Como é o seu(a) psicólogo(a) fora do contexto da clínica?
- temporacomunicacao

- há 3 dias
- 3 min de leitura
COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI

Existe uma ideia silenciosa, mas muito presente socialmente, de que o psicólogo deveria ocupar uma espécie de lugar emocionalmente superior, “o ser iluminado”. Como se, ao escolher essa profissão, automaticamente passasse a se tornar alguém permanentemente equilibrado, paciente, racional e emocionalmente resolvido. A imagem idealizada do terapeuta costuma vir acompanhada de expectativas bastante categoricas: precisa falar baixo, ser calmo o tempo todo, nunca perder a paciência, saber lidar perfeitamente com qualquer conflito, não demonstrar fragilidade e, principalmente, ter respostas para tudo, inclusive para a própria vida.
Mas existe um equívoco profundo e perigosamente idealizado nessa construção. O psicólogo também sente medo, também se angustia, também enfrenta lutos, inseguranças, frustrações, conflitos familiares, términos, cansaço emocional e períodos difíceis. O psicólogo existe enquanto um ser humano atravessado pelas mesmas dores que atravessam qualquer outra pessoa. A formação, a técnica e o conhecimento não colocam ninguém em um lugar de imunidade emocional. Logo, estudar o sofrimento humano não significa deixar de vivê-lo.
Talvez uma das maiores confusões sobre a profissão esteja justamente na ideia de que compreender algo tecnicamente deveria ser suficiente para impedir que aquilo nos afete. Como se conhecimento emocional funcionasse como uma proteção absoluta contra a experiência de sentir. Mas sentir não pertence à ordem da técnica. Sentir pertence à condição humana. E ninguém está isento dela.
Claro que a psicologia oferece recursos importantes: amplia a consciência, ajuda na elaboração dos próprios processos, favorece reconhecimento emocional e construção de caminhos mais saudáveis. Mas isso é muito diferente da ideia de que o psicólogo consegue “resolver” a própria vida de maneira simples, linear ou sem sofrimento. Não existe um manual interno (nem externo) capaz de impedir que a dor aconteça. Existe apenas alguém que, apesar do conhecimento, continua sendo humano.
E talvez seja justamente isso que, muitas vezes, causa estranhamento: perceber que o terapeuta não corresponde à caricatura construída socialmente. Porque ainda existe uma expectativa muito forte de perfeição emocional sobre profissionais da saúde mental.
Quando um psicólogo demonstra cansaço, tristeza, irritação ou vulnerabilidade, frequentemente isso é interpretado quase como uma contradição da própria profissão, ou como se o profissional fosse menos competente por isso ou, então, como se cuidar da saúde mental dos outros exigisse abandonar a própria identidade.
Mas saúde emocional nunca significou ausência de sofrimento. Maturidade emocional não é viver em estado permanente de calma. E equilíbrio psíquico não é nunca se abalar. A verdadeira diferença talvez esteja não em “não sentir”, mas na forma como cada um consegue reconhecer, elaborar e responsabilizar-se pelo que sente.
O psicólogo não ocupa um lugar acima da experiência humana. Ocupa, no máximo, um lugar de estudo e aprofundamento sobre ela. O lugar da técnica. E talvez seja exatamente esse contato real com as próprias limitações, dores e complexidades que permita uma escuta mais sensível e menos mecânica do outro. Não porque precise sofrer para compreender alguém, mas porque também conhece, em alguma medida, os atravessamentos de existir.
Romper com a idealização do terapeuta é importante não apenas para humanizar quem cuida, mas também para ampliar a compreensão sobre o que realmente significa saúde mental. Porque ninguém se torna menos competente por sentir. Ninguém deixa de ser bom profissional por também enfrentar dias difíceis. E talvez uma das imagens mais honestas sobre o psicólogo seja justamente esta: não a de alguém emocionalmente impecável, mas a de alguém que, mesmo sendo atravessado pela vida como qualquer outra pessoa, escolheu estudar formas mais conscientes de compreender, acolher e trabalhar com aquilo que é inevitavelmente humano.












Comentários