top of page

O clima lá fora e o tempo aqui dentro

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

COLUNA DE FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Existe uma razão pela qual tantas pessoas dizem sentir que "o tempo mudou por dentro" quando o céu permanece cinzento por dias seguidos. Essa percepção não é apenas uma impressão. A Psicologia e a Neurociência mostram que nosso humor é influenciado por uma combinação de fatores biológicos, emocionais, sociais e ambientais. O clima não determina como nos sentimos, mas pode exercer uma influência significativa sobre a forma como vivenciamos o dia a dia.


Nas cidades da serra, onde o inverno costuma trazer frio intenso, chuva persistente e neblina, é comum perceber uma mudança no ritmo da vida. As ruas ficam mais vazias, as pessoas saem menos de casa, os encontros diminuem e a rotina se torna mais lenta. Sem perceber, também nos expomos menos à luz natural, movimentamos menos o corpo e reduzimos o contato com experiências que costumam favorecer o bem-estar. Nosso cérebro é sensível a essas mudanças.


A luz solar participa da regulação do relógio biológico, responsável por organizar ciclos de sono, vigília, energia e diversas funções do organismo. Ela também influencia a produção e o equilíbrio de neurotransmissores envolvidos na sensação de bem-estar, na motivação e na disposição. Quando passamos muitos dias com pouca luminosidade, é comum surgirem maior sonolência, cansaço, dificuldade de concentração, redução da energia e um humor mais melancólico. Para a maioria das pessoas, essas alterações são leves e passageiras. Mas, para quem possui alguma vulnerabilidade emocional, elas podem intensificar sintomas de ansiedade ou depressão.


Em alguns países de clima mais rigoroso, existe inclusive uma condição conhecida como depressão sazonal, em que a diminuição da luz natural está diretamente relacionada ao aparecimento de sintomas depressivos durante determinadas épocas do ano. Mas claro que reduzir essa influência apenas à biologia seria simplificar demais a experiência humana. Nós não vivemos apenas o clima; nós o interpretamos. O ambiente conversa com nossa subjetividade. Dias frios, silenciosos e chuvosos favorecem naturalmente a introspecção. O recolhimento pode ser acolhedor, mas também pode abrir espaço para que preocupações, saudades e pensamentos difíceis ocupem mais espaço na mente. É como se o silêncio do lado de fora amplificasse os ruídos que carregamos por dentro.


Em contrapartida, quando o sol aparece, algo muda não apenas na paisagem, mas também na forma como nos relacionamos com ela. A luz convida ao movimento. As pessoas caminham mais, encontram amigos, permanecem ao ar livre, respiram novos ares e se expõem a estímulos que favorecem emoções positivas. O calor desperta uma sensação de vitalidade, e a claridade amplia nossa percepção do ambiente. Curiosamente, até pequenos acontecimentos costumam ser interpretados de maneira mais otimista quando estamos física e emocionalmente mais dispostos.


Isso não significa que um dia ensolarado resolva problemas ou cure o sofrimento psíquico. Também não significa que toda tristeza seja consequência do frio. Há pessoas que encontram paz na chuva, inspiração nos dias nublados e conforto no inverno. Afinal, cada indivíduo constrói uma relação única com o ambiente. Clima e emoção caminham juntos em uma relação de influência, e não de causa única. O tempo lá fora pode favorecer determinados estados internos, mas ele não define quem somos nem determina como iremos atravessar nossas experiências.


Talvez por isso seja tão importante compreender que, durante os meses mais frios e escuros, precisamos cuidar intencionalmente da nossa saúde emocional. Manter uma rotina, buscar momentos de exposição à luz natural sempre que possível, movimentar o corpo, preservar os vínculos afetivos e continuar realizando atividades que trazem significado são formas de lembrar ao cérebro e a nós mesmos que a vida continua acontecendo, mesmo quando o céu parece suspenso em tons de cinza. Existe uma beleza própria no inverno. Ele convida ao descanso, ao silêncio e à introspecção. O problema surge quando permanecemos tempo demais nesse lugar, esperando que a luz volte sozinha.


Enquanto isso, o sol desperta aquilo que, muitas vezes, estava apenas adormecido dentro de nós: a esperança, a energia para recomeçar e a lembrança de que nenhum inverno é permanente. Assim como as estações da natureza, nossa vida emocional também é feita de ciclos. E, por mais longo que pareça o frio, sempre haverá um momento em que a luz encontrará novamente um caminho para entrar. E isso tudo nem é só sobre clima e tempo, afinal.


Comentários


Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

  • Facebook
  • Whatsapp
  • Instagram
Pauta sem fundo.png

Rua Cândido Costa 65, sala 406 - Palazzo del Lavoro

Bento Gonçalves/RS - Brasil

bottom of page