As Eclusas da Esperança
- temporacomunicacao

- 13 de jun.
- 3 min de leitura
COLUNA DE DECIMAR BIAGINI

Há semanas que passam correndo como um contra-ataque. Outras se desenrolam como uma partida estudada, de posse de bola paciente, onde cada passe parece preparar algo maior que ainda não se vê. Há dias que pare ocorrer tudo errado e estamos no caminho contrário, contra o fluxo, como o volante paraguaio Bobadilla, que atuou como centroavante dos EUA na abertura do largo placar de 4x1. Por sorte ele não era colombiano, na mesma terrinha do Tio San, em 1994 triste sina a do zagueiro colombiano Escobar.
Esta foi uma dessas semanas. Tem vezes que você opta em ficar nos bastidores, tipo o Tom Cruise, mas sempre surge uma demanda, alguém acaba te reconhecendo pelo passado, mesmo já não tendo aquele desafio empolgante para um novo filme, é como esperar e entender que agora os palcos são outros. As pressões, na maturidade, de forma célere, surgem como um chefe interior implacável, você senta e relaxa, quando vê, já passou o mês e a coluna que escrevia semanalmente está atrasada naquele jornal de um amigo de ensino médio.
Entre os jogos da Copa do Mundo de Clubes, as contas que chegam sem pedir licença, os compromissos da advocacia, as idas e vindas da escola, os afazeres domésticos e as preocupações que visitam qualquer cidadão comum, encontrei um curioso campo de observação da alma humana.
Levei minha filha Valentina para suas atividades. Abri pacotes de figurinhas ao lado de meu filho adolescente Arthur, cujos momentos juntos hoje são tão raros como copa do mundo, observando aquele brilho antigo que o futebol ainda consegue despertar nos olhos da juventude mandei alguns áudios imitando a Fênix Ronaldo Nazario com a música "Sou Ronaldo", que rendeu reconexão com familiares que andavam sumidos dentro da minha agenda consciencial. Celebrei o Dia dos Namorados com Fernanda, companheira de caminhada, enquanto o mundo seguia acelerado em suas cobranças, boletos e urgências, aqui dedico à ela toda minha gratidão e amor pela paciência com este poeta cheio de distrações, muita teoria e pouca prática.
No meio dessa rotina aparentemente comum, os jogos iam acontecendo.
Assistia aos clubes entrarem em campo representando cidades, países, idiomas e culturas distintas. Percebia que, por trás dos escudos e uniformes, existia algo maior que o sumiço das minhas figurinhas na época do colégio num bafo desiquilibrado em que surgia o termo "alevantis", dos menos abastados que eram mais rápidos que a visão do marqueteiro do Neymar. O futebol, em seus melhores momentos, não une apenas torcidas; une narrativas humanas e histórias lindas de superação e esperança. Cada atleta carrega consigo uma infância, uma família, um bairro, uma nação e uma esperança.
Pensei então na necessidade que temos de ídolos.
Não para adorá-los, mas para recordar capacidades que também habitam em nós: disciplina, persistência, coragem, espírito de equipe e superação.
Enquanto isso, aproxima-se o horário da casa espírita.
As crianças participariam de atividades inspiradas na Copa do Mundo. Eu faria alguns passes, ouvirei palestra que swmpre parece encaixar como quem abre o livrinho minutos de sabedoria, reflexões no estudo e dividirei mais uma tarde de aprendizado ao lado de Fernanda.
Foi então que uma imagem surgiu silenciosamente em minha consciência.
Lembrei-me das eclusas do Canal do Panamá.
O navio que deseja atravessar não vence a diferença de nível pela força. Não acelera os motores. Não rompe barreiras.
Ele espera.
As comportas se fecham.
A água começa a subir.
Pouco a pouco, sem alarde, a embarcação é elevada.
Talvez a vida espiritual funcione da mesma forma.
Muitas vezes desejamos que os problemas desapareçam imediatamente. Queremos atravessar oceanos interiores com a velocidade das redes sociais e a impaciência dos relógios. Entretanto, a existência parece obedecer a outra pedagogia.
Primeiro vem a paciência.
Depois o trabalho.
Em seguida a confiança.
E então a esperança começa a encher as eclusas da alma.
Uma conversa afetuosa.
Uma criança sorrindo.
Uma figurinha rara encontrada no pacote.
Um passe aplicado com sinceridade.
Uma oração discreta.
Um gol comemorado sem rivalidade.
Um estudo edificante.
Uma pequena vitória sobre si mesmo.
Gota por gota, a água sobe.
E quando percebemos, já não estamos no mesmo nível de antes.
Os jogos terminam.
Os campeões passam.
As tabelas mudam.
Mas permanece a lição invisível.
Nenhum ser humano vence sozinho.
Nem nos gramados.
Nem nos lares.
Nem na jornada espiritual.
Ao final, compreendo que a verdadeira copa do mundo acontece diariamente dentro de cada consciência. Nela competem o desânimo e a esperança, a pressa e a serenidade, o egoísmo e a cooperação.
E vence quem aprende a confiar no lento trabalho das eclusas interiores, permitindo que a água da esperança o eleve até margens mais altas de compreensão, fraternidade e paz.
Em suma, a música parece estar certa:
Somos Ronaldo...!!!! Um fenômeno que insiste em não desistir...
Decimar da Silveira Biagini












Nada é por acaso: talvez o atraso tenha sido necessário para aplicares os paradigmas certos em tua coluna. Parabéns, primorosa como de costume e a prova de que usas o exercício da linguagem para o bem! Ficou a lição de que as vezes temos que aguardar as eclusas da vida!