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As luzes de Dezembro estão piscando em Outubro

Foto do escritor: temporacomunicacao
temporacomunicacao
há 1 dia
4 min de leitura

COLUNA DA PSICOLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Um fenômeno interessante acontece na medida em que o final do ano se aproxima: antes mesmo de dezembro chegar, as pessoas começam a falar sobre cansaço, a demonstrar menos paciência, a se irritar com coisas que antes talvez conseguissem tolerar e a sentir uma vontade quase urgente de que o ano termine logo. Ao mesmo tempo, as ruas começam a ganhar luzes, as vitrines recebem enfeites natalinos e as árvores de Natal aparecem cada vez mais cedo. Parece que, coletivamente, estamos antecipando o encerramento de um ciclo. Mas o que será que estamos tentando encerrar tão depressa?


O final do ano costuma ser um período de muitas demandas emocionais. Não se trata unicamente de concluir tarefas, cumprir prazos, organizar compromissos ou dar conta das responsabilidades que ficaram pendentes. Existe também um movimento interno, muitas vezes silencioso, de olhar para trás, avaliar o que aconteceu, reconhecer o que foi perdido, confrontar expectativas frustradas e perceber a distância entre aquilo que imaginávamos viver e aquilo que, de fato, conseguimos realizar.


Mesmo quando não fazemos essa avaliação de maneira consciente, a proximidade de um novo ano costuma despertar comparações. Pensamos no que conquistamos, no que adiamos, nas relações que mudaram, nas oportunidades que não aconteceram e nas experiências que nos transformaram. É emocionalmente desgastante chegar ao fim de um ciclo carregando não apenas o que vivemos, mas também tudo aquilo que acreditávamos que já deveríamos ter resolvido.


O cansaço do final do ano nem sempre é físico. Muitas vezes, é o acúmulo emocional de meses tentando dar conta de tudo. Ao longo do ano, vamos administrando preocupações, absorvendo problemas, nos adaptando às mudanças, enfrentando frustrações e seguindo em frente mesmo quando não estamos inteiramente recuperados do que aconteceu. Nem sempre existe tempo suficiente para elaborar uma perda, descansar depois de um período difícil ou compreender o impacto de uma experiência. Frequentemente, continuamos e seguimos.


O problema é que continuar não significa necessariamente estar bem. O cansaço acumulado pode comprometer nossa disponibilidade emocional. Quando o organismo e a mente passam muito tempo sob pressão, a capacidade de lidar com novas exigências pode diminuir. Aquilo que antes parecia administrável passa a provocar irritação. Pequenos imprevistos se tornam grandes incômodos. O barulho incomoda mais, as conversas parecem exigir esforço, a convivência fica mais difícil e a tolerância às diferenças diminui.


E por que parece que tudo isso se intensifica quando o ano está terminando? Porque o calendário não é apenas uma organização do tempo. Ele também carrega significados sociais e emocionais. Aprendemos a associar dezembro a encerramentos, avaliações, celebrações, reuniões familiares, férias, metas cumpridas e recomeços. A passagem de um ano para outro ganhou uma espécie de significado coletivo de prestação de contas: é como se, antes de virar a página, precisássemos verificar o que fizemos com os meses que recebemos.


Há, ainda, uma contradição importante: justamente quando muitas pessoas mais precisam descansar, o ambiente social passa a exigir delas mais disponibilidade, mais consumo, mais encontros e mais demonstrações de felicidade. Espera-se que o Natal seja alegre, que as confraternizações sejam agradáveis, que as famílias estejam reunidas e que a chegada de um novo ano seja motivo de entusiasmo. Mas a experiência humana não se organiza conforme o calendário. Não existe uma obrigação emocional de terminar o ano bem.


E se as luzes de Natal estiverem aparecendo cada vez mais cedo porque estamos cansados de esperar? Quando as luzes de Natal aparecem ainda em outubro, antes mesmo de o ano ter terminado de acontecer, podemos nos perguntar se existe algo nessa antecipação que conversa com o nosso desejo de chegar logo a um lugar emocionalmente diferente daquele em que estamos. Talvez estejamos apenas acompanhando o comércio. Talvez gostemos da estética, das luzes e da atmosfera natalina. Mas também é possível pensar que, para algumas pessoas, a chegada antecipada do Natal represente uma pequena promessa de pausa, acolhimento e renovação.


As luzes podem representar um convite à esperança em um período em que muitas pessoas estão emocionalmente esgotadas. O Natal pode evocar a lembrança de vínculos importantes, de momentos de afeto, de tradições familiares e de experiências que oferecem alguma sensação de continuidade em meio às incertezas da vida. Para algumas pessoas, enfeitar a casa é uma forma de criar beleza em meio ao cansaço. Para outras, é uma maneira de recuperar uma tradição, construir memórias ou oferecer às crianças uma experiência de encantamento. Há também quem encontre nessas pequenas mudanças ambientais uma sensação de movimento, como se preparar a casa para uma celebração ajudasse a preparar internamente um espaço para algo novo. Às vezes, antecipamos os símbolos de um recomeço porque estamos precisando daquilo que eles representam.


Se você percebe que está mais irritado, impaciente, desanimado ou exausto, vale observar o que está acontecendo para além dos sintomas. Há quanto tempo você não descansa de verdade? Quantas responsabilidades assumiu sem avaliar os próprios limites? Quantas vezes disse que estava tudo bem porque não encontrou espaço para admitir que estava difícil? Também é importante rever as expectativas. Você não precisa comparecer a todos os encontros, aceitar todos os convites, concluir todos os projetos ou transformar o fim do ano em uma demonstração de produtividade. Escolher o que realmente importa e estabelecer limites também são formas de cuidado.


Se a irritabilidade, a exaustão, as alterações do sono, a tristeza ou a dificuldade de realizar atividades cotidianas forem persistentes, intensas ou estiverem prejudicando sua qualidade de vida, não atribua tudo ao final do ano. Esses sinais merecem atenção e podem justificar uma avaliação profissional. O calendário pode ajudar a organizar a vida, mas não deve determinar o tempo de que precisamos para nos recuperar. O descanso não precisa ser uma recompensa por termos suportado tudo. A pausa não precisa acontecer somente quando todas as tarefas estiverem concluídas. E o cuidado consigo não deveria ser adiado até que sobre tempo. A vida não precisa estar pronta para que um novo ciclo comece. E você não precisa se esgotar para merecer recomeçar.


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