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EU SOU UM MAGO

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    temporacomunicacao
  • 2 de mar.
  • 4 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

Tiozões de meia idade costumam ser criaturas facilmente identificáveis na natureza. Estão nos bares falando de investimentos que nunca fizeram, nas academias descobrindo músculos que ignoraram por décadas, nas redes sociais opinando com convicção sobre assuntos que mal compreendem. Alguns compram motos grandes demais para as próprias articulações. Outros deixam a barba crescer como se pelos faciais resolvessem dilemas existenciais. Há os que redescobrem o rock clássico, passam a chamar vinil de experiência sensorial e começam frases com “na minha época”. É um ritual coletivo de negação do tempo.


Eu também cheguei lá. Estou com 45. Sempre imaginei como me sentiria nessa idade. Me sinto nostálgico. Bobo. Inteligente. Belo. Não atraente, mas belo. Vou entediar meus amigos com uma crise de meia idade falando só disso? Não! Eu escolhi outro caminho.


Em vez de negar o mundo, resolvi encará-lo com certo sarcasmo metafísico. Em vez de fingir juventude, decidi assumir estranheza. Autodeclaro-me MAGO. Não por delírio místico nem por cosplay tardio, mas porque algumas palavras precisam ser ditas antes que apodreçam dentro da gente.


Sou rock n roll. E provavelmente serei um velho em cima de uma moto, ouvindo clássicos do heavy metal, acreditando que Iron Maiden ainda explica melhor a condição humana do que muita literatura de aeroporto.


Se eu chegar lá. Porque um mago não teme a morte. Ele a respeita. Sabe que ela não é inimiga, mas passagem. Um portal inevitável. O fim de um ciclo e o começo de outro que ainda não entendemos.


Sempre me fascinei pela magia. A que exige estudo, silêncio e disposição para perder conforto. Gandalf apareceu cedo, ensinando que a pressa é uma forma sofisticada de ignorância. Dumbledore veio depois, com aquele sorriso perigoso de quem sabe que poder sem ética é apenas vaidade com diploma. Doutor Estranho mostrou que nem todo conhecimento cura e que algumas cirurgias são feitas no tempo, não no corpo. E então surgiu John Constantine. O mais estiloso e original dos personagens. O que mais parece a gente. Azedo, sarcástico, de moral duvidosa. Talvez, por isso, meu favorito. O mago cansado. O homem que salva o mundo pagando com a própria alma, sempre um pouco mais gasta do que ontem.


Como seria fácil a vida se bastasse um encantamento. Uma palavra, um gesto preciso. Um círculo traçado no chão da sala. Resolver dores, afastar medos, convocar presenças, silenciar ausências.


Mas a magia nunca foi sobre facilidade. Gandalf não chega cedo. Chega quando deve. Dumbledore nunca ensina tudo. Doutor Estranho aprende que controlar o tempo não impede a perda. Constantine sabe que toda escolha cobra um preço emocional alto demais para os fracos.


A tradição mágica é um estudo da interioridade. A Cabala é cartografia da alma. A Árvore da Vida não promete milagres, propõe travessias. Cada sefirá revela uma virtude e denuncia uma sombra. A teurgia não busca dobrar deuses, mas alinhar o humano ao divino. O tarô não prevê destinos, revela estruturas invisíveis, mostra o que já está em movimento quando fingimos não ver. A magia enochiana exige disciplina quase monástica, porque não há revelação sem preparo.


E há a astrologia. Sim, eu sei ler mapas. E não, isso não significa prever o futuro como quem lê bula de remédio. O mapa astral revela inclinações, não sentenças. Os astros inclinam, jamais determinam. Dentro de uma semente de laranja vive um laranjal inteiro, mas isso não garante colheita. É preciso tempo, cuidado, sol, água e coragem para crescer.


Potencial não é promessa. É responsabilidade.


Com o tempo, entendi que a magia mais poderosa não está nos grimórios. Está na comunicação. Na palavra dita no instante exato. No silêncio respeitado quando qualquer frase seria agressão. Comunicar é alquimia. É transmutar matéria bruta em algo respirável. Transformar medo em confiança. Angústia em acolhimento. Dureza em possibilidade.


Todo mago de verdade sabe que não controla pessoas. Ele influencia atmosferas. Ele altera campos emocionais. Ele cria condições. A decisão final nunca é dele. Porque magia não é imposição. É convite. E convite só funciona quando alguém se permite. Se permitir sentir. Se permitir confiar. Se permitir atravessar o próprio orgulho como quem atravessa um deserto acreditando que do outro lado existe água.


Ser mago é assumir responsabilidade pelo que se emana.


É entender que cada palavra cria mundos e cada gesto pode abrir ou fechar portais.


É aceitar que não se salva ninguém à força.


Mas também é saber que existem homens que não fogem do fogo. Que estudam. Que erram. Que pagam o preço. Que não prometem facilidade, apenas verdade.


Talvez seja crise de meia idade. Ou talvez seja apenas a coragem tardia de dizer em voz alta o que sempre soube em silêncio. Eu sou um mago. Não porque faço encantamentos, mas porque escolhi transmutar o que me atravessa. Porque sigo acreditando que sentir é um risco necessário. E porque ainda espero que alguém, ao ler isso, se permita. Não a mim. À própria magia de estar vivo.

2 comentários


Augusto Rodrigues Junior
Augusto Rodrigues Junior
há 3 dias

Tua coluna deve ser lida por pessoas de todas idades! Gratidão ao universo, a ti por ter escrito e a um grande amigo por ter compartilhado. Acabo de me tornar um mago!

Editado
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Decimar Biagini
Decimar Biagini
há 3 dias

– Lave, limpe e corte a lebre em pedaços, e depois

a leve ao fogo numa panela com água e o vinho tinto.

Sal à vontade. E a salsa, o cravo, a noz-moscada. Faça

um refogado com azeite, sal, cebola e pimenta-do-reino, mais vinagre e água. Quando o refogado estiver

pronto, junte-o com a lebre, que já deve estar cozida,

misture bem, deixe mais um pouco no fogo e depois

sirva.


Esta receita é do livro Neto Perde Sua Alma, das maiores magias que vi em literatura, uma lebre que não sai da cartola mas alegra acampamentos trazendo a alegria de compartilhar vivências com os amigos... A verdadeira magia é permitir que a velhice mesmo difícil e dolorida traga amigos…

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