Brasil, esse eterno laboratório do improviso político
- temporacomunicacao
- 29 de mai.
- 2 min de leitura
Coluna do jornalista Fernando Kopper
Se o Brasil fosse um paciente, estaria em coma induzido na UTI da ética, sendo tratado com doses homeopáticas de promessas e respirando por aparelhos ligados à esperança popular. E o curioso é que, mesmo à beira do colapso institucional, o país continua sendo palco de uma tragicomédia que mistura escândalos, alianças indecorosas e discursos reciclados de políticos que juram ter vindo para “renovar” — mas que, na prática, apenas reciclam o velho modo de operar.
Enquanto o povo conta centavos no mercado e transforma o osso do açougue em sopa, Brasília vive sua rotina paralela: uma realidade paralela onde a indignação dura o tempo de uma nota de repúdio ou de um tweet. No Congresso, a prioridade não é debater educação, saúde ou reforma tributária decente. A prioridade é garantir emendas, cargos e blindagens. O famoso “toma lá, dá cá” não apenas voltou — ele agora tem regimento interno, cerimônia e tapete vermelho.
Os discursos inflamados sobre ética e responsabilidade fiscal têm validade menor do que a de um iogurte esquecido na geladeira. O Brasil é o único país onde o político que grita contra a corrupção na terça-feira é flagrado em delação na sexta. E, ainda assim, concorre à reeleição com apoio de cabos eleitorais que distribuem abraços e promessas em troca de likes e votos.
Na CPI mais recente — seja ela de qual tema for, porque elas se repetem como novelas mexicanas — deputados e senadores não estão interessados em esclarecer nada. Estão ali para protagonizar cortes para o horário eleitoral gratuito, que logo chegará. Afinal, os votos vêm mais de memes do que de mérito.
E o Executivo? Ah, o Executivo caminha entre crises fabricadas e pautas improvisadas, muitas vezes mais preocupado em agradar a base aliada do que em governar para o país. As prioridades mudam ao sabor do vento (ou das pesquisas de opinião), e as reformas estruturais seguem sendo um projeto de ficção científica.
Enquanto isso, seguimos com uma população descrente, tentando sobreviver entre boletos vencidos e promessas não cumpridas. O brasileiro é um herói anônimo, que vive num looping de escândalos, inflação, cortes de verbas e piadas sobre a própria desgraça — porque rir é, muitas vezes, a única válvula de escape.
Mas sigamos. Porque, no Brasil, a política é uma peça sem fim, onde os protagonistas mudam, mas o roteiro continua o mesmo. Só resta saber se, algum dia, esse teatro vai parar de encenar a tragédia e começar a escrever, enfim, uma comédia menos cínica — e mais justa.















Os ciclos de insatisfação são muito importantes para percebermos a importância de frases como as de Gandhi: - Seja você a mudança que espera do mundo! Na escala desta experiência terrena somos vibrações frágeis a cair numa fuga de pão e circo e cruzar os braços é como um vírus. Grande abraço e parabéns por seu corajoso texto (raramente me proponho a tear estas questões políticas, salvo se incorporo o Gregório de Mattos). Sou seu novo colega de coluna neste fraterno e democrático portal. https://www.pautaserrana.com/post/coluna-viva-o-convite