Bento Gonçalves, a cidade que vive Santo Antônio
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- 10 de jun. de 2025
- 6 min de leitura
Por Diego Franzen | Pauta Serrana

Sexta-feira, 13 de junho. Dia de Santo Antônio, padroeiro de Bento Gonçalves. A cidade celebra com festa, missas e procissões, feriado municipal desde que o povo resolveu dar a ele esse status especial. Mas, antes que você pense que Santo Antônio é só aquele santo das simpatias para casamento e dos pedidos “para achar coisa perdida”, vale desconstruir esse mito.
Porque Santo Antônio não nasceu para ser só o santo casamenteiro — embora tenha ganhado essa fama, sobretudo no Brasil. Ele foi um homem, uma figura real, com uma vida marcada por um compromisso radical, uma saga que ultrapassou os séculos e os continentes até chegar aqui, no meio do Vale dos Vinhedos, entre uma taça de vinho e uma missa campal.
A saga do padroeiro

Era um 15 de agosto abafado em Lisboa, ano de 1195. Um garoto nasce, filho único, em berço nobre, cercado por tudo o que o dinheiro podia comprar — Martinho de Bulhões, o pai, era oficial do exército de Dom Afonso. A mãe, Tereza Taveira, cuidava para que nada faltasse ao pequeno Fernando. Isso mesmo: Fernando Antônio de Bulhões. Você o conhece por outro nome. Mas ainda não chegamos lá.
Fernando cresce entre os muros da catedral de Lisboa, educado por cônegos — sim, aqueles religiosos que liam latim antes de aprender a andar direito. Ele era introspectivo, estudioso, um tanto estranho talvez para os padrões da família. O pai, claro, queria ver o menino com espada na mão. Fernando, não. Escolheu a oração. Aos 19 anos, contrariando o sangue e o sobrenome, trocou a casa nobre pelo mosteiro dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. Escolheu os livros, e mergulhou neles como quem mergulha no mar.
Dois anos depois, foi transferido para Coimbra, o coração intelectual de Portugal. Ali ficou uma década, sendo moldado, lentamente, em silêncio. Foi ordenado sacerdote. E então, falou. E quando falou, não houve quem não ouvisse. Era como se cada palavra saísse de sua boca com vida própria. Ele tinha o raro dom da eloquência. Aquilo não era oratória — era feitiçaria da fé.
Mas a história não estava satisfeita ainda. E Fernando também não.
Foi em Coimbra que conheceu os franciscanos. Pobres, simples, radicais. Eles viviam o Evangelho com os pés descalços e o coração em brasa. Fernando olhou para eles e viu o que queria ser. Trocou o nome, a ordem e o destino: tornou-se Frei Antônio, franciscano. Despediu-se do conforto e foi morar no Mosteiro de São Francisco de Assis.
Não tardou a pedir missão em terras infiéis. Queria ir para o Marrocos, pregar o Evangelho aos muçulmanos. Mas Deus, como sempre, tinha outros planos. Antônio adoeceu gravemente. Teve de voltar. Só que o navio desviou — uma tempestade o jogou na Sicília, onde mais de 5 mil franciscanos estavam reunidos no Capítulo das Esteiras. Foi ali que ele conheceu, enfim, o próprio São Francisco. Não era coincidência. Era providência.
Depois do encontro, Frei Antônio se recolheu. Viveu 15 meses como eremita no Monte Paolo. Um tempo de silêncio, de aprofundamento. Mas quem brilha não se esconde para sempre. São Francisco, que não era tolo, enxergou nele algo que nem ele sabia possuir por inteiro. Chamou-o de “meu bispo” e deu-lhe a responsabilidade de formar teologicamente os irmãos franciscanos.
Roma logo o conheceu. O Papa Gregório IX ficou encantado. Chamou-o de “Arca do Testamento”, uma Bíblia viva. E assim nasceu o maior pregador de seu tempo. Multidões de 30 mil pessoas se reuniam para ouvi-lo. Cegos voltavam a ver. Coxos, a andar. Pobres, a sorrir. Sua fama se espalhou mais rápido que as pragas da Idade Média.
Antônio morreu jovem, com 36 anos, no dia 13 de junho de 1231, nos arredores de Pádua. Ao morrer, disse: “Ó Virgem gloriosa que estais acima das estrelas. Estou vendo o meu Senhor.” E foi-se.
Lisboa sentiu. Os sinos das igrejas começaram a tocar sozinhos, contam. E os meninos gritaram pelas ruas: “O Santo morreu!”
Foi canonizado em tempo recorde: 11 meses após sua morte. Quando exumaram seu corpo, encontraram a língua intacta. São Boaventura, que viu com os próprios olhos, disse que era prova de que aquela língua só havia falado coisas de Deus.
Hoje ele é conhecido pelos milagres — das coisas perdidas, dos casamentos, dos pobres, de tudo. Em 1934, foi declarado Padroeiro de Portugal. Em 1946, Doutor da Igreja. Mas a verdade é que, muito antes de qualquer título, Antônio já era o que nasceu para ser: um homem que acreditava tanto em Deus que acabou virando milagre.
Santo Antônio e o Brasil — muito além do casamento

Você já se perguntou por que Santo Antônio é considerado o santo casamenteiro?
Diz a lenda que um jovem nobre de Lisboa estava procurando um casamento vantajoso para sua filha. No entanto, ela estava apaixonada por um jovem de condição social inferior, e o nobre não aprovava a relação. Santo Antônio, ao saber da história, interveio e conseguiu convencer o nobre a aceitar o casamento.
A partir daí, Santo Antônio começou a ser venerado como o santo casamenteiro, pois havia ajudado a unir os dois jovens amantes. Mas, não foi apenas isso que o tornou famoso. A devoção a Santo Antônio se espalhou rapidamente por Portugal e, posteriormente, pelo mundo.
As mulheres solteiras começaram a pedir a intercessão de Santo Antônio para encontrar um marido, e os casais que estavam com problemas no relacionamento também o invocavam. E, por milagre, muitos desses pedidos foram atendidos!
Hoje em dia, Santo Antônio é considerado o padroeiro dos casamentos e dos namorados. E você, já pediu a intercessão de Santo Antônio alguma vez? Não? Então, quem sabe agora é a hora de fazer isso! Quem sabe ele não ajuda a encontrar o amor da sua vida?
147 anos de festa, 150 anos de história italiana
Bento Gonçalves carrega essa devoção desde o início. A imigração italiana, que completou 150 anos em 2025, trouxe com ela muito mais que uva e vinho: trouxe fé, tradição, a memória da terra distante e um santo para chamar de seu.
A festa de Santo Antônio, que chega à 147ª edição, é um dos maiores exemplos dessa herança. Foi ali, em 1878, que o padre Giovanni Menegotto trouxe um quadro sagrado da Itália — a primeira imagem do santo na então colônia Dona Isabel, que mais tarde se tornou Bento Gonçalves.
Com o passar dos anos, aquela imagem, simples e modesta, virou o coração da festa e da fé da cidade. Hoje, o dia 13 de junho é feriado municipal, um dia de parar para lembrar as raízes, para celebrar a comunhão entre passado e presente, fé e cultura, vida e devoção.
Bento Gonçalves, a cidade que vive Santo Antônio
Aqui, o santo não está só na igreja, ele está na rua, no povo, nas mesas fartas que lembram a Itália — a sopa de capeletti, o lesso, o vinho da casa — e nos sinos que, toda manhã, despertam a cidade.
Nesta sexta, a programação é cheia: cinco missas, procissão, almoço festivo com cardápio típico e a bênção dos casais festeiros que vão organizar a festa do ano que vem.
Mas não se trata só de festa. O lema deste ano, “Pelo olhar de Santo Antônio contemplamos a criação”, traz um olhar para o futuro, para a ecologia e o cuidado com o planeta, tema da Campanha da Fraternidade.
Bento Gonçalves celebra seu padroeiro, sim, mas também celebra a sua própria história — a saga dos imigrantes, a força da fé e a certeza de que, no meio do vinho e do sagrado, há um homem que viveu, lutou e inspirou milhões.
E que, muito além do santo casamenteiro, é sinal da esperança que atravessa os séculos.
A próxima sexta-feira, 13 de junho, marca o dia festivo da 147ª Festa de Santo Antônio. Para às 06h está programada a alvorada festiva, com o toque dos sinos do Santuário, no centro de Bento Gonçalves.
As Missas serão celebradas às 07h, 08h30min, 10h, 15h e 18h. Às 15h, a Missa será campal e presidida pelo bispo diocesano de Caxias do Sul, Dom José Gislon, seguida de procissão com a imagem do Padroeiro pelas ruas centrais da cidade. Às 18h, a Missa em ação de graças também marcará a apresentação dos casais festeiros de 2026. Todas as Missas serão transmitidas pelas redes sociais da Paróquia Santo Antônio e diversas rádios e canais de televisão. Às 10h, a celebração terá transmissão ao vivo pela TV Canção Nova Rio Grande do Sul - Canal 41,1 digital.
Ao meio-dia, no Salão Paroquial, será servido o almoço festivo. Restam ainda alguns ingressos ao valor individual de R$ 85,00. Eles podem ser adquiridos com os casais festeiros e festeiros jovens da 147ª Festa Santo Antônio e na Secretaria Paroquial. O cardápio terá: sopa de capeletti, lesso, piem, churrasco, frango, salada verde, maionese e pão, além de vinho branco e tinto, refrigerante Fruki, suco, água com e sem gás e sagu e creme, de sobremesa.
No pátio do Santuário Santo Antônio, equipes estarão distribuindo os tradicionais pãezinhos de Santo Antônio.
Ao todo, 30 padarias e supermercados da cidade farão a doação dos mais de 50 mil pãezinhos que estarão à disposição dos fiéis. Além disso, os frades franciscanos estarão à disposição para bênçãos individuais e confissões.















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