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Há traições num relacionamento que traduzem outro tipo de infidelidade

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    temporacomunicacao
  • há 17 horas
  • 5 min de leitura

COLUNA DE FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Quando se fala em traição, quase sempre a primeira imagem é a de uma terceira pessoa: um encontro escondido, uma relação sexual, uma conversa comprometedora, uma descoberta no celular. Culturalmente, aprendemos a reconhecer a infidelidade principalmente quando o corpo atravessa os limites da relação. Mas existem formas de deslealdade que começam muito antes disso — e algumas nem mesmo envolvem outra relação amorosa. É possível não ter um amante e, ainda assim, deixar de ser parceiro.


Uma relação não é sustentada apenas pela promessa de não se envolver sexualmente com outras pessoas. Ela também se sustenta pela experiência cotidiana de poder confiar que aquele que está ao nosso lado protegerá o vínculo mesmo quando não estamos presentes. É o sentimento de segurança e de que a relação está ‘garantida’ ainda que não se possa ver ou estar perto em determinado momento.


Isso significa compreender que fidelidade também tem relação com aquilo que fazemos com a vulnerabilidade do outro. Quando alguém nos conta seus medos, suas inseguranças, dificuldades familiares, fragilidades, questões sexuais ou acontecimentos íntimos da relação, existe ali uma espécie de confiança depositada. Nem sempre ela é verbalizada: ninguém precisa dizer explicitamente “não conte isso para ninguém”. Algumas informações chegam até nós acompanhadas de uma expectativa básica de cuidado. Por isso, expor detalhes da intimidade do parceiro para amigos, familiares ou outras pessoas sem que ele saiba pode representar uma ruptura importante de confiança.


Buscar apoio é diferente de transformar a intimidade do casal em assunto público. É possível precisar conversar com alguém, pedir orientação ou dividir uma angústia. O problema começa quando o outro passa a ser exposto, ridicularizado ou discutido em ambientes dos quais não participa e sobre os quais não possui nenhum controle. Há uma diferença importante entre falar sobre aquilo que eu sinto dentro da relação e contar aquilo que pertence à intimidade do outro. Fidelidade também aparece na maneira como uma pessoa se posiciona diante do parceiro quando ele não está na sala.


Aquele que preserva a relação não participa de conversas que humilham o companheiro para obter aprovação social, não utiliza suas fragilidades como entretenimento e não cria alianças com terceiros contra ele toda vez que existe um conflito. Em muitos relacionamentos, o problema não está em existir outra pessoa. Está em perceber que todo mundo conhece uma versão da relação que o próprio parceiro desconhece.


Mas existem traições ainda mais silenciosas. Uma delas acontece quando alguém permanece dentro da relação, porém deixa progressivamente de estar nela. Continua dividindo a casa, a rotina, os compromissos e talvez até a cama, mas emocionalmente passa a viver de maneira cada vez mais independente do vínculo. Não compartilha decisões, não pergunta, não demonstra curiosidade genuína pelo mundo do outro, não se disponibiliza quando ele precisa, evita conversas difíceis e deixa para o companheiro a responsabilidade de manter sozinho aquilo que deveria ser construído por dois.


Ali, não houve necessariamente infidelidade sexual. Mas houve abandono relacional. É aquela experiência difícil de explicar: “Você está aqui, mas há muito tempo eu estou sozinho dentro deste relacionamento.” E talvez essa seja uma das formas mais dolorosas de ruptura porque não existe um acontecimento específico para apontar. Existe um acúmulo. Pequenas ausências. Pequenas omissões. Pequenas desistências. A pessoa não traiu com alguém. Traiu, pouco a pouco, os compromissos que sustentavam o “nós”.


Relacionamentos seguros exigem uma determinada forma de presença. Não significa estar disponível o tempo inteiro, abrir mão da individualidade ou transformar o parceiro na única fonte de apoio emocional. Segurança não é fusão. Segurança é previsibilidade. É saber que, diante de uma dificuldade importante, aquela pessoa provavelmente estará ao seu lado. É poder dizer algo vulnerável sem precisar imaginar onde essa informação aparecerá depois. É conseguir discordar sem temer humilhação ou se sentir rejeitado. É perceber que os interesses individuais continuam existindo, mas que algumas decisões passam pelo reconhecimento de que existe outra pessoa implicada nelas e que a troca é essencial para o exercício da intimidade.


Trata-se de conseguir descansar dentro do vínculo. E talvez seja justamente aí que a fidelidade adquira um significado mais interessante. Ser fiel não é apenas recusar outras possibilidades amorosas ou sexuais. É também agir levando em consideração a existência do relacionamento quando o parceiro não está olhando. É não tomar decisões importantes como se fosse solteiro e apenas comunicar depois. É não construir uma intimidade emocional paralela escondida enquanto afirma que “nunca aconteceu nada”. É não utilizar o silêncio como forma permanente de evitar responsabilidade. É não permitir que o outro carregue sozinho os filhos, a casa, os problemas, os planos ou a manutenção emocional da relação enquanto se desfruta apenas da parte confortável do vínculo. É não desaparecer emocionalmente todas as vezes que o relacionamento exige esforço.


Porque estar em uma relação implica, inevitavelmente, algum grau de responsabilidade

sobre aquilo que construímos com outra pessoa. Isso também ajuda a entender por que determinados comportamentos provocam tanta dor mesmo quando tecnicamente “não houve traição”. Uma pessoa pode descobrir que seu parceiro manteve conversas muito íntimas com alguém e ouvir: “Mas eu nunca fiquei com ela”. Pode perceber que assuntos particulares foram contados para amigos e ouvir: “Mas eu só precisava desabafar”. Pode passar meses tentando conversar enquanto o outro evita qualquer aprofundamento e ouvir: “Mas eu nunca fiz nada contra você”. Talvez o problema esteja justamente nessa ideia de que, para ferir profundamente um relacionamento, seja necessário fazer alguma coisa muito evidente.


Muitas relações não se rompem por um grande acontecimento. Elas vão perdendo segurança por pequenas experiências repetidas de indisponibilidade, segredo, negligência, falta de consideração e quebra de confiança. A segurança afetiva é construída justamente no sentido contrário. Ela nasce quando existe coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. Quando o parceiro demonstra que pode ser procurado nos momentos importantes. Quando há espaço para falar sobre necessidades, desconfortos e limites. Quando ambos conseguem reconhecer erros e reparar danos sem transformar toda conversa difícil em ameaça de rompimento. E, principalmente, quando existe reciprocidade.


Relacionamentos não precisam funcionar com uma matemática perfeita de cinquenta por cento para cada lado todos os dias. Há momentos em que um oferece mais porque o outro está fragilizado. Depois os lugares podem se inverter. O problema surge quando essa assimetria deixa de ser circunstancial e se transforma na estrutura do relacionamento: um pergunta, o outro responde; um procura, o outro aceita; um planeja, o outro acompanha; um tenta resolver conflitos, o outro espera que passem; um protege o vínculo, enquanto o outro simplesmente permanece nele.


Estar ao lado de alguém não é necessariamente estar comprometido com alguém. E talvez seja justamente por isso que precisamos ampliar aquilo que entendemos por fidelidade. Há fidelidade no corpo, certamente. Mas também existe fidelidade na palavra. Na forma como se fala do outro quando ele não está presente. Na maneira como protegemos aquilo que ele nos contou. Na disposição para conversar antes de desistir. Na capacidade de considerar o impacto das nossas decisões. Na responsabilidade de não manter alguém acreditando que existe uma parceria que, na prática, já abandonamos. E na escolha cotidiana de continuar construindo um lugar onde os dois possam se sentir emocionalmente seguros. Porque, no final, talvez a pergunta mais importante de uma relação não seja apenas: “Você seria capaz de me trair com outra pessoa?”. Talvez seja: “Aquilo que é vulnerável em mim está seguro nas suas mãos?”.


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