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Bento Gonçalves celebra quarenta anos de sonhos impressos

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 16 de out.
  • 3 min de leitura

Por Diego Franzen



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Bento Gonçalves amanheceu em plena primavera, e havia no ar um perfume de flor misturado ao cheiro de papel novo. Era o anúncio discreto, mas profundo, de que a cidade voltava a celebrar aquilo que a mantém desperta: as histórias. Começou a 40ª Feira do Livro, e até o dia 26 de outubro as ruas e praças se tornarão abrigo para as palavras, os sonhos e as vozes que fazem a literatura respirar.


Quarenta anos de Feira. Quatro décadas de encontros, descobertas, lágrimas, riso e fé na palavra escrita. A abertura oficial, nesta quarta-feira, não foi apenas uma cerimônia: foi um ato de amor à memória. O patrono Werner Schünemann, a escritora homenageada Marta Sassi, os livreiros, professores, artistas e leitores formaram uma espécie de cortejo poético, uma comunhão silenciosa de quem acredita que os livros ainda podem transformar o mundo.


O tema deste ano, “O futuro começa com um livro”, soa como uma convocação. Uma cidade que lê é uma cidade que se inventa de novo todos os dias. Ler é um gesto civilizatório, é o modo mais simples e mais profundo de construir o amanhã. Por isso, a Feira do Livro não é apenas um evento cultural , é a alma de Bento Gonçalves pulsando entre estandes e páginas, um monumento vivo à imaginação coletiva.


Sua história atravessa gerações e endereços. Começou na antiga Casa Del Vino, passou pelas praças Vico Barbieri, Walter Galassi e Centenário, pelo Pavilhão da ExpoBento, até encontrar morada definitiva na Via Del Vino. O ex-prefeito Aido José Bertuol, presente à solenidade, falou com a serenidade de quem viu o sonho nascer e crescer. Disse que a Feira foi o primeiro passo da cidade rumo à maturidade artística, a raiz que depois gerou a Casa das Artes e tantas outras expressões culturais.


A homenageada Marta Sassi, autora de “Maria achava interessante” e “Vime”, falou com a delicadeza de quem enxerga o sagrado nas histórias simples. “A partir de hoje, nosso município se transforma num grande palco de experiências. Serão dias inesquecíveis para todos que amam esse universo surpreendente dos livros. A cada história contada ou lida, nos tornamos mais humanos”, disse, com a emoção de quem entende que narrar é uma forma de viver duas vezes.


Werner Schünemann, o patrono da Feira, é um artista que parece habitar vários tempos e vozes. Ator, roteirista, cantor e escritor, falou à plateia com a autoridade serena de quem sabe o valor da palavra. “Sem leitura, não compreendemos nem a nós mesmos. A Feira é o encontro das beiras, o congraçamento das almas”, afirmou, e a praça silenciou como se escutasse um verso.


O diretor do Sesc, Jaques Fachineli, lembrou que a leitura floresce quando é cultivada em conjunto. “Se conseguimos plantar a semente do livro nas escolas, já cumprimos nossa missão de aproximar a vida da cultura”, disse. O secretário de Cultura, Evandro Soares, visivelmente emocionado, falou sobre os quarenta anos da Feira como quem fala de um velho amigo. “Ela nasceu sonho, foi aposta, e hoje é patrimônio afetivo. Está na história e na memória de quem ouviu uma história, comprou um livro para o filho ou encontrou aqui um motivo para acreditar na cultura.”


Os números impressionam, mas é o sentimento que os sustenta: quarenta e oito atrações musicais, dezoito peças de teatro, oito danças, dezesseis contações de histórias, oito lançamentos de livros, doze saraus, duas exposições e quase cinquenta visitas de escritores às escolas. Cento e sessenta e sete atividades ao todo, alcançando mais de nove mil alunos. É a literatura atravessando gerações, tornando-se presença viva nas salas de aula e nos corações.


O prefeito Diogo Segabinazzi Siqueira observava as crianças com um sorriso que parecia síntese do evento. “Ver a alegria delas é ver o futuro nascer. Nosso papel é oferecer arte, cultura, bons exemplos. Uma cidade que lê é uma cidade que não se rende.”


Entre o público, uma figura chamava atenção. Era Damiel Brocker, ator e contador de histórias, que desde 2022 dá corpo à própria Feira. Neste ano, ele se transformou em Dona Feira, personagem criada para homenagear os quarenta anos do evento. Sua fantasia é feita de páginas e versos, de onde brotam livros pelos braços e pela cabeça, como se a imaginação ganhasse forma humana.


A Feira do Livro de Bento Gonçalves não é apenas uma mostra de cultura: é um estado de graça. Uma pausa na rotina, um sopro de beleza que lembra à cidade o quanto é humano ler, ouvir, contar. É a comunhão entre o ontem e o amanhã, entre o silêncio e a palavra.


E talvez seja por isso que, quarenta primaveras depois, Bento continua se reinventando entre letras. Porque um livro é o único lugar onde o tempo se ajoelha diante da alma — e onde a humanidade, por um instante, volta a florescer.

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