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Quem Pode Usar o Título de Doutor

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    temporacomunicacao
  • há 11 horas
  • 3 min de leitura

POR DIEGO FRANZEN



O Brasil tem uma relação curiosa com títulos. Não com conquistas, veja bem. Com títulos. Gostamos menos do conteúdo e mais da placa na porta. Menos da trajetória e mais do tratamento cerimonioso. Doutor é, talvez, o mais emblemático desses fetiches nacionais. Uma palavra curta, duas sílabas, mas capaz de inflar egos, criar hierarquias imaginárias e silenciar interlocutores antes mesmo da primeira frase.


Doutor, no imaginário coletivo, não é apenas alguém que estudou muito. É alguém que manda. Que sabe. Que não deve ser interrompido. É quase um cargo vitalício, desses que dispensam currículo. Basta o prefixo e pronto: está investido de autoridade.


No Brasil, médicos e advogados podem, legalmente, usar o título de “Dr.”, mesmo sem doutorado acadêmico. Isso não é erro, nem abuso, nem jeitinho. É tradição histórica, reconhecida e consolidada pelo costume jurídico e institucional. Desde o Império. Vem de um tempo em que o diploma universitário era raridade e, quem o possuía, já se destacava naturalmente.


O título virou tratamento. O tratamento virou hábito. O hábito virou regra social. E está tudo bem. Não há ilegalidade nisso. Conselhos profissionais reconhecem. A prática forense consagra. A cultura médica perpetua. Um advogado pode ser chamado de doutor. Um médico também. Legalmente. Socialmente. Tradicionalmente.


O problema começa quando essa exceção histórica vira regra genérica. Quando o “Dr.” escapa do consultório e do fórum e passa a circular solto, sem lastro, sem tradição, sem tese, sem banca e, principalmente, sem pudor.


Do ponto de vista acadêmico, o assunto é menos elástico. Doutor é quem fez doutorado. Quem passou anos pesquisando, escrevendo, sendo contrariado por orientadores, reprovado por bancas e obrigado a defender ideias diante de gente tão preparada quanto (ou mais).


Doutorado não é tratamento. É um processo. Duro. Longo. Muitas vezes solitário. Não se improvisa. Não se terceiriza. Não se imprime em cartão de visita por vontade própria.


E aqui surge o personagem mais curioso dessa história: o autointitulado. Aquele que, sem tradição profissional que o ampare e sem título acadêmico que o sustente, resolve se apresentar como doutor porque, afinal, “todo mundo chama”. Não chama. Tolera. É diferente.


Essa autointitulação não costuma ser crime, mas é sintomática. Revela uma necessidade quase infantil de distinção artificial. Um desejo de parecer mais do que ser. Como se o título pudesse suprir a falta de argumento, de repertório ou de densidade intelectual. Como se o “Dr.” fosse uma muleta simbólica para atravessar conversas inseguras.


Há também os verdadeiros doutores. Os acadêmicos. Aqueles que poderiam, com toda legitimidade, exigir o tratamento. E quase nunca exigem. Doutores em História, Filosofia, Educação, Física, Direito, Medicina, Engenharia, Pedagodia. Pessoas que aprenderam, justamente no percurso do doutorado, que autoridade não se impõe pelo nome, mas pela ideia bem sustentada. São, paradoxalmente, os mais discretos. Apresentam-se pelo nome. Deixam o título no currículo. E confiam que quem precisa saber, saberá.


O alerta, portanto, não é contra médicos nem advogados. Eles podem usar o “Dr.” legalmente e ninguém sério discute isso. O alerta é contra a banalização do título, contra o uso vaidoso, inflacionado e vazio de uma palavra que deveria carregar algum peso.


Num país que ainda confunde formalidade com mérito e tratamento com competência, talvez o verdadeiro gesto de sofisticação intelectual seja simples e quase revolucionário: chamar as pessoas pelo nome, ouvir o que elas dizem e julgar pelo conteúdo, não pelo prefixo.


Porque, no fim das contas, doutor mesmo é quem não precisa dizer que é.

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