O trauma muda a previsão do tempo
- temporacomunicacao

- 25 de jun.
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COLUNA DE FRANCIELE SASSI

Tenho ouvido muito, nos últimos dias, sobre a chegada do El Niño, sobre a previsão de chuvas intensas e sobre a possibilidade de novos eventos climáticos extremos. E percebo que, para muitos gaúchos, essas notícias não são apenas informações meteorológicas. Elas despertam algo muito mais profundo: a memória.
Depois das enchentes que marcaram o Rio Grande do Sul nos últimos anos, a chuva deixou de ser apenas chuva. Ela mudou de identidade. Aquilo que antes podia representar aconchego, descanso ou até fertilidade para a terra, hoje, para muitas pessoas, passou a ser associado ao medo, à perda e à incerteza. Basta o céu escurecer, a previsão indicar dias seguidos de chuva ou o volume dos rios começar a subir para que o corpo entre em estado de alerta.
Quando vivenciamos uma situação potencialmente traumática, nosso cérebro aprende a identificar sinais que possam indicar perigo. É um mecanismo de proteção extremamente importante para a sobrevivência. O problema é que, muitas vezes, esse sistema permanece ativado mesmo quando não existe um risco concreto. Assim, a previsão do tempo deixa de ser apenas uma informação e passa a funcionar como um gatilho emocional.
Algumas pessoas dormem pior quando chove. Outras acompanham compulsivamente os aplicativos de clima, monitoram o nível dos rios, organizam documentos importantes ou têm dificuldade para relaxar enquanto a chuva não passa. Não significa, necessariamente, que estejam desenvolvendo um transtorno psicológico. Em muitos casos, trata-se de uma resposta esperada diante de uma experiência coletiva extremamente marcante. Afinal, o trauma modifica a forma como interpretamos o mundo. Depois de uma experiência dessa magnitude, o cérebro passa a perguntar constantemente: "Será que vai acontecer de novo?"
Ao mesmo tempo, existe um movimento muito importante acontecendo na sociedade.
Diferentemente do passado, hoje vemos municípios investindo em planos de contingência, sistemas de alerta, monitoramento meteorológico, protocolos de evacuação, treinamento das equipes de emergência e fortalecimento da Defesa Civil. Também cresce a preocupação com obras de contenção, mapeamento de áreas de risco e educação da população para situações de desastre. Essas ações não eliminam completamente o medo, mas ajudam a transformar a sensação de impotência em preparação. E há uma diferença enorme entre viver em estado permanente de ameaça e saber que existem recursos, planejamento e pessoas trabalhando para reduzir riscos.
Talvez este seja um dos maiores desafios emocionais do pós-desastre: encontrar um equilíbrio entre lembrar e seguir vivendo. É claro que ignorar os riscos não é prudente. Mas viver todos os dias como se a próxima tragédia fosse inevitável também cobra um preço alto para a saúde mental. O medo tem uma função importante quando nos prepara. Ele deixa de ser saudável quando nos impede de viver.
O El Niño pode, de fato, aumentar a probabilidade de períodos de chuva acima da média. Isso exige atenção, planejamento e acompanhamento das orientações dos órgãos oficiais. Mas também exige cuidado com aquilo que acontece dentro de nós. Afinal, depois de tudo o que foi vivido, não é apenas o clima que mudou. Muitas pessoas também mudaram. E talvez a reconstrução mais difícil não seja apenas a das cidades, das estradas ou das casas.
Talvez seja a reconstrução da confiança de que, um dia, será possível ouvir a chuva cair sem que ela desperte imediatamente o medo de perder tudo outra vez.












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