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A ruptura inevitável dos sonhos juvenis

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    temporacomunicacao
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Diego Franzen é jornalista, escritor autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

O mundo é mal educado. Não dá bom dia, não pergunta se pode e ainda pisa na gente enquanto reclamamos do atraso da chegada das bênçãos. Ele adora esmagar expectativas, ri dos sonhos juvenis e tem um prazer quase pedagógico em ensinar, à força, que a vida não é esse folheto bonito que a gente imaginou. Vai te empurrar, te diminuir, te colocar no canto e explicar com ar superior que isso se chama amadurecer.


Só esquece de um detalhe importante. Por mais eficiente que seja em cansar, o mundo é péssimo em destruir. Ele não consegue matar quem insiste em sonhar, nem desinstalar a esperança de quem aprendeu a apanhar sem virar cínico.


Fiz 45 anos na última sexta-feira. Quarenta e cinco. Teoricamente, um senhor de meia idade. O que é curioso, porque quando eu era adolescente, meia idade parecia um lugar distante, quase mitológico. A idade dos coroas. Eu me imaginava aos 30 com tudo resolvido. Aos 40, então, nem se fala,, eu seria um monumento de conquistas, segurança e certezas.


A vida riu disso.


Hoje, aos 45, vejo com uma honestidade que às vezes dói que não realizei boa parte dos meus sonhos. A maioria deles. E sabe o que é pior? Eu continuo sonhando. Sou desses. Um peripatético quixotesco, desses que andam, pensam, tropeçam, levantam e seguem acreditando que ainda dá. Que ainda pode. Que ainda vale.


Às vezes me acho um cara difícil. E provavelmente sou. Não tenho paciência com burrice, extremismo, fanatismo, machismo, preconceitos e, principalmente, com quem se orgulha de ser tudo isso. Há gente que ostenta ignorância como medalha. Eu não consigo aplaudir.


Mas também sei que essa mistura meio improvável me torna singular. O gênio de um capricorniano teimoso, desses que fincam o pé no chão como quem diz daqui não saio e não desisto até conseguir. Um ascendente em câncer que me faz sentir demais, proteger demais, guardar demais. E uma lua em gêmeos que não me deixa em paz. Uma lua inquieta, falante, que pensa enquanto escreve e escreve enquanto pensa. Que transforma silêncio em texto e emoção em ironia. É ela que me salva e me denuncia.


Gosto de rock. De metal melódico. De letras que não subestimam a inteligência de quem escuta. Gosto de música que dói bonito. Amo artes marciais, sua disciplina, sua ética, seu respeito silencioso. Aprendi ali que força sem controle é só barulho e que honra não se anuncia, se pratica.


Com o tempo, fui entendendo que há códigos invisíveis que moldam um homem. Um senso quase ancestral de lealdade, palavra empenhada, coragem diante do medo e responsabilidade sobre os próprios atos.


Algo que não se aprende em discursos, mas em escolhas difíceis.


Cair de pé.


Proteger os seus.


Não atacar pelas costas.


Saber quando lutar e, principalmente, quando não lutar.


Viver como quem carrega uma espada simbólica ou uma lâmina invisível na consciência. Não para ferir, mas para lembrar que caráter exige vigilância constante.


E acima de tudo quero deixar um legado. Não está nas grandes coisas, descobri tarde, mas ainda a tempo. Está nos filhos, nas memórias que eles vão carregar quando lembrarem de mim. Está nas pessoas que amei e que, espero, se sentiram amadas. Fui acolhido e acolhi. Fui protegido e protegi. Isso importa mais do que qualquer currículo.


Comigo, aliás, as coisas são simples. Claras. Diretas.

Não = não

Sim = sim

Talvez = não existe

De repente = não vou

Pra hoje = pra ontem

Pra amanhã = pra hoje

Daqui a pouco = agora, antes que eu perca a paciência

9:01 = 9:01

12:00 = 12:00

14:00 = 14:00

16:03 = 16:03

18:57 = 18:57

Atraso é intolerável.


Não gosto = não gosto mesmo, não insiste.

Educados = tratados com educação e respeito.

Mal educados = tratados com frieza cirúrgica e desprezo.

Amado = amor em dobro, proteção vitalícia.

“Oraaa, não precisava” = precisava sim e muito.

“Quero só um pouquinho” = pode servir como se eu não comesse há dias.

“Vou tomar só uma” = pode separar o fardo.

“Estou bem, não foi nada, sou forte” = quero atenção, carinho e um colo, mas não vou pedir.

“Fiz nada além da minha obrigação” = me elogia, eu suei pra ficar perfeito.

“Me sinto mal com elogios” = continua, insiste, exagere, me idolatre, faça um discurso.

“Capaz, nem lembro mais” = superei… mas anotei em pedra e na alma.

“Nem tô esquentando a cabeça” = estou analisando tudo em silêncio.

Ficar no vácuo = desinteresse registrado, respeito retirado e resposta nunca mais igual.

“Não era assunto sério” = sente-se, fique atento, começou a aula.

“Sou importante pra caramba” = pra mim todo mundo é igual até provar o contrário.


Chegar aos 45 é entender que valores não envelhecem. Honra não sai de moda. Coragem não é ausência de medo, é seguir apesar dele. Lutar pelos sonhos, amar de verdade, se frustrar, insistir, falhar e até chorar de vez em quando não é caminho para covardes. É estrada de gente viva.


Covarde é quem desiste de sentir. Covarde é quem vira pedra para não sofrer. Eu prefiro seguir sendo esse sujeito meio difícil, meio sensível, meio teimoso, meio sonhador.


Porque no fim, quando tudo passar, que reste isso.


Verdade.


Presença.


E a certeza de que, mesmo sem cumprir todos os sonhos, eu não traí nenhum valor.


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