Ecos da Torá, jornais do mundo e dia sete
- temporacomunicacao
- 11 de jun.
- 2 min de leitura
Coluna Poética de Decimar Biagini
Acordei com cheiro de café e uma nesga de sol filtrando pela cortina.
O céu limpo. A terra fria.
O dia parecia seco demais para um sábado,
mas ainda assim... sagrado.
Sem chuva, sem trovão, sem pressa.
Apenas aquele silêncio típico das manhãs de junho,
quando até os pardais hesitam antes de cantar.
Abro o jornal.
Não por hábito — por resistência.
Como quem busca uma lâmpada nas dobras do mundo.
E lá está, outra vez, o Rio Grande do Sul afundado em lama seca.
O barro que sobra depois da água se retirar
e deixar para trás uma tristeza que pesa mais que enchente.
Vejo fotos.
De gente recolhendo destroços como quem recolhe pedaços da alma.
De mãos que distribuem cobertas como se fossem bênçãos.
De olhares que carregam mais do que conseguem dizer.
Penso em Gênesis.
No princípio, tudo era sem forma.
Mas o Espírito pairava sobre a face das águas.
Hoje, talvez paire sobre a poeira.
Em Brasília, os que governam discursam como se fossem deuses,
mas só aumentam o vazio entre promessas e pão.
No Oriente, sirenes sagradas gritam por cima das orações.
O mundo, ao que parece, repete Babel —
muitas vozes, nenhuma escuta.
E eu aqui.
Com as mãos aquecidas na xícara,
os pés frios no chão de casa,
e uma pergunta quente no peito:
“Deus viu que a luz era boa.”
Mas... será que ainda vê?
Fecho o jornal.
Não por negação — por escolha.
Levanto-me devagar, como quem escuta uma voz antiga:
“Vai. Trabalha o chão. Guarda a esperança.”
Porque a fé, talvez,
seja isso:
acordar num sábado frio,
ler o mundo com olhos de barro,
e ainda crer
que o sétimo dia...
é descanso.
Não desistência.















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