“Poderia ser nossa mãe, nossa filha” comandante do 43º BPM alerta para avanço da violência contra a mulher em meio a onda de feminicídios no RS
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Tenente-coronel Karine Pires Soares, primeira mulher a comandar o batalhão em Bento Gonçalves, aponta a violência doméstica como o crime que mais preocupa e defende fortalecimento da Patrulha Maria da Penha
POR DIEGO FRANZEN / PAUTA SERRANA

O Rio Grande do Sul vive um momento assustador. Desde janeiro, 19 mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado. Ainda não encerramos o mês de fevereiro. E isso assusta. Dezenove histórias interrompidas por um tipo de violência que não surge de repente, não é imprevisível e quase nunca é silencioso para quem olha com atenção.
Na Serra Gaúcha, o alerta ganhou nome, rosto e comoção regional. Roseli Vanda Pires Albuquerque, ex-vereadora de Nova Prata e diretora administrativa da Secretaria de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul, foi assassinada no sábado, dia 21, pelo ex-marido, Ari Albuquerque. Após cometer o crime, ele tirou a própria vida.
O caso abalou a região não apenas pela brutalidade, mas pelo simbolismo. Roseli era uma mulher pública, conhecida, respeitada, com trajetória política e administrativa. Não vivia à margem da sociedade, nem distante das estruturas de proteção do Estado. Ainda assim, morreu vítima de um roteiro que se repete com frequência perturbadora: o agressor que não aceita o fim do relacionamento.
Enquanto o Estado contabiliza mortes, Bento Gonçalves e os municípios atendidos pelo 43º Batalhão de Polícia Militar vivem um paradoxo. Janeiro foi um mês difícil, marcado por crimes violentos associados à atuação de organizações criminosas. Fevereiro, no entanto, trouxe uma mudança clara de cenário. Nenhum homicídio foi registrado em Bento Gonçalves ou Garibaldi.
O resultado veio de estratégia e integração. A Brigada Militar passou a aplicar o protocolo de dissuasão focada, ação que reúne Polícia Civil, Guarda Civil Municipal, Instituto-Geral de Perícias, Polícia Penal e outros órgãos. Houve saturação de áreas, reforço do trabalho de inteligência e identificação das lideranças criminosas. Os números caíram. As ruas responderam.
Mas há um crime que não se intimida com viaturas nem com estatísticas positivas.
A violência doméstica.
Hoje, ela é o segundo tipo de ocorrência mais atendida pela Brigada Militar em Bento Gonçalves. Em janeiro, foram cerca de 90 chamados, o equivalente a três ou quatro atendimentos por dia. Em toda a área do 43º BPM, que abrange 12 municípios, o volume é ainda maior.
A tenente-coronel Karine Pires Soares, primeira mulher a comandar o batalhão, fala do tema sem rodeios e sem discurso protocolar. Vinda de Porto Alegre, onde os índices de violência são historicamente mais elevados, ela reconhece os bons números da Serra em crimes como homicídios e roubos. Mas deixa claro qual é hoje o principal foco de atenção da segurança pública.
“A violência doméstica é o que mais nos assusta”, afirma. “Porque poderia ser a nossa mãe, nossa irmã, nossa filha.”
A frase carrega o peso de quem entende que esse tipo de crime não começa no dia em que termina em morte. Antes disso, houve ameaças, controle, isolamento, agressões verbais e físicas. Houve medo. Houve tentativas de saída. Houve silêncio.
Por isso, a comandante faz questão de enfatizar um ponto que costuma ser mal interpretado: o aumento das denúncias não é um dado negativo. Pelo contrário. Significa que as mulheres estão falando, procurando ajuda e rompendo o ciclo de invisibilidade. “Quando há denúncia, nós conseguimos agir. O problema é quando ela não acontece”, destaca.
Bento Gonçalves conta hoje com uma rede de proteção articulada, que envolve a Patrulha Maria da Penha, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, a assistência social do município, casas de passagem, atendimento psicológico, apoio para inserção no mercado de trabalho e suporte às famílias, inclusive com vagas em escolas para os filhos.
A Patrulha Maria da Penha atua diretamente na fiscalização das medidas protetivas, acompanhando mulheres em situação de risco. A comandante já trabalha com a perspectiva de ampliar esse serviço, criando uma segunda patrulha dedicada exclusivamente ao tema, caso haja reforço de efetivo.
Não é apenas repressão. É acompanhamento. É presença. É insistência.
Porque a violência doméstica não se resolve com uma ocorrência isolada nem com uma prisão pontual. Trata-se de um crime multifatorial, que exige atuação contínua do Estado e da sociedade.
O feminicídio, como o que vitimou Roseli Vanda Pires Albuquerque, é o desfecho de um processo que poderia ter sido interrompido. Cada um dos 19 casos registrados no Rio Grande do Sul neste início de ano carrega sinais que, em algum momento, foram ignorados, minimizados ou normalizados.
A comandante também deixou claro que o enfrentamento à violência contra a mulher não ficará restrito ao discurso. A comandante Karine afirmou que trabalha com a perspectiva concreta de ampliar a Patrulha Maria da Penha em Bento Gonçalves, criando uma segunda equipe dedicada exclusivamente à fiscalização das medidas protetivas. Hoje, uma dupla de policiais realiza esse acompanhamento, visitando mulheres em situação de risco e monitorando o cumprimento das ordens judiciais. Com a chegada de mais efetivo, o objetivo é dobrar essa capacidade de atuação, garantindo mais presença, mais tempo de fiscalização e mais proteção. “A violência doméstica exige vigilância permanente e resposta rápida do Estado", destacou.
O alerta está dado. E ele vem de dentro da própria segurança pública.
Denunciar não é exagero. Denunciar não é fraqueza. Denunciar é sobrevivência.
E se o perigo, muitas vezes, mora dentro de casa, a proteção precisa estar em toda a cidade.













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