GIGANTISMO NO NADA
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Sou um místico cético. Busco sempre não me embriagar com fênomenos, creio no invisível e não me iludo com falácias. Tenho uma fé gigante e ao mesmo tempo e, paradoxalmente, flerto com o niilismo. Eu mesmo já deixei de tentar me entender. Apenas busco valorizar e vivenciar aquilo que faz meu coração vibrar. Apesar das consequências.
A vida insiste em me lembrar que não passamos de um pózinho cósmico flutuando em uma rocha irrelevante. Que a Terra é apenas um botão perto de Netuno e que cem anos não passam de um piscar de olhos no relógio do cosmos. É um exercício delicioso de modéstia espacial que serve para desinflar qualquer ego desmedido. Não somos o centro do Universo e se a humanidade inteira fosse extinta hoje, o Universo não sentiria a menor falta. Mas isso torna nossa existência irrelevante? Afinal, diante da vastidão galáctica, as nossas angústias cotidianas parecem o drama de uma formiga em uma floresta. É engraçado aceitar a própria fatuidade cósmica e rir da própria irrelevância. E eu dou risada.
Mas existe uma Força que transcende. Que vai além do que é cognoscível. Afinal, o cognoscível chega ao cognoscente de acordo com a capacidade do cognoscente. A alma humana possui uma teimosia atroz que se recusa a ser reduzida a uma mera estatística estelar. Quando o universo inteiro sussurra que somos minúsculos e que a existência é um fardo fútil, a nossa vontade interna dá de ombros e decide marchar na direção oposta. Talvez esteja aí o sentido.
Os caminhos desconhecidos habitam o interior da nossa mente e não precisamos de nada além da própria vontade para avançar. Fechar os olhos diante do vazio é flertar com a ataraxia covarde de quem prefere a estagnação. O mundo insiste em repetir seus erros, mas a estrada pertence àqueles que ousam caminhar sem pedir licença às estrelas.
Um sábio do passado dizia "Os astros movem o homem, o sábio move os astros". Seu nome era Francis Barret. Viveu nos séculos XVIII e XIX. Mas retomamos o foco, não estou aqui pra falar dele.
Essa ânsia moderna de justificar o fracasso através da escala universal esbarra na ilusão de que o sucesso nasce de um passe de mágica ou de um dom celestial instantâneo.
A realidade exige suor e calos. Talento é um sacerdócio e não um superpoder. Exige vigília, disciplina monástica e uma paixão irredutível pela excelência. Quem busca atalhos fáceis na arte ou na vida acaba caindo em uma aporia intelectual intransponível.
Eu vejo uma vaidade colossal naqueles que proclamam a própria pequenez apenas para justificar a inércia. Toda vez que alguém afirma o que é, mostra o que não é. Quem passa o tempo todo anunciando aos ventos que é apenas um grão impotente de poeira está na verdade confessando uma profunda incapacidade de erguer o próprio destino. É um disfarce retórico requintado para a preguiça de construir alguma relevância real. Justifica a apatia e culpa um enorme dedo metafísico pela sua incompetência. Às vezes eu sou sim. Quem nunca?
Mas vamos adiante nessa reflexão. Para dar a luz, é preciso uma gravidez. Se não há o que nascer, não nasce. E para nascer, é preciso uma potência criadora. Um filosofo alemão chamado Jacob Boehme trazia uma ideia maravilhosa de que a gravidez não tem lugar no Espelho, mas na Vontade, isto é, na imaginação da Vontade. O espelho permanece eternamente como uma virgem sem parto, mas a Vontade se engravida por meio da contemplação do espelho, assim que a vontade é o Pai, e a gravidez no Pai ou na Vontade é o Senhor ou o Filho.
O reflexo devolve apenas a imagem estática do que já está pronto enquanto a vontade cria o que ainda não possui nome. Portanto que as galáxias continuem proclamando o nosso tamanho microscópico nos manuais de física. A existência humana não se mede em quilômetros quadrados de espaço sideral mas na força indomável de quem decide transformar o próprio pó em um monumento de dignidade.
Já citei aqui mais de uma vez o adágio "se queres empregar bem a vida, pensa na morte". Eu penso. Mas também tenho pensado na vida. Porque o Universo inteiro pode caber numa casca de noz. Quando a poeira cósmica finalmente assenta e nos deparamos com a nossa irrelevância espacial, o único reduto capaz de desafiar o vácuo é o amor.
O amor verdadeiro nunca foi essa balela melosa de cartão postal, mas uma epifania violenta da vontade. É a decisão soberana de que um único ser humano possui mais gravidade do que todas as galáxias juntas. Que o amor pleno de um anula o ódio de milhões.
Procurar sentido na existência através de cálculos astronômicos é um desperdício de tempo intelectual, pois o verdadeiro sentido não habita no cosmos frio, mas na trincheira íntima do afeto. Quando alguém nos olha nos olhos e decide fincar raiz no meio do caos, o universo inteiro perde a pompa da sua indiferença. Afinal, a vida só ganha contorno e densidade quando escolhemos amar, transformando o nosso breve e frágil sopro de pó em uma obra de arte indestrutível.












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