HALLOWEEN

COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Sábado é Halloween. 31 de outubro. Domingo vi crianças se divertindo com o "Gostosuras ou Travessuras". Até buzinei. Responderam rindo e abanando.
Mas o filme de terror verdadeiro desta data é a intolerância religiosa e aqueles que, com aspecto de devoção e piedade, adoçam o próprio demônio todos os dias. Os que se vestem de bons moços e com voz de leite condensado tentam impor sua fé ou expor uma falsa preocupação já de olho em votos da próxima eleição.
O Halloween, ah, como eu amo o Halloween! Com toda a sua magia e peculiaridade, a data se apresenta como um momento de celebração que transcende fronteiras, reunindo pessoas em um espírito de diversão e criatividade. Como não se contagiar com a alegria e imaginação das crianças?
Como eu disse antes, sempre há quem prefira o pânico ao lúdico.
E já começou. Os grupos de convicções religiosas férreas, armados de indignação seletiva e de um formidável complexo de vira-latas, decidem infernizar as escolas e demonizar qualquer criancinha fantasiada de vampiro de mentirinha.
É uma histeria cômica, se não fosse trágica. A patrulha do apocalipse moral parece acreditar que, ao cruzar o portão da escola com uma capa de plástico barata comprada no centro, o inocente Pedrinho de oito anos se transformará instantaneamente em Belzebu em pessoa.
É uma falta de fé colossal no próprio deus em que acreditam, pois julgam que o Todo-Poderoso possa ser derrotado por uma abóbora oca com uma vela aromática dentro. Ou que esteja preocupado com isso. Como se no mundo não houvesse catástrofes e crueldade que merecem de verdade Sua atenção.
Vamos aos fatos, com a calma que os histéricos raramente possuem. O primeiro registro do termo "Halloween" remonta a aproximadamente 1745, sendo uma contração do escocês "All Hallows' Eve", que se traduz como a véspera do Dia de Todos os Santos, uma data imbuída de profundos significados cristãos. Contudo, suas raízes se entrelaçam nas tradições ancestrais dos povos que habitavam as terras da Gália e das ilhas da Grã-Bretanha, entre os séculos VI a.C. e VIII d.C. Essas práticas estavam intimamente ligadas ao festival celta de Samhain, uma festividade que celebrava a colheita e que era tradicionalmente observada na Irlanda, Escócia e na Ilha de Man. Ou seja, antes de ser o suposto antro de perdição que os moralistas pintam, é pura história, antropologia e ancestralidade humana.
No cerne do Halloween também se encontram as fantasias que emergiram na França entre os séculos XIV e XV. É crucial lembrar que esse período histórico foi marcado pelo sombrio flagelo da Peste Negra, que devastou quase metade da população europeia. Esta calamidade desencadeou um terror profundo acerca da morte, levando os católicos a multiplicar as Missas em memória dos Fiéis Defuntos, dando origem a representações artísticas que enfatizavam a fragilidade da vida, como as famosas danças da morte, ou danças macabras. Embora o seu conteúdo possa parecer sombrio, festejar à sombra da mortalidade torna-se uma forma sublime de refletir e valorizar a vida.
Paradoxalmente, é nesse contexto que celebramos a memória das almas. Rir da morte sempre foi a melhor maneira de lembrá-la de que ela ainda não nos levou.
Mas os zelosos de plantão preferem o arrepio da ignorância. Temem os seres tenebrosos como se as trevas precisassem de uma festa temática de comércio varejista para agir no mundo. É de uma ingenuidade infantil. O mal real não veste capa de Drácula, não usa dentes de acrílico nem anda com um caldeirão de mentirinha. O mal real usa terno, assina contratos leoninos, manipula discursos de ódio e destrói reputações com um sorriso amarelo nos lábios. Culpam o Dia das Bruxas pela decadência moral da juventude, mas adoram fechar os olhos para a mesquinharia cotidiana que corrói o tecido social.
Na contemporaneidade, a valorização da cultura brasileira está sempre em voga, e não se pode ignorar a riqueza de nossos próprios folguedos. No entanto, se formos condenar toda e qualquer influência externa, corremos o risco de abolir até mesmo festividades que se tornaram ícones incontestáveis da nossa sociedade, como o Natal, o Ano-Novo e até mesmo a célebre canção de parabéns, importada de terras gringas. Seria de um purismo ridículo desmerecer a diversidade cultural que nos constitui como cidadãos do mundo.
Assim, podemos discernir que a importação de elementos culturais, como o Halloween e até o Dia de Ação de Graças, oferece uma riqueza de experiências que pode enriquecer nosso próprio repertório festivo. Se nos tornarmos xiitas em nossas convicções culturais, estaremos perpetuando os mesmos erros que uma vez trouxeram guerras e divisões, banalizando nossa capacidade de acolher o diferente, um fenômeno triste que se reflete na mais pura xenofobia cultural.
Curiosamente, na tentativa de banir o Halloween no Brasil, surgiu a ideia do Dia do Saci, uma celebração que visa eternizar um personagem do folclore brasileiro, inclusive previsto em lei aprovada no Congresso. É uma iniciativa simpática na intenção, mas artificial na execução. Entretanto, é inegável que, apesar de toda a beleza e essência que o Saci representa, tal iniciativa burocrática não conseguiu superar a abrangência e a diversão genuína que o Halloween proporciona. Porque a cultura não se decreta na marra por canetada; ela brota do desejo espontâneo de brincar, de fantasiar e de rir dos próprios medos.
Cultura nunca é demais; pelo contrário, ela se apodera de um espaço apátrida em nossa existência, convidando-nos a celebrar a vida, a criatividade e a comunhão entre as diversidades. As bruxas de plástico passam, as abobrinhas murcham, mas a alegria de ver uma criança correndo atrás de um doce permanece inabalável.
E assim, no espírito do Halloween, encontramos uma oportunidade de alegria que vale a pena compartilhar, sem medo de monstros imaginários.
Um ótimo Halloween a todos.
















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