A intimidade começa onde a idealização termina
- temporacomunicacao

- há 2 dias
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COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI

Existe um instante silencioso em toda relação afetiva que raramente recebe atenção. Não é o primeiro encontro, nem a paixão avassaladora, tampouco o primeiro conflito. É um momento muito mais discreto: quando o outro deixa de ser uma ideia e passa a ser uma pessoa. E é nesse ponto que muitos relacionamentos terminam.
Não porque o amor tenha desaparecido, mas porque a fantasia perde espaço para a realidade. Aquele homem ou aquela mulher que antes ocupava um lugar quase imaginário passa, inevitavelmente, a revelar seus limites, suas contradições, seus medos e suas incoerências. E isso não representa o fracasso da relação. Representa, na verdade, o seu início. Talvez muitos não deem essa chance de chegar aí para redescobrir o seu par. Afinal, a intimidade verdadeira só começa quando a idealização termina.
Entretanto, vivemos em uma cultura que nos prepara muito mais para escolher do que para permanecer. Aprendemos a comparar, selecionar, descartar e substituir. Tornamo-nos especialistas em identificar incompatibilidades antes mesmo de desenvolvermos a capacidade de compreender as complexidades humanas que existem por trás delas. A lógica da eficiência, que organiza grande parte da vida contemporânea, parece ter atravessado também os relacionamentos. Espera-se que os vínculos sejam intuitivos, leves, espontâneos e continuamente gratificantes. Quando exigem negociação, adaptação ou frustração, muitas vezes, acabam sendo interpretados como um erro de escolha.
As relações humanas não amadurecem apesar das diferenças. Elas amadurecem através delas. Essa talvez seja uma das maiores dificuldades da atualidade: tolerar a desorganização inevitável produzida pela proximidade emocional. Conviver profundamente com alguém significa abandonar a ilusão de controle. Significa descobrir que o outro não responderá sempre da maneira esperada, não compreenderá todas as nossas necessidades e, inevitavelmente, tocará aspectos da nossa história que preferiríamos manter adormecidos. É justamente por isso que relacionamentos íntimos possuem um enorme potencial transformador. Eles não apenas oferecem afeto; eles revelam quem somos quando deixamos de ocupar uma posição confortável diante do outro.
A Teoria do Apego descreve que vínculos seguros não eliminam a insegurança humana. O que eles fazem é oferecer uma base suficientemente estável para que essa insegurança possa existir sem colocar constantemente a relação em risco. Logo, segurança emocional não significa viver sem conflitos. Significa que o vínculo suporta os conflitos. É saber que desacordos não precisam culminar em abandono, que divergências não anulam o afeto e que a presença do outro permanece relativamente previsível, mesmo quando ambos atravessam momentos difíceis.
Curiosamente, muitas pessoas dizem desejar estabilidade, mas desenvolveram sensibilidade muito maior aos sinais de frustração do que aos sinais de segurança. Notam imediatamente quando o outro demora a responder uma mensagem, mas têm dificuldade em perceber sua constância ao longo dos meses. Percebem pequenas falhas de comunicação, mas deixam passar despercebidos os inúmeros gestos cotidianos de cuidado. Talvez porque o cérebro humano tenha sido moldado para identificar ameaças antes de reconhecer estabilidade.
O problema é que, quando essa tendência encontra histórias marcadas por perdas, rejeições ou vínculos inconsistentes, qualquer imperfeição pode ser interpretada como prenúncio do fim. Nem sempre estamos reagindo ao presente. Frequentemente, estamos reagindo ao significado que atribuímos ao presente. E, talvez, seja por isso que tantas relações se rompam não diante de grandes acontecimentos, mas diante de pequenas decepções que adquirem proporções incompatíveis com aquilo que realmente aconteceu.
O desafio não está apenas em encontrar alguém emocionalmente disponível. Está em desenvolver recursos psíquicos para sustentar a existência de uma pessoa real. Uma pessoa que, em alguns dias, será sensível e, em outros, estará exausta. Que acertará muitas vezes e falhará em outras. Que carregará marcas anteriores ao relacionamento e continuará sendo atravessada por elas mesmo depois que o amor surgir.
Há uma diferença importante entre reconhecer incompatibilidades fundamentais e esperar que o outro jamais provoque desconforto. A primeira atitude protege a saúde emocional. A segunda inviabiliza qualquer intimidade. Nenhum vínculo suficientemente profundo preserva intacta a imagem que construímos sobre quem amamos. Ao contrário, amar implica permitir que essa imagem seja continuamente revisada. Talvez exista tanta dificuldade em construir relações duradouras porque fomos educados a interpretar a desidealização como decepção, quando ela é apenas uma consequência inevitável da proximidade.
Não existe intimidade sem perda. Perde-se a fantasia para encontrar a pessoa. Perde-se a certeza para construir confiança. Perde-se a ilusão de controle para descobrir a possibilidade da reciprocidade. O amor adulto talvez não seja aquele que encontra alguém extraordinário, mas aquele que suporta, com curiosidade e responsabilidade, o lento processo de conhecer alguém para além daquilo que imaginou. Porque é somente quando duas pessoas deixam de amar a projeção uma da outra que o relacionamento, enfim, tem a oportunidade de existir.












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