30 anos do "Domingo dos Mamonas Assassinas"
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POR DIEGO FRANZEN*

Sabe, às vezes você acha que não está tão velho assim. Aí vem as redes sociais e nos lembram que o tempo não pára. Lembro daquele dia como se fosse ontem. O vazio e a tristeza que senti. Mas gente, já fazem 30 anos.
Sim, caro leitor, hoje, 3 de março, completaram-se 30 anos do dia triste em que o Brasil acordou num domingo que deveria ser qualquer um. Um domingo de preguiça, café ralo e televisão ligada sem atenção. Até que as trilhas sinistras dos plantões interromperam a rotina, aquelas músicas graves que gelam a espinha antes mesmo da notícia. Foi ali, entre imagens frias, letras correndo no rodapé e vozes contidas, que o país soube da tragédia da noite de sábado.
E, naquele instante, algo se quebrou. Não apenas um avião caiu. Caiu junto a leveza de uma geração inteira. Os Mamonas Assassinas morreram naquela noite. E o Brasil, que vinha rindo alto, ficou subitamente mudo.
Tem domingos que viram marcos emocionais. Aquele já se juntava, na memória coletiva, a outro domingo traumático de poucos anos antes. Em 1º de maio de 1994, o país também acordara mais pobre. Ayrton Senna havia morrido em Ímola, e o Brasil aprendera, da forma mais brutal, que até os heróis caem. Dois meses depois, o tetra veio como homenagem, como tentativa de costurar uma ferida aberta demais, uma taça erguida com os olhos marejados.
A morte dos Mamonas, dois anos depois, abriu outro rasgo. Diferente, mas igualmente profundo. Porque se Senna simbolizava a excelência, os Mamonas simbolizavam a alegria.
Os Mamonas Assassinas surgiram num Brasil em transição. O Plano Real ainda era novidade, o dinheiro começava a render sonhos modestos, o país reaprendia a consumir, a planejar, a acreditar. Havia uma ingenuidade no ar. E foi exatamente nela que os Mamonas tocaram. Não eram apenas uma banda. Eram um espelho debochado de um Brasil confuso, machista, contraditório, engraçado sem perceber.
Faziam humor com o que era proibido, com o que era feio, com o que ninguém queria admitir em voz alta. E faziam isso com inteligência, embora muita gente não tenha entendido na época.
Fingiam ser bobos para revelar o ridículo. Usavam a caricatura para denunciar o exagero. Riam antes de serem levados a sério.
Dinho era o furacão. Alecsander Alves Leite tinha um carisma raro, desses que não se aprendem em escola alguma. Cantava como quem conversa, gesticulava como quem conta uma piada no balcão do bar. Havia nele uma alegria quase infantil, mas também uma consciência clara de palco, de tempo, de entrega. Dinho dominava multidões sem parecer mandar em ninguém.
Bento Hinoto, o guitarrista, era o contraponto silencioso. Tímido, discreto, quase invisível fora da música. Mas quando ligava a guitarra, deixava claro que ali havia talento. Seus riffs simples e certeiros deram sustentação musical a um projeto que poderia ter sido apenas engraçado. Com ele, virou inesquecível.
Samuel Reoli, no baixo, era energia em estado bruto. Um sorriso permanente, uma vibração que atravessava o palco. O baixo não apenas acompanhava, ele dançava. Samuel parecia viver cada show como se fosse o último, talvez sem saber o quanto isso era verdade.
Júlio Rasec, nos teclados, era quem organizava o caos criativo, quem transformava ideias soltas em canções possíveis.
E havia Sérgio Reoli, o baterista, irmão mais velho de Samuel. Era o chão firme. O pulso seguro. O adulto da sala. Sérgio dava sustentação a uma banda que voava alto demais, garantindo que ninguém se perdesse no excesso.
Eles vieram de Guarulhos. Garagem, bairro, família simples, sonhos grandes demais para o espaço onde ensaiavam. Antes dos Mamonas, foram Utopia. Antes do sucesso, foram insistência. Garra. Sonhos.
Quando estouraram, foi rápido demais. Um disco. Menos de um ano. 3 milhões de cópias. O terceiro disco mais lucrativo da história do Brasil. Shows lotados. Crianças, adultos, avós. Todo mundo sabia cantar. Todo mundo ria.
E então, silêncio.
A tragédia da noite de sábado não matou apenas cinco jovens músicos e mais quatro pessoas. Matou um futuro que nunca aconteceu. Não houve segundo disco, amadurecimento, erros, reinvenções.
Eles ficaram congelados no auge, eternamente jovens, eternamente engraçados, eternamente promissores.
Trinta anos depois, a recente exumação dos corpos dos integrantes trouxe de volta não apenas um procedimento técnico, mas uma dor coletiva. Reabrir aqueles túmulos foi reabrir a memória. Não por curiosidade mórbida, mas por necessidade. Por honra. E agora eles estarão vivos em árvores em um belo memorial. Quero ir lá um dia. Nunca vamos entender por que algo tão vivo precisou acabar tão cedo.
Talvez doa ainda mais lembrar deles porque, sejamos honestos, hoje seria impossível surgirem outros Mamonas Assassinas. Não do mesmo jeito. Não com a mesma liberdade. Não com a mesma inconsequência criativa. Eles seriam cancelados antes do segundo refrão. Virariam pauta, alvo, julgamento.
O Brasil amadureceu, o mundo também, e isso não é necessariamente ruim. A cultura ficou mais consciente, mais atenta, mais cuidadosa com feridas que antes eram ignoradas.
Mas nesse amadurecimento, algo também se perdeu. Perdeu-se a permissão para o exagero. Para o erro público. Para o humor tosco que, no fundo, denunciava a própria tosquice do país.
Os Mamonas riam do machismo porque expunham o machismo. Riam do preconceito porque o colocavam nu, ridículo, desconfortável. Hoje, talvez não houvesse tempo para essa camada. O tribunal viria antes da interpretação.
Eles pertenciam a um Brasil analógico, onde a piada precisava atravessar o tempo para ser compreendida. Onde o erro era discutido na mesa da cozinha, não na timeline. Onde a cultura ainda aprendia, tropeçando, a se olhar no espelho.
Trinta anos se passaram. Eles não envelheceram. Nós sim. E talvez seja por isso que ainda façam tanta falta. Porque os Mamonas Assassinas não foram apenas uma banda. Foram um intervalo de felicidade num país acostumado a sobreviver.
E intervalos assim, quando acabam, deixam silêncio demais.
É difícil explicar para quem não viveu. Hoje a tragédia disputa espaço com notificações nas nossas timelines. Em 1996, não. A notícia era uma só. Ela ocupava tudo. A televisão mandava desligar o riso, e o rádio repetia, em tom quase respeitoso, os nomes daqueles cinco meninos de Guarulhos que, até a véspera, eram sinônimo de alegria escancarada.
O Brasil de hoje é outro. Mais duro, mais cínico, mais cansado. Rimos menos. Desconfiamos mais. Talvez por isso os Mamonas sigam tão presentes. Eles nos lembram de um tempo em que o riso era menos defensivo, mais espontâneo. Um tempo em que ainda acreditávamos que a alegria podia ser simples.
Quando uma música deles toca, ninguém fica indiferente. Há sempre um sorriso que vem antes da saudade. E logo depois, a saudade vence. Porque rir também dói quando se sabe que aquilo não volta.
A tragédia dos Mamonas também nos obriga, trinta anos depois, a olhar para um espelho que o jornalismo nem sempre gosta de encarar. Mesmo naquele Brasil de 1996, ainda analógico, sem internet acessível a todos, sem redes sociais, sem a voracidade do clique imediato, os limites da ética jornalística já eram testados até o esgarçamento.
Havia fotos de corpos circulando e sendo vendidas em bastidores e redações. Havia relatos de pessoas vendendo pedaços do avião, objetos pessoais, lembranças arrancadas do lugar do choque como se fossem souvenirs de um desastre. Havia um mercado do horror funcionando a pleno vapor, mesmo sem wi-fi e algoritmo. Porque a ausência de tecnologia nunca significou ausência de crueldade.
Na televisão, o domingo virou palco de uma disputa constrangedora por audiência. Gugu e Faustão duelavam em tempo real, com entradas ao vivo, imagens repetidas à exaustão, intervenções que confundiam informação com espetáculo. Em um dos momentos mais dolorosos daquele dia, Gugu chegou a ligar ao vivo para Valéria Zoppello, namorada de Dinho, pedindo que ela “desse conforto ao Brasil” no exato instante em que mal conseguia respirar a própria dor. Era o luto transformado em conteúdo. A intimidade violentada em nome do ibope.
Aquilo já era demais. E, ainda assim, era pouco perto do que seria hoje.
Se em 1996 o horror precisava de fita, satélite e antena, em 2026 ele caberia no bolso. A instantaneidade das redes sociais tornaria tudo mais rápido, mais invasivo, mais irreversível. Vídeos antes da confirmação. Fotos antes da checagem. Teorias antes do silêncio. Julgamentos antes da empatia. O sofrimento não teria intervalo. O luto não teria respiro. A tragédia viraria trending topic antes de virar memória.
Talvez por isso lembrar dos Mamonas também seja lembrar que informar é um ato moral, não apenas técnico. Que existe uma linha clara entre noticiar e explorar. Entre relatar e ferir. Entre cumprir o dever público e ultrapassar o limite humano.
A morte deles nos ensinou sobre ausência, saudade e fim precoce. Mas também deveria ter nos ensinado sobre responsabilidade. Sobre saber a hora de calar. Sobre entender que nem toda imagem precisa ser mostrada. Que nem toda dor precisa ser transmitida ao vivo.
No Pauta Serrana, essa é uma escolha diária. Informar sempre, sim. Mas com ética, humanidade e empatia. Sem sensacionalismo. Sem espetacularizar o sofrimento. Sem transformar pessoas em personagens no pior dia de suas vidas.
Porque o jornalismo só cumpre sua função quando lembra, antes de tudo, que do outro lado da notícia existe alguém sangrando em silêncio.
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*JORNALISTA, ESCRITOR, AUTOR DE 17 LIVROS, CEO DA TEMPORA COMUICAÇÃO E EDITOR DO PORTAL PAUTA SERRANA













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