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Luto e bioética: quando cuidar também significa respeitar escolhas

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temporacomunicacao
há 1 hora
3 min de leitura

COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana


Falar sobre luto também é falar sobre escolhas, limites, direitos e responsabilidades. Embora muitas vezes associemos o luto apenas ao período posterior à morte, algumas das experiências mais complexas do enlutamento começam muito antes dela, especialmente quando uma pessoa enfrenta uma doença grave, uma condição ameaçadora da vida ou uma situação em que já não consegue decidir autonomamente sobre os próprios cuidados. É nesse território que a bioética se torna fundamental. Ela nos ajuda a pensar não apenas sobre o que pode ser feito, mas sobre o que deve ser feito, considerando a dignidade, os valores, os desejos e a singularidade de cada pessoa.


Um dos princípios centrais é a autonomia. O paciente tem o direito de receber informações compreensíveis sobre sua condição, prognóstico, possibilidades terapêuticas, riscos e benefícios para poder participar das decisões que dizem respeito à própria vida. Isso significa reconhecer que o paciente não é apenas alguém sobre quem uma equipe decide: ele é sujeito de direitos e, sempre que tiver capacidade para isso, deve ocupar lugar ativo nas decisões sobre seu cuidado.


A legislação brasileira atualmente reforça direitos como consentimento informado, recusa de procedimentos, segunda opinião, acesso às informações de saúde e respeito às diretivas antecipadas de vontade. Mas o que acontece quando o paciente já não consegue manifestar sua vontade?


É nesse momento que frequentemente surgem conflitos entre aquilo que a família deseja, aquilo que a equipe considera clinicamente adequado e aquilo que o próprio paciente teria escolhido. A família pode acreditar que está protegendo alguém ao insistir em determinado tratamento, enquanto a equipe pode compreender que determinadas intervenções apenas prolongariam sofrimento. Também pode acontecer de familiares projetarem seus próprios medos, crenças e dificuldades de despedida sobre as decisões relacionadas ao paciente. Por isso, decidir pelo outro não deveria significar simplesmente decidir aquilo que nós gostaríamos que ele escolhesse.


Quando a pessoa não consegue mais expressar sua vontade, as diretivas antecipadas e o planejamento antecipado de cuidados podem assumir um papel importante. Eles permitem que valores, preferências e limites sejam conhecidos previamente, reduzindo a possibilidade de que familiares precisem interpretar, em meio ao sofrimento, aquilo que a pessoa teria desejado. A política brasileira de cuidados paliativos também reconhece a importância desse planejamento e da tomada de decisão compartilhada.


Isso não significa retirar a família do processo. Ao contrário: familiares também precisam ser acolhidos, informados e escutados. Entretanto, o sofrimento da família não deve apagar a autonomia possível do paciente.


A bioética também trabalha com princípios como beneficência, não maleficência e justiça. Na prática, isso significa buscar aquilo que efetivamente possa beneficiar o paciente, evitar intervenções que produzam danos ou sofrimento desproporcional e garantir um cuidado justo e digno. Em situações de terminalidade, por exemplo, cuidar não significa necessariamente fazer tudo o que a tecnologia permite. Pode significar controlar a dor, aliviar sintomas, preservar a dignidade, respeitar valores pessoais e permitir que a pessoa viva seus últimos momentos de acordo com aquilo que considera importante.

Essa compreensão modifica também a maneira como pensamos o luto. Quando uma família participa de decisões difíceis durante uma doença, pode experimentar sentimentos ambivalentes: culpa, dúvida, raiva, esperança, alívio e medo.


Depois da morte, essas emoções podem permanecer associadas às escolhas realizadas. “Será que fizemos tudo o que podíamos?”, “Será que deveríamos ter insistido?”, “Será que autorizamos sofrimento demais?” são perguntas que podem acompanhar o enlutado por muito tempo.

Por isso, uma boa assistência não termina quando a decisão é tomada, nem quando ocorre a morte. Comunicação clara, participação adequada da família, respeito à autonomia e acompanhamento do sofrimento podem contribuir para que as decisões sejam compreendidas dentro de seu contexto, diminuindo a sensação posterior de abandono ou de culpa. A própria política nacional de cuidados paliativos prevê atenção à pessoa e também aos familiares e cuidadores, incluindo assistência no processo de luto.


Talvez uma das questões mais difíceis da bioética seja justamente compreender que amar alguém não nos dá o direito de escolher por essa pessoa aquilo que ela não escolheria para si. Em determinadas situações, cuidar pode significar tratar. Em outras, pode significar aliviar. Pode significar permanecer, escutar, respeitar um “não”, permitir uma despedida ou simplesmente garantir que ninguém precise atravessar a experiência da morte sem dignidade.


E, quando a morte acontece, o luto começa também a reorganizar a história dessas escolhas. Por isso, discutir bioética é, em última instância, discutir uma forma de cuidado que reconhece que a vida tem limites e que respeitar alguém também significa respeitar a maneira como essa pessoa deseja ser cuidada diante deles.


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