top of page

A Equação de Drake

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


DIEGO FRANZEN é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
DIEGO FRANZEN é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

A gente acorda, olha no espelho, se ajeita. E, em nossa vã magnitude, enxergamos o topo da cadeia, ignorando solenemente que somos apenas um acidente químico em um rochedo úmido perdido no vácuo.


Que bobagem.


O universo está pouco se lixando para o seu boleto vencido, para a sua dor de corno ou para essa sua pretensão de ser o ápice da biologia. Schopenhauer já cantava a pedra: o egoísmo é o motor que nos faz querer devorar o mundo, enquanto o egocentrismo é a ilusão patética de que o mundo, em sua indiferença geológica, resolveu parar o que estava fazendo só para nos observar de volta. É de uma arrogância que beira o cômico.


Essa pretensão humana de ser o centro de qualquer coisa, desde o olhar de uma divindade até o interesse dos astros, ganha contornos de piada de mau gosto quando confrontada com a Equação de Drake.


Formulada em 1961, essa sentença matemática não foi arquitetada para nos dar a esperança pueril de encontrar vizinhos estelares para um convescote intergaláctico ou um congresso de fraternidade. Foi feita para quantificar com precisão cirúrgica o tamanho exato da nossa irrelevância.


É o cálculo estatístico do deserto absoluto e do silêncio eterno que nos aguarda enquanto brincamos de ser importantes. A conta é uma sequência de filtros cruéis, cada um deles uma porta fechada na cara da nossa vaidade. Começamos com estrelas, passamos por planetas e caímos na fração onde a biologia decide transformar lama em células. O funil aperta e o niilismo aqui não é um sentimento poético para adolescentes melancólicos, é um resultado aritmético onde cada variável é um golpe de misericórdia na nossa esperança.


Agora, não me entenda mal, não sou um desses niilistas de boteco que não acreditam em nada. Eu acredito em Deus. Mas não nesse sujeito de barba branca que os homens criaram à sua imagem e semelhança para ter a quem pedir favor ou atribuir a culpa das próprias burrices.


O meu Deus é o Grande Arquiteto do Universo, e Ele não é uma pessoa, Ele é a Força. É o que sentimos quando o amor se manifesta, quando pegamos um filho no colo e sentimos o peso do mundo e a leveza da eternidade ao mesmo tempo.


Mas veja bem, o Arquiteto fez a planta e levantou as paredes, mas quem cuida da manutenção somos nós. Não espere um dedo metafísico descendo das nuvens para resolver sua vida ou correr atrás das suas felicidades. O universo é implacavelmente indiferente aos seus desejos, mas não existe barreira que trave um sonhador que resolveu caminhar com as próprias pernas.


E sobre estarmos sozinhos? Ora, o cosmos é grande demais para ser só esse nosso condomínio mal administrado. Tem gente lá fora, sim. Mas tire o cavalinho da chuva porque não vai baixar nenhum Ashtar Sheran iluminado, com túnica branca e voz de locutor de rádio FM, para nos salvar de nós mesmos.


Se um dia houver contato, a história já nos deu o roteiro e ele não é nada romântico. Pense nos europeus chegando nas Américas. Nós somos os índios da vez, munidos de tacapes tecnológicos diante de caravelas espaciais. O contato não será um abraço, será um choque de realidade onde a nossa vaidade será a primeira vítima.


Civilizações tendem a se autodestruir pelo peso do próprio ego e o céu está em silêncio porque a inteligência talvez seja apenas um erro evolutivo breve, um lampejo de arrogância antes do esquecimento total.


Enquanto a gente briga por fronteiras imaginárias, acumula tesouros efêmeros e se mata por pedaços de chão que não passam de grãos de poeira, a matemática segue seu curso multiplicando zeros.


O silêncio das estrelas não é um mistério para telescópios caros, é o veredito final sobre a nossa soberba. Somos o ruído de fundo de um cálculo que nunca fecha, uma nota de rodapé ilegível em um livro que o tempo se encarregará de apagar.


No teatro galáctico, não somos sequer figurantes com fala. Somos apenas pó que pensa, mas que esquece com uma insistência admirável que ainda é, fundamentalmente, apenas pó.


A Equação de Drake é o nosso epitáfio escrito em linguagem universal, um zero bem redondo no final de uma soma de vaidades que nunca teve a menor chance de resultar em algo significativo.


Comentários


Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

  • Facebook
  • Whatsapp
  • Instagram
Pauta Serrana 26.png

Rua Cândido Costa 65, sala 406 - Palazzo del Lavoro

Bento Gonçalves/RS - Brasil

bottom of page