham com o passos firmes, como quem domesticou o destino. Eles vendem o sucesso em parcelas na internet, vestem a farda do pragmatismo e nos olham de cima, do alto de suas conquistas sardanapalescas. São admiráveis, diriam os incautos. "Saiam da zona de conforto", dizem eles. Quisera eu estar na zona de conforto. De verdade. Nunca estive lá. E eu até gostaria. Quem não quer ficar confortável? Quem nesta vida agridoce está confortável?
Trago comigo o vício crônico da observação e uma incômoda inclinação para a melancolia, prefiro olhar as frestas. Prefiro o avesso do tecido. Se você esticar o ouvido para além do ruído da celebração, ouvirá o ranger metálico de uma tragédia.
A verdade, meu caro leitor, é que a armadura que o mundo teme é o sarcófago de um homem que, ao trair seus laços por poder, descobriu que o trono do domínio absoluto é feito apenas com as cinzas de quem ele costumava ser.
Fomos educados sob o signo da urgência e do projeto. É preciso construir, edificar, acumular. Falam-nos de lealdade e de amor verdadeiro como se fossem ativos financeiros a serem cultivados para colheita futura.
Bobagem.
Ingenuidade lírica.
O que se vê na dinâmica das relações humanas é a clepsidra do tempo correndo impiedosa, enquanto o indivíduo aguarda, numa poltrona roída pela traça, por uma recompensa que nunca vem.
A procrastinação da felicidade em nome de uma quimera. Procratinação quando a felicidade é alcançãvel, óbvio. Muitas vezes nos resta apenas imaginar e sonhar. E o Universo é implacavelmente indiferente.
Se a modernidade repete que querer é poder, a lucidez nos sussurra o oposto, mostrando que não querer é poder, pois o ápice da soberania existencial não é a conquista do mundo, mas a absoluta indiferença por ele, sendo a renúncia dos desejos o único escudo verdadeiramente impenetrável contra a frustração.
Há uma sabedoria oculta na estultícia. Sejamos honestos, buscar a renúncia dos sonhos ou render-se à condição de um idiota vazio é, hoje, uma vantagem adaptativa inestimável.
O idiota utilitário, desprovido de densidade existencial, caminha leve. Ele não tateia o abismo porque sua mente não concebe a profundidade. Os sem-sonhos não sofrem de insônia, não experimentam a ressaca moral da decepção, simplesmente porque nunca se embriagaram com a esperança.
A apatia é o anestésico dos medíocres, e que inveja dá, às vezes, desses anestesiados que atravessam a vida sem um único arranhão na alma. E ainda recebem bênçãos, que, é claro, eles não dão valor.
Porcos e diamantes.
Nós, por outro lado, que insistimos em carregar o fardo dos afetos, pagamos o pedágio em lágrimas. Construímos palácios de lealdade em terrenos de areia movediça e nos espantamos quando a estrutura desaba sobre nossas cabeças.
Mas resta uma questão, implacável. Vamos vai mesmo aceitar a paz asséptica dos cemitérios? Vamos nos contentar com a segurança covarde de ser um vaso vazio, apenas para evitar a dor da quebra?
Olhe para dentro agora.
Se a armadura do poder é um sarcófago e a apatia dos idiotas é um deserto, a única saída digna é a transcendência pela loucura mais bela que a humanidade já pariu.
E que se danem os realistas de plantão. Que se exploda o pragmatismo cinzento que transforma homens em máquinas de moer sonhos.
Erga o queixo, ajuste os arreios do seu cavalo manco e avance contra os moinhos da realidade, pois, no fim das contas, é infinitamente mais glorioso ser derrotado pela imensidão do sonho impossível do que triunfar na mediocridade de uma vida sem batalhas.
Que a nossa loucura seja o nosso estandarte, pois pior que a dor do tombo é a vergonha de nunca ter ousado desafiar os gigantes que habitam o nosso próprio medo.












Comentários