Cadaveres em ensaio geral
- temporacomunicacao
- 23 de ago.
- 3 min de leitura
Coluna de Diego Franzen
A existência humana é, em sua essência, um simulacro de permanência. Fingimos ser necessários, interpretamos papéis em pequenas tragédias cotidianas, sustentamos a ficção de que nossa presença altera o curso do mundo.
Mas a realidade, austera e implacável, nos mostra outra coisa: tão logo o coração cesse sua cadência, tão logo o corpo seja reduzido à inércia definitiva, seremos recordados por instantes breves, como uma fotografia esquecida em gaveta antiga.
Haverá, talvez, menções piedosas durante um dia ou dois, murmúrios de condolência, algumas lágrimas rituais. Depois disso, o esquecimento exercerá sua soberania. O mundo seguirá sua marcha mecânica e desprovida de solenidade.
O espaço que imaginávamos ocupar será preenchido com naturalidade, como se nunca tivesse pertencido a nós.
A morte é menos um cataclismo e mais uma troca de cenário. Somos, na verdade, como atores descartáveis de uma peça sem espectadores atentos: ao sair de cena, nossa ausência não causa vácuo, mas tão somente o rearranjo de quem permanece. É a comédia amarga do tempo, que prossegue indiferente, como um rio que não se detém por causa das lágrimas de um náufrago.
E, no entanto, insistimos em chamar de amizade, de amor, de reconhecimento, aquilo que não passa de um contrato tácito de utilidades. Somos mercadorias de prateleira: uns se consomem mais rapidamente, outros resistem mais tempo, mas todos trazemos estampada, invisível, a data de validade.
A afetividade humana, esse ornamento que tanto prezamos, não é senão um mecanismo de consumo. Usam-nos enquanto somos saborosos, enquanto nutrimos expectativas alheias, e depois nos relegam à obsolescência, como uma fruta que apodreceu sem alarde.
Eis o batismo verdadeiro do homem que se quer digno: não o rito das águas litúrgicas, nem a imposição de mãos que abençoa e absolve, mas o mergulho abissal no próprio sofrimento.
A dor, quando vem, e sempre vem, é a unção com que a vida unge aqueles que ousam viver com caráter. Quem já experimentou o sal amargo das próprias lágrimas compreende que nenhuma honra é adquirida sem o selo da desventura.
É no padecimento, e não na celebração, que o homem se revela.
E, às vezes, na aridez da reflexão, a lucidez se converte em fardo. Quem não invejou, em horas de exaustão, a serenidade bestial dos que vivem sem pensar? O rebanho que repete fórmulas, que aceita dogmas, que sorri em fotografias vazias, esse rebanho parece possuir a felicidade dos inconscientes. Pensar é uma autodestruição progressiva: é serrar as próprias vértebras, é abrir o próprio ventre com o bisturi da consciência.
Refletir é viver ferido, é sangrar devagar, com a nitidez cruel de saber que se sangra.
E ainda assim, o paradoxo se impõe: mesmo conscientes de nossa nulidade, de nossa efemeridade, de nosso destino descartável, persistimos em sustentar a ficção de que há grandeza nesse sopro fugaz que chamamos vida.
Continuamos a perseguir símbolos, erigir memórias, gravar nomes em lápides como se a pedra pudesse ser mais duradoura que o vento. O homem, mesmo lúcido de sua finitude, teima em criar monumentos contra o esquecimento.
É a sua derradeira vaidade: acreditar que pode inscrever-se no tecido do tempo.
Mas o tempo é um ácido que dissolve todos os nomes. As pirâmides, os impérios, os códices, as catedrais, tudo é apenas uma procrastinação do pó.
E o mesmo pó que se acumula nos livros se acumulará sobre a nossa memória.
Eis a ironia suprema: o que nos parece duradouro não passa de efemeridade em escala maior.
A tragédia, portanto, é dupla. Somos efêmeros não apenas na morte, mas também na vida. Carregamos em nós o fardo da lucidez, que nos lembra, a cada instante, que não passamos de partículas transitórias.
E ainda assim, tolos, insistimos. Insistimos em amar, em sofrer, em pensar, em buscar sentido.
É nesse gesto obstinado, quase pueril, que talvez resida nossa única grandeza: a recusa a aceitar que a nulidade seja a palavra final.
Pois se tudo é pó, que seja pó luminoso; se tudo é silêncio, que seja silêncio habitado pela lembrança de que ousamos existir.















Comentários