O Legado de Pais e Filhos
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- há 3 dias
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

O destino é proporcional às afinidades.
E dentro disso, repetimos padrões comportamentais que nos elevam e nos destroem. Sempre. E muitas vezes isso está relacionado com nossa carga familiar.
Minha mãe partiu em dezembro e, desde então, a biologia faz questão de me lembrar dela diariamente. Dias atrás, sentado no sofá, ri sozinho que vi minhas mãos mexendo nos joelhos exatamente como ela fazia. Herdei a inquietação motora da mãe. A mania de colocar o coração em tudo e de sonhar alto demais. Do pai, herdei a mania de intelectualizar o mundo. E um pouco da rabujice.
Puxei eles, embora eu ainda prefira acreditar na minha própria soberania.
Mas convenhamos, padrões se repetem. É sempre uma herança que se manifesta de formas que desafiam a lógica. Certa feita, um amigo meu de infância fez um jantar para amigos, onde minha filha de dezenove anos estava presente entre os convidados.
Eu não estava lá. Mas estava.
Segundo me disse o Adalberto, em determinado momento, Sofia começou a falar sobre portais dimensionais e física quântica. ELe teve que me mandar mensagem dizendo que ela parecia eu. Não só fisicamente.
O curioso é que ela não convive comigo o tempo todo. A semelhança estava lá, pronta, como um software rodando em segundo plano, independente do tempo de exposição.
Meu filho mais novo, o Nicholas, me faz perguntas complexas todos os dias. Das bandeira e continente, história das Copas à cosmologia e buracos negros. Como é bom poder responder a maioria desses questionamentos!
A maioria, não todos. Lembro de um dia que ele me soltou a pergunta: "quando isso aconteceu, eu já tinha nascido ou eu ainda era uma energia?"
Fiquei mudo.
Ali estava uma criança inquirindo sobre sua pré-existência. E isso me leva a uma constatação dolorosa sobre a repetição. Carregamos os padrões dos nossos pais como uma bênção e, paradoxalmente, também, uma maldição genética. Como eu disse acima, minha mãe era coração. Não conseguia ficar parada ante uma injustiça. Perdoava fácil. Amava muito. Meu pai sempre tinha um conselho sabio, era uma enciclopedia ambulante. Mas não herdamos só o que é bom. Muitas vezes, me pego reproduzindo as mesmas inseguranças, os mesmos traumas e as mesmas reações desproporcionais que recebi na infância. E, antes de qualquer coisa, deixo claro que minha infãncia foi muito legal.
Em nossos pais projetamos Deuses. E não sou apenas eu. Todos são assim.
É a tragédia do ser humano.
A gente tenta ser diferente, tenta construir uma identidade nova, mas o espectro dos nossos progenitores habita nosso sistema operacional. Repetimos as dores que não curamos e tentamos, inutilmente, consertar o passado através dos filhos, projetando neles o que queríamos ter sido ou o que tememos ser.
Essa percepção do Nicholas me remete imediatamente à máxima hermética de que o que está embaixo é como o que está em cima. A criança, em sua intuição, acessa verdades que a nossa razão, muitas vezes enrijecida pelo trauma, insiste em ignorar. Vemos aqui a manifestação do microcosmo refletindo o macrocosmo.
A paternidade, vista sob a ótica iniciática, deixa de ser apenas uma tarefa biológica e transforma-se no Grande Trabalho alquímico. Cada gesto de educação, cada tentativa de quebrar o ciclo de repetição, é um esforço para transmutar o chumbo dos traumas familiares no ouro do espírito desperto. Romper paradigmas. Mudar a sociedade trazendo pessoas descentes a ela, não apenas extensões de nossas inseguranças e ansiedades!
A vida é o laboratório onde a alma se purifica através do serviço e da responsabilidade, lidando com a energia que nos atravessa desde antes do nascimento.
Nesse caminho, alegoricamente, eu diria que a rosa, um arquétipo da alma humana, deve florescer sobre a cruz, que representa o corpo e o sofrimento deste plano material. Ser pai é aceitar carregar essa cruz com dignidade, cultivando a rosa do entendimento em meio às dores inevitáveis da existência.
Não é um percurso de facilidades, mas uma via iniciática onde a criança não é um objeto a ser moldado, mas um ser em constante transmutação, espelhando nossa própria luz e sombra.
O aprendizado é recíproco e a sabedoria floresce quando entendemos que nossa prole faz parte de um ciclo eterno de retorno e aprimoramento, onde cada erro nosso é uma oportunidade de despertar para eles.
Enquanto isso, as redes sociais pululam de especialistas sem filhos dando aula de educação das crianças em casa, ensinando a nadar sem nunca ter entrado na água. Pregando o ensino doméstico como se a escola não fosse o terreno necessário para o atrito social.
Como dizia Sócrates, a vida não examinada não vale a pena, e o colégio é justamente o lugar onde se aprende a lidar com o diferente, saindo da redoma artificial que esses gurus tentam vender para pais desesperados. A escola não serve para formar autômatos, mas para colocar o indivíduo em contato com o contraditório, com a humanidade crua que nos obriga a sair de nós mesmos.
Sempre sonhei em ser pai e espero que um dia meus filhos se orgulhem de mim, assim com me orgulho dos meus pais. A paternidade é um exercício de narrativa, uma Jornada do Herói sem roteiro prévio onde o objetivo não é o final feliz, mas a capacidade de sobreviver ao próprio ego e entregar ao mundo um ser que talvez, quem sabe, consiga ser menos refém dos padrões que nós não conseguimos romper.
Seguimos a música do Legião Urbana, Pais e Filhos, cujo título emprestei pra essa coluna. Não como um clichê, mas como um imperativo prático. "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã."
E, de fato, o amanhã é uma abstração estatística que pode falhar a qualquer instante. O coração pesa pelo que deixamos de dizer ou demonstrar, e ensinamos através da nossa própria falha, da nossa imperfeição exposta.
Somos os transmissores de um código genético e comportamental que vai seguir mexendo os joelhos e divagando sobre física quântica muito depois de a gente virar poeira. A vida segue, operando seus paradoxos, e a gente continua aqui, tentando encontrar sentido nesse roteiro.
Sabe, eu sonhei muito com a vida que tenho hoje. Rezei por uma profissão, por filhos, por ser uma boa pessoa. Eu falho. Mas sigo. E não posso mais me queixar. Até porque já dizia Lacan que a vida é uma eterna angústia do querer e do tédio de possuir. É hora de dar valor ao que realmente importa.
Porque no fim, todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano. E o espetáculo se torna apenas uma memória.












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