Halloween, Morte e Memória: Os Simbolismos por Trás do Dia das Bruxas
- temporacomunicacao
- 27 de out.
- 3 min de leitura
Coluna da psicóloga Franciele Sassi
O Dia das Bruxas, ou Halloween, é celebrado em 31 de outubro e carrega uma rica teia de significados que atravessam séculos e culturas. Muito além das fantasias e das abóboras iluminadas, essa data é um eco de antigas tradições que buscavam compreender e conviver com o mistério da morte.
As origens do Halloween remontam a um festival celta denominado Samhain, celebrado há mais de dois mil anos. Para os celtas, o fim de outubro marcava o encerramento do ciclo das colheitas e o início do inverno — tempo de escuridão, de introspecção e de proximidade com o mundo espiritual. Acreditava-se que, nessa noite, o véu entre os vivos e os mortos se tornava mais tênue, permitindo que as almas dos antepassados visitassem o mundo terreno. Era um momento de reverência, de lembrança e também de medo — um misto de respeito e inquietação diante do inevitável destino humano.
Essa convivência ritualizada com a morte revelava uma sabedoria antiga: reconhecer que ela não é apenas fim, mas parte do ciclo natural da existência. O frio e a escuridão do inverno simbolizavam o recolhimento, o luto e a introspecção necessários para que a vida pudesse renascer na primavera.
Com o passar dos séculos, a cristianização da Europa transformou o Samhain na véspera do Dia de Todos os Santos — All Hallows’ Eve — origem etimológica do termo Halloween. A celebração adquiriu novos contornos, mas manteve a ideia do diálogo com a morte e o além. As fogueiras, as máscaras e as abóboras iluminadas (substitutas das antigas lanternas de nabos) tornaram-se símbolos de proteção contra espíritos errantes, ao mesmo tempo em que evocavam a ideia de manter acesa a chama da vida em meio à escuridão.
No contexto contemporâneo, o Halloween perdeu boa parte de sua carga religiosa ou espiritual e se tornou uma festa lúdica, marcada por brincadeiras e fantasias. Ainda assim, seus símbolos — caveiras, fantasmas, bruxas, abóboras — continuam a expressar uma verdade ancestral: o desejo humano de compreender e, de certo modo, domesticar a morte por meio da arte, do riso e do ritual. Em outras palavras, a ideia de enfrentar fantasmas, monstros e caveiras expressa, de modo simbólico, a tentativa de encarar aquilo que mais nos assusta — a finitude e a perda.
Assim, o Halloween pode ser compreendido como um ritual coletivo de enfrentamento do medo da morte. Ao vestir fantasias e brincar com figuras que representam o terror e o sobrenatural, o ser humano transforma o medo em riso, o desconhecido em narrativa, a ausência em presença simbólica. Essa é uma forma de “brincar com o inominável”, de dar forma ao invisível para que ele se torne suportável.
Relacionando Halloween com luto, podemos ver o quanto ambas as experiências lidam com a presença da ausência. O luto é o espaço simbólico onde os vivos se reconciliam com o fato de que o amor e a memória persistem mesmo após a morte. Assim como no antigo Samhain, o luto é também um tempo de passagem entre a dor e a aceitação, entre o silêncio e a lembrança.
Dessa forma, o Dia das Bruxas, em sua essência, fala não apenas de sustos e sombras, mas também de memória e continuidade. Ele recorda que a morte, embora temida, faz parte do mesmo ciclo que dá sentido à vida — um ciclo de transformação, em que a escuridão do fim sempre anuncia o renascimento de uma nova luz.
O Halloween guarda uma mensagem ancestral: é preciso olhar para as sombras para compreender a luz. A festa das bruxas não é apenas sobre fantasmas que vagam fora de nós, mas também sobre os fantasmas que carregamos dentro — o medo da perda, a saudade, a consciência de que tudo passa. Celebrar o Halloween é, de certo modo, aprender a dançar com a morte para poder viver de forma mais inteira.















Comentários